de menina subordinada a figura carísmática

 

Maria de Lurdes Pintassilgo

Por assuntos políticos, tive um desgosto  por causa de um texto meu, dito copiado, repetitivo, nada original, referia quem criticava. Quem leu, não entendeu e lembrei-me deste texto dedicado a uma amiga com quem partilhámos até as nossas visitas a Vilar de Perdizes e debatíamos de teologia popular e de teologia doutoral, ela e eu, como tantos outros: os meus discípulos, outros escritores, estudantes e camponeses. Cada um de nós, tinha uma parte da verdade. Especialmente com Natália Correia, que costumava dizer que tinha terror de mim: eu sabia muito, e ela, apenas era uma escritora política, membro da Assembleia nos seus dias. Natália falava assim, para nós consola-la, adorava ser louvada! E conseguíamos, também em Vilar de Perdizes. Bem sabemos que por Aristóteles, quer por Descartes, que a verdade não é unívoca. Bem ao contrário, é de uma larga heterogeneidade, tem que se ajustar aos minutos de debate que no nosso país sempre houve. O texto impingido, punido, mal falado no espaço público do nosso blogue para assim todos saberem que eu era um péssimo escritor. Lembrei-me, assim, de outra amiga, suave, firme, forte e que sabia calar quando não era conveniente dizer palavras, como Natália, Maria de Lurdes Pintassilgo fumava imenso. Com anos de diferença, não muitos, deixaram-nos. Nada digo de Natália, éramos de ideias diferentes. Mas Maria de Lurdes faz-nos falta hoje, quando estamos desgovernados, não temos autoridades que definam que fazer em esta época de crises política e económica. Ela sabia, também teve os seus problemas quando passou a ser a primeira mulher de Portugal a  ser eleita Primeiro-ministro da nossa República e a segunda da Europa, antes de entrar a da Grã-Bretanha.

Era uma engenheira socialista, que sabia como retirar ao país dos perigos da falência, como o nosso sábio PM de hoje, tem tentado fazer. Porque não foi possível? Está definido no texto publicado ontem. Maria de Lurdes não teve traidores, teve sempre apoio e uma imensa popularidade, era uma boa socialista e muito cristã, não permitia rasteiras, como acontece na crise políticas que vivemos hoje. Depois da revolução do 25 de Abril de 1974, foi nomeada secretária de Estado da Segurança Social no I Governo Provisório. Em 19.07.1979, foi indigitada pelo presidente da República, general Ramalho Eanes, para chefiar o V Governo Constitucional (31.07.1979 – 03.01.1980), um governo de gestão incumbido de preparar as eleições legislativas intercalares marcadas para 2 de Novembro desse ano. Ao aceitar desempenhar aquelas funções, Maria de Lourdes Pintassilgo tornou-se a primeira mulher portuguesa a assumir o cargo de chefe do Governo. Foram características da sua acção governativa, nas palavras de um historiador, uma liderança dialogante, bem como a manifesta preocupação de justiça social que trespassou a produção legislativa daquele período (REIS, António, «O poder central» in Portugal 20 Anos de Democracia, coord. de António Reis, Temas e Debates, 1996, p. 80).

Conhecendo bem a sua vida e o papel da salvação que teria jogado no país se for viva, apenas posso acrescentar estas palavras, que ela usava para organizar o governo:

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Natália Correia

Vamos andando, Maria de Lourdes. Vamos andando. Com passo lento, com memórias, cheio de respeito. Um passo que acompanha um modelo de comportamento. Vamos andando ao ritmo das minhas letras, enquanto a nossa Antiga Primeira-ministra é levada a descansar. Ritual, esse, que evito presenciar, desde o tempo em que a ditadura do meu País de origem não me permitiu acompanhar os meus pais. Palavras que acompanham o ritual evitado. Vamos andando sem falar, ao lado da Senhora Engenheira e a pensar nas suas causas: procura da igualdade não existente para as mulheres que o etnocentrismo português tem rapinado para nós, homens, e que Maria de Lourdes começou cedo na vida a lutar para recuperar. Com base numa ideia escrita, essa que é a nossa primeira escola ou ensino, aceite ou não, mas que constitui uma realidade cultural: a aprendizagem da Bíblia e do Catecismo; ou essa outra que nunca é mencionada, mas que é conhecida por todos, a Lei Civil, que até 1956, na idade da sua infância, colocava a mulher em terceiro lugar, a seguir ao homem e à descendência; ou ainda, a lei costumeira proveniente da mitologia, derivada do ideal Mariano, que Maria de Lourdes costumava dizer era a sua missão na vida mito básico para pautar as nossas vidas, republicanos ou não, dentro da interacção cultural.

Ideias que se queriam mudar durante a sua infância e a dos seus pais, mas apenas conseguido no desempenho da sua actividade, ao entrar no Ministério da Segurança Social no 25 de Abril, contempladas pelos mais novos, como foi o caso de Maria de Lourdes em pequena. Numa época que separava estritamente as crianças femininas das masculinas, ao atribuir maior valor às masculinas e relegando as pequenas a cerzir, tomar conta da cozinha, tratar dos mais novos e, especialmente, que dispensava de assistir à escola toda a rapariga que tivesse passado nos anos 40 do Século XX a primeira classe, independentemente da classe social.

Vamos andando no cortejo, no modelo, para demonstrar que é esta a forma processual que pode levar às mudanças que ainda acontecem no nosso País durante 30 anos, por causa da lei costumeira, apesar da luta empreendida por grupos de mulheres que, sem abandonarem essa feminilidade requerida pela vida social, alcançaram sítios de poder e lutaram contra o machismo social. Feminilidade que adjectiva, como diz a minha padroeira Alice Miller, em 1986, dividindo o mundo em dois: esse do poder masculino que manda sem esperar resposta; esse do não poder feminino, sinónimo de força de trabalho, que obedece, como mandava o ritual romano nos Cânones 1055 a 1162 até 1981: as pessoas não eram semelhantes no contrato, a mulher devia obediência e submissão ao marido, tal como mandava a Lei Civil do Século XX, nos Artigos 1587 e seguintes, e, como legisla o Catecismo de 1991 nos artigos 1601 e seguintes, especialmente ao falar do consentimento no 1625, artigos sobre o rito romano do matrimónio, que contextualiza a Lei Positiva.

Formas de pensar mudadas pela intervenção de algumas Pintassilgo e outros republicanos, que têm feito do seu viver uma missão na procura da não diferenciação entre sexos quanto ao consentimento, vontade, direitos, obrigações e entrega à solidariedade. Uma entrega à caridade que não faz distinção no ponto mais importante da vida social: classe e recursos.

Uma primeira Engenheira Química Industrial e Maria Amélia Índias Cutileiro de Portugal, embora em Física. Uma primeira Primeira-ministra de Portugal, porque já existiram, por bem ou por mal Indira Ghandi, Margareth Thatcher, Benazir Bhutto; uma Primeira Candidata à presidência de um país machista, Isabel Martínez, Argentina, Vigdis Finnbogadóttir da Islândia, Violeta Chamorro da Nicarágua, Mary Robinson da Irlanda, Presidentas eleitas em voto popular, entre outras.

É verdade que o denominado sexo feminino tem tido raro acesso ao poder central e, menos ainda, no nosso Portugal, este pequeno País dentro do qual a mulher tem sido muito relegada ou, por vezes, se conseguir alcançar o poder político, o seu agir é, como se denomina, masculinizado por nós, os homens. Ou, por outras palavras, há um comportamento associado ao trabalho, que nós definimos, para quem chegar primeiro a um certo lugar habitualmente ocupado pelo género masculino. Pode-se ser Doutorada em Física, mas não a primeira. Sim, a primeira em Química Industrial. Sim, a primeira no mais alto sítio do poder. Sim, a primeira no Conselho de Estado. E, especialmente, a Primeira em entender que a sua Crença, essa com que eu me tenho batido por etnocentrismo o Euro 2004 não foi nosso, foi da Nossa Senhora, pois até o guarda-redes tinha prometido uma romaria a Fátima se ganhasse. É a luta das pessoas com Carisma que sabem dizer ao Dr. Cunhal que a romaria a Fátima, a seguir ao 25 de Abril, não é uma manifestação política, é apenas uma forma simples e habitual de se recorrer no dia em que o inesperado acontece a liberdade.

Um comportamento modelar na simplicidade, nas cores da indumentária, no penteado, na forma firme de falar e de lutar por povos fora de Portugal, em nome de Portugal. Aí Maria de Lourdes foi a Primeira ao abraçar uma crença central na sua vida, sem se afundar em homilias e passar da ideia central catequista de amor ao próximo, à luta pela solidariedade social, o Primeiro lugar político que ocupou em Democracia.

Vamos andando, lentamente, Maria de Lourdes, em silêncio, apenas com o Hino Nacional e as palmas, para nos acompanhar. Lentamente, por teres sido um modelo para as raparigas portuguesas que têm seguido os teus rumos no mesmo campo, como Lígia Amâncio, entre outras e em silêncio, como Graça Cordeiro, Rosa Maria Peres, outras do meu conhecimento; especialmente no campo da Etnomatemática e da Etnofisiocracia, como Darlinda Moreira e Amélia Maria Frazão. E a quantidade de nomes de mulheres que lutam caladas pelos novos saberes, como Berta Nunes e Teresa Joaquim. Todas elas lusas, como Maria de Lourdes. Com Carisma, conceito definido por Martim Lutero nos seus textos de 1599 e retomado, para análise, por Max Weber em 1904 e pelo mentor da recente guerra do Paquistão, Tony Giddens, em 1966.

Vamos. Andando em silêncio. É a hora de calar. Apenas acrescentar que a fundadora do GRAAL lutou por causas perdidas entre as nossas definições, masculinas, e ganhou. Exemplo é esta multidão que imita e acompanha, como na luta Primeira. Porque, é a sua autoridade incontestada radiante de Carisma, que as novas crianças vêem e respeitam. Vamos calando.

Uma pequena lágrima por companhia. Em olhos bem abertos e nunca fechados para observar o comportamento de mulheres que souberam servir a sua Nação. Obrigado, Senhora Engenheira, Primeira Primeira-ministra de Portugal, muitas mais vão seguir esse exemplo. E nós a respeitarmos. Vamos andando. Passo-a-passo. Para o merecido descanso.

São estas as palavras que vêm a minha cabeça ao reparar que entre a sua salvação da Nação e a que se tenta hoje, Maria de Lurdes teria feito como fez nos tempos de Ramalho Eanes: não se amedrontar, ir sempre em frente.

Que aceitara cargos de Marcelo Caetano, não retira nem o seu socialismo nem o seu cristianismo sem par

Quem nos dera uma Pintassilgo para nós salvar na pior crise que o nosso país tem tido. Sim, houve um Sidónio Pais, sim, houve um Salazar e um Caetano, mas a sua obra somo socialista e mulher de fé, neguem lhe pode retirar. Era, como eu a denominava, una freira civil

Quem nos dera uma personalidade forte com a dela, para nos salvar da falência causada pelos partidos de direita, onde Passos Coelho não admite coligações antes das eleições, certo está, parece-me, que pensa que será o próximo PM. Se foi combativo com demissionário e continua a sua luta para permitir a entrada de instituições estrangeiras que eles vão-nos arruinar, a nossa nação vai cair no pior dos desastres e todos sabem essa tsunami das perversões financeiras.

Onde estás, Maria de Lurdes?

Raúl Iturra

Haydn, violoncelo concerto, Rostropovich, 1981

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