Fialho de Almeida – centenário da morte

Há cem anos, morria um escritor que poderia ter sido ainda maior: Fialho de Almeida. De comum com Eça tinha o dom da observação social, embora preferisse retratar o povo, enquanto a escrita queirosiana se debruçou mais sobre a burguesia. De resto, Fialho não se preocupava com finuras e aquilo que em Eça podia ser um véu eufemístico, em Fialho era crueza. Se aquele escandalizou pelos temas, este não hesitou em fazer passar a língua portuguesa pela sarjeta, especialmente em Os Gatos, a sua obra mais conhecida. Aqui, é possível ler uma belíssima biografia do autor.

À laia de homenagem, fica um dos meus excertos preferidos, retirado da compilação felina: “O violoncelista Sérgio num café da Mouraria”:

“Sérgio, primeiro violoncelo de S. Carlos, vai dar concertos todas as noites a um café de fadistas da rua Fernandes da Fonseca, antiga Carreirinha do Socorro, mesmo defronte do Príncipe Real.

É destes raros artistas, irregulares por herança mórbida, que passam a vida a cortar as amarras que prendê-los possam a todas e quaisquer conveniências da vida social, e cuja acuidade estética se afusa na proporção do senso moral, que dir-se-ia contrariar-lhes as rêveries do seu mundo interior. Tipo do povo, alto, seco, avermelhado do álcool, e com uma pequena cabeça de sargento velho de ópera cómica, Sérgio é o tipo desses decilitreiros que monologam de noite pelas ruas, às esquinas ladeirentas, às portas das escadas, diante dos monumentos e dos cartazes, pondo uma silhouete hoffmânica na banalidade do fora de horas de Lisboa.

Jamais, na sua vida de violoncelista raro, ora solicitada pelas deferências dos convictos admiradores da sua arcada, ora pela blandícia desses parvenus que só querem tirar da convivência com músicos e pintores, meros partidos cénicos de dandismo… jamais ele conseguiu moedar-se às fórmulas artificiais da correcção sem a qual o mais belo espírito se arrisca a passar nos salões por um criado, entre os desdéns das mulheres, as jogatas dos sportmen, e a fria insolência dos velhos pilotos de cotillon.”

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