materialismo histórico

marx_engels

Parece-me redundante falar do materialismo histórico. Bem sabemos que Marx o retirou dos Manifestos de Babeuf, dos seus estudos com Hegel em Berlim. No texto de 1848, A ideologia Alemã, Marx, Engels, e Jenny Marx ou a Baronesa Prussiana Johanna von Westphalen, de forma firme e decidida, proclamam e argumentam que não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência. Ideia retirada de Hegel, da sua investigação entre os operários, especialmente da AIT, dos debates que tinham entre eles sobre as leituras feitas.

Diz Marx no seu texto crítico sobre A Ideologia Alemã,  este parágrafo que vou citar em extenso:

Por conseguinte, o facto é este: indivíduos determinados, com uma actividade produtiva segundo um modo determinado, entram nessas relações sociais e políticas determinadas. Eram cada caso isolado, a observação empírica deve mostrar, empiricamente e sem nenhuma especulação ou mistificação, o elo entre a estrutura social e política e a produção. A estrutura social e o Estado resultam constantemente do processo vital de indivíduos determinados. Mas resultam desses indivíduos, não da maneira como surgem aos próprios olhos ou aos olhos dos outros, mas tal como são na realidade, isto é, da maneira como operam e produzem materialmente, como agem nas bases, condições e limites materiais determinadas e independentes da sua vontade.
A produção das ideias, das representações e da consciência está antes de directa e intimamente ligada à actividade material e ao comércio material dos homens. É a linguagem da vida real. As representações, o pensamento, o comércio intelectual dos homens surgem, ainda aqui, como a emancipação directa do seu comportamento material. O mesmo se passa com a produção intelectual tal como se apresenta na linguagem da polícia, das leis, da moral, da religião, da metafísica etc. de um determinado povo. São os homens os produtores das suas representações, das suas ideias etc., mas os homens reais, actuantes, tal como estão condicionados por um desenvolvimento determinado das suas forças produtivas e das relações que lhes correspondem, incluindo as formas mais vastas que essas forças e relações podem tomar. A consciência nunca pode ser outra coisa senão o ser consciente ( das bewusste Stein ) e o ser dos homens é o seu processos de vida real. E se, em toda a ideologia, os homens e as suas relações nos surgem de pernas para o ar, como numa câmara escura, o fenómeno resulta do seu processo histórico de vida da mesma maneira que a inversão dos objectos na retina deriva do seu processo de vida directamente físico.
Ao contrário da filosofia alemã, que desce do céu para a terra, é da terra para o céu que aqui se sobe. Por outras palavras, não se parte do que os homens dizem, imaginam ou se representam, nem tão-pouco daquilo que são, nas palavras, no pensamento, na imaginação e na representação de outrem, para se chegar depois aos homens em carne e osso; não, parte-se dos homens na sua actividade real e é segundo o seu processo de vida real que se representa também o desenvolvimento dos reflexos e dos ecos ideológicos desse processo vital. Mesmo as fantasmagorias do cérebro humano são sublimações que resultam, necessariamente, do seu processo de vida material, que se pode averiguar empiricamente e que repousa em bases materiais. Devido a este fato, a moral, a religião, a metafísica e tudo o que resta da ideologia, bem como as formas de consciência que lhes correspondem, perdem imediatamente qualquer aparência de autonomia. Essas formas não têm história, nem são susceptíveis de progresso. São, pelo contrário, os homens que, ao desenvolverem a produção material e as relações materiais dessas formas, transformam, com essa realidade que lhes é própria, tanto o seu pensamento como os produtos do pensamento. Não é a consciência que determina a vida, mas a vida é que determina a consciência. No primeiro modo de considerar as coisas, parte-se da consciência como sendo o Indivíduo vivo. No segundo modo, que corresponde à vida real, parte-se dos próprios indivíduos reais e vivos e considera-se a consciência unicamente como a sua consciência.
(Marx e Engels: A Ideologia Alemã Oeuvres, t. V, pp. 15-16, Mega. Espedificamente da 1ª parte do livro em comentário: “Feuerbach”), pp. 16-18, Editions Sociales, 1953).

Texto que não precisa de comentários, excepto acrescentar que nasce da lógica dialéctica. O materialismo histórico é uma abordagem metodológica ao estudo da sociedade, da economia e da história que foi pela primeira vez elaborada por Karl Marx e Friedrich Engels(1818-1883), mau grado ele próprio nunca tenha empregado essa expressão. O materialismo histórico na qualidade de sistema que explica factos investigados foi expandido e refinado por milhares de estudos académicos desde a morte de Marx, a, organizada pelos Marxs e Engels, derivada de Feurebach e Hegel.

Esta é a base da minha teoria da História, bem ao contrário de angelical teoria alemã, preocupada mais com a salvação da sua alma do que do trabalho produtivo, esse tesouro. Como Weber, ao comentar Marx  em 1904, devia pôr em singular que as mulheres apenas eram parideiras, lavar a roupa e organizar a comida.

Mas na casa dos Marxs todo era diferente. Havia uma permanente romaria de operários para falar com Karl Heinrich, eram sentados á mesa, comiam porque a pobreza suscita a fome e Jenny era capaz de não comer para alimentar os trabalhadores, como diz MacLellan no seu texto de 1973: Kalr Marx, His life and Thought, Papermack , texto que uso para este argumento. O original, publicado por The Macmillan Press ,Londres, está em outra das minhas bibliotecas; também, base do meu argumento, as biografias de Johanna von Westphalen, especialmente: 1986 , Red Jenny. A life with Kart Marx da autoria de Heinz Peters Frederich Peters da Universidade de Dresden.

Esta é a minha concepção da Ciência da História, aprendida por mim com Ferdinand Braudel Maurice Godelier, Pierre Bordieu na França, e com Eric Hosbawm, Jack Goody e Maurice Dobb  na Grã- Bretanha, bases para o meu texto no Aventar sobre A Baronesa Vermelha.

Comments

  1. Rodrigo Argento de Souza says:

    Texto simples, de fácil compreensão e acessivel. Didático como deve ser o conhecimento. Obrigado pela contribuição.

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