Como chegámos aqui?

Desde que Cavaco abriu a torneira do crédito fácil que passaram a ele recorrer, de forma abundante, tanto os particulares como  empresas, instituições e governos. E porque houve recurso ao crédito para crescer? Naturalmente porque não há crescimento infinito e porque a produção de riqueza no ocidente baixou de facto graças à globalização.

Todos se queixam da bofetada que agora estão a levar mas o facto é que poucos, que até levaram com a alcunha de velhos do restelo, se indignaram com o facto do Estado, durante três décadas, ter sustentado a economia à conta de obras públicas.

Encargos dos Estado com as concessões SCUT

Vale o que vale, e vale pouco, mas o meu primeiro post no Aventar foi precisamente sobre as SCUT e sobre os seus encargos financeiros. E no Fliscorno já  há que tempos andava nesse assunto. E o Tribunal de contas já em 2003 tinha alertado para o caos financeiro que as SCUT trariam. Só não viu quem não quis. E os eleitores não quiseram ver. Queixam-se de quê? Aguentem-se, que o livre arbítrio tem destas coisas.

Giro, giro, é ver agora a malta indignada com os juros dos empréstimos e nem choraram quando andaram a defender ainda mais endividamento em manifestos de apoio às obras públicas. Íamos tendo um TGV e um aeroporto. Tivemos escolas modernaças, que pintar e restaurar não chegava. Tivemos computadores a rodos, turbinas eléctricas e carro eléctrico. Houve o buraco da Madeira e o BPN. Mas, no momento de por o X no boletim de voto, os que agora se queixam do seu infortúnio pensaram por um momento que tudo isto tinha que ser pago? E esse  triste deputado que se está a marimbar para a dívida, onde andava então?

Vale a pena relembrar Gueterres a 20 de Maio de 2000  em Aveiro por ocasião do cerimónia de assinatura do contrato de concessão ao consórcio Lusoscut da construção, financiamento, conservação e exploração de 109 quilómetros de lanços do Itinerário Complementar nº1.

“Portugal está a viver o período mais significativo de lançamento de obras públicas da sua história. A colaboração entre o Estado e a iniciativa privada é um modelo de desenvolvimento que tenderá a generalizar-se na Europa, pois permite mais eficácia e rapidez a custos controlados”.

Viu-se.

Comments


  1. Tudo muito lindo, mas o problema com as obras públicas foi a corrupção, e corrupção há em todos os países. Há por aí estudos mundiais regulares e tudo. Nisto fomos a regra, não fomos a excepção. Em que é que isso nos distingue dos outros países europeus? Porquê esse complexo de culpa?

    • jorge fliscorno says:

      Qual corrupção? O modelo de financiamento das SCUT foi corrupção? Se calhar tem razão, já que foi uma forma fazer obra para ganhar eleições e deixar a conta para os outros.


      • Os contratos e respectivas projecções financeiras nunca são discutidos na praça pública em tempo útil. E mesmo nas eleições ninguém fez muito alarido do assunto SCUT. É que andaram muitos a comer da mesma gamela.

        O problema não foi fazer as autoestradas, foi como os governos escolheram a forma de pagamento. Tendo em conta que o lucro dos privados foi garantido e o Estado tem de arcar com todos os défices dessas autoestradas, parece-me bem claro que houve jogada.

        • jorge fliscorno says:

          Completamente de acordo.

          Quem negociou isto sabia o que estava a fazer: bastava ver quanto custaria a obra em contrato normal e em modo de engenharia financeira SCUTiana.

          Quanto a discutir os negócios na praça pública, acho que isto é um bocado como a programação televisiva: o público ouve e vê o que quer ouvir e ver.

      • maria celeste d'oliveira ramos says:

        Deveríamos, pelo menos, ir a 1986 e ver como e onde e por quem foram gastos os subsídios da UE e é de tal foma irrelevante o planeamento global em Portugal que anos houve em que não sabendo como utilizar os dinheiros, se teve de devolver.Mas podemos ir mais atrás-Projecto da Cachão+projecto de drenagem do vale do Mondego e projecto de rega+projecto do Caia antes da Barragem Alqueva + Alqueva + PAC que deitou tudo abaixo para dar a algum país que desconfio qual é++Porto de Sines (1973) que uma onde de 17m desfez e ali há ondas de 25 metroa e de 50 m de profundidade-era fartar vilanegem as casas novas “oferecidas” a colgas meus-o GAS foi extinto em 1986 porque ?? ++ EXPO 98 ++ Estádios de Futebol Euro 94 +++ CCB +++projectos de turismo feitos pelos funcionários que não podendo assinar pagavam a assinatura a “alguém”(sei do que digo porque trabalhei nestes locais) +++++ o que quer ??? – assim até dá para pensar nos Planos Quinquenais de Salazar – você conhece algum plano de desenvolvimento a curto e médio e longo prazo ?? eu não conheço e nunca vi ++ os 398 PDM que passaram TODOS pela minha mão porqye tive de analizar e dar parecer técnico (1995 creio-foi a 1ªvez) + fiz em 1977 a 1ª revisão do Plano de Sines que 1200 funcionários nunca se lembraram de “fazer” – fiz eu o que deu logoo lugar à 2ª revisão desta vez com alguns dos TIPOS que o deviam ter feito a tempo – ainda guardo parte dos desenhos desses 80 mil hectares- depois fartei-me claro mas entetanto o governo ENCERROU as portas-estava dentro do serviço COMISSÂO anti-corrupção (uma espécie de TROIKA portuguesa) pelo que penso que mesmo com o que se passou nos USA em 2008 e passou para a UE, poder-se-ía não estar na MISÈRIA material e a ficar sem 2 subsídios já que com este meu feitio, nem sequer era promovida, pois dependia da classificação do “chefe” e eu tinha boa mas não eram OBRIGADOS a automaticamente promover-me mesmo com vaga no quadro – mas mandram-me para NY em 1992 representar 2 ministérios e fui como me enviaram para Genêve (1993+1995) continuar esta situação – e por acaso até tive Guterres como chefe- e por acaso trabalhave e gostava mas amigos não tinha (no emprego não quiz amigos nunca) e por acaso alguns colegas até depois foram ministros e Gestores da Cª das àguas de Lisboa e outras coisas boas”+++++++++ etc – podoa escrever o livro NEGRO da FP – das chefias claro e dos colegas que se “moldavam” a tudo – a situaçºao de hoje vem de londe – mas basta.me recorrer apenas a 1986 e os subsídios para valorizaçao profissional e o Torres Couto que se pirou para não ser preso + a compra de casa na cidadeálgarve+alentejo+todo-o-terreno mais agoratopos de gama que enchem a minha rua e alguns são levados por não estarem pagos + as construções URBANAS aprovadas em locais de non aedificandi que até na rua tenho um de 3ha (e declarado depois de habitado, CLANDESTINO este ano pela CLM que o tinha aprovado por baixo da mesa)- se quizer faço uma longa lista mas não o farei-só quero estar LONGE de tudo isso – mas entra.me em casa e no aumento do IRS + corte de contribuição ADSE +++++++++ etc

        • jorge fliscorno says:

          Sem dúvida que podia escreve esse livro negro. Matéria-prima não lhe faltaria.

          Recordo-me bem dos tempos dos subsídios. A CEE parecia uma vaca fértil onde todos fizeram vida. E não foram só os graúdos, apesar desses como o Torres Couto, ainda se ter safo melhor. Foi mesmo a generalidade da população. Quem nunca ganhou um tostão da CEE que atire a primeira pedra.

          E agora? Agora não há CEE, quase que não há UE mas há a Alemanha e Merkel. Curiosamente continuam a dar-lhe a mesma adjectivação animalesca mas por outras razões. Memória curta.

    • maria celeste d'oliveira ramos says:

      Se os outros matam e esfolam porque não nós também ??? BOA !!! continue – fundamental não ter complexos


      • D. Maria Celeste d’Oliveira Ramos: este empréstimo é impagável se não voltarmos a crescer muito e rápido. É matemático. Se é imposta uma recessão vamos acabar na bancarrota na mesma em 2013, só que ainda mais endividados. O que acha mais honesto: exigir que o país tenha a folga de tempo e dinheiro necessários para corrigir a situação ou deixar o país ir ao fundo ainda com mais estrondo?

  2. Tiro ao Alvo says:

    Tem toda a razão. Gostei deste seu post, clarinho como água. Obrigado.


  3. Não tivessem optado pelo regime “SCUT” onde se atirou areia para os olhos de todos e o povinho nem sequer quis saber como se ia pagar, já que o que interessa é ter auto-estradas por todo o País, metade delas não seriam construídas.
    Olhem à volta e vejam se metade delas se justifica pelo volume de tráfego que gera. Nem quando eram 100% gratuitas para lá passarem, havia um volume razoável de tráfego. Veja-se a recente A32…tem portagem em metade do percurso e mesmo onde não é portajada, raramente há uma ultrapassagem, é absurdo! E só tem 3 faixas em cada sentido.
    A32…A41…e outras que há por aí aos pontapés e ficam perto da área metropolitana do Porto, não há tráfego que a justifique, mesmo que não tivessem portagens como estava previsto, e isso é visível nos troços não portajados. E depois levantam-se uns quantos “não temos alternativas”, pois, não tem…o povo Português nunca tem nada, mas esquecem-se do principal, não temos dinheiro e já não temos futuro, Portugal não gera cash flow para pagar os milhares de milhões emprestados pelo resto do Mundo (eu sou um dos que acha que se deve pagar o que se pede emprestado, embora correndo o risco de ser censurado), nem gera rentabilidade das suas operações para criar emprego e movimentar e economia (não sou um acérrimo defensor dos 6 milhões de funcionários públicos, mas a economia precisa de estímulos e simplificação para atrair privados que invistam e criem emprego).
    Este Governo está a parar a economia porque precisa de reduzir os custos imediatos, mas os efeitos que isto terá na sociedade nos próximos anos vão ser decerto muito duros. Se o povo se preocupasse com outras coisas, que realmente assustam, em vez dos 10 cêntimos ao quilómetro que pagam se quiserem usar essa infra-estrutura, acho que a coisa se poderia encaminhar melhor, mas estamos e iremos continuar a perder tempo com peanuts… porque no meu bolso dói os 0,10€ por Km, mesmo que eu ganhe 5000€, mas se um dia ficar sem emprego ou a empresa onde trabalho decretar layoff, as prioridades logo se alteram. Cada um pensa no seu umbigo, não é defeito…
    (Gostei do post e da análise)


  4. Enquanto não houver responsabilização política e criminal para quem exerça mal os poderes que lhes são confiados pelos eleitores, isto continuará assim. O caso Isaltino é apenas um dos exemplos da impunidade, porque há outros como o BPN, as Scut e os submarinos, para nomear apenas alguns.
    Cumps

    • jorge fliscorno says:

      Os políticos fazem-me sempre lembrar as redomas de vidro. Parecem estar no seu mundo, isolados de tudo o resto, como se uma campânula os separasse do resto do mundo. E separa. Chama-se a essa parede de vidro Partido.


  5. Na mouche! Muito bom post.

    Os modelos de desenvolvimento económico insustentáveis aliados a uma corrupção vasta e sem qualquer controlo teriam que, inevitavelmente, acabar na presente situação.

    O pior é que não vejo uma mudança de atitude fundamental no presente governo. As políticas seguidas não parecem ser assentes na racionalidade, pelo contrário, são impostas como se fossem dogmas de uma religião qualquer. Hoje, como no passado, há pessoas razoáveis que demonstram por a+b a perfeita insustentabilidade do curso actual, no entanto nada se faz para mudar esse curso.

    Das duas uma, ou os nossos políticos são extremamente burros, ou então não estão a trabalhar para o bem do país.


  6. Texto parcial, como parece ser habitual.

    Esquece-se de muitas coisas, nomeadamente:

    1. O povo português é, na generalidade, um povo ignorante e mal formado. Sabendo que estas características se perpetuam se não houver um estímulo exterior (como um bom ensino público obrigatório) a responsabilidade pela ignorância é do próprio povo? Ou dos governos? Não conheço ninguém que tenha nascido com conhecimentos avançados de economia, ou qualquer outro.

    2. Se um povo toma decisões de voto, ou quaisquer outras, sem possuir os conhecimentos para as tomar da forma mais adequada a culpa é dele ou daqueles que deveriam providênciar essas informações (como por exemplo, a forma de financiamento das SCTUTS)?

    3. É verdade que, vivendo nós numa suposta democracia, o povo é responsável pelas decisões dos dirigentes políticos que elegeu. Contudo essa responsabilização deve manter-se quando as decisões foram tomadas pelos políticos com a intenção de prejudicar o interesse público beneficiando interesses privados?

    Por muitos erros que o povo português tenha feito parece-me que se põe demasiada ênfase nesta parte do problema esquecendo que, num sistema onde a democracia é pouco mais que uma fachada formal, e na prática os interesses privados comandam a acção pública, as pessoas a responsabilizar primeiro deveriam ser os dirigentes políticos, porque estes tem consciência da ignorância do povo; aproveitam-se dela, e por essa razão, continuam a perpetua-la.

    Parece-que que você não será uma pessoa iletrada, por isso como pode justificar o pensamento de que o povo português, como um todo, é igualmente responsável pela situação em que estamos quando a maioria da população portuguesa é formalmente iletrada, já para não falar dos muitos que estão formados mas que são igualmente iletrados devido à falta de qualidade do ensino que temos?

    Você, como pessoa provavelmente letrada é muito mais responsável pela situação do que aqueles a quem gosta de apontar o dedo.
    E culpar os ignorantes por o serem é o mesmo que culpar um bébé por não saber falar. Talvez fosse mais produtivo ensina-los primeiro.

    • jorge fliscorno says:

      Apontar o dedo… Fez-me lembrar que que aponta o dedo a outro tem três dedos a apontar para si mesmo.

      Não me excluo das responsabilidades, contrariamente ao que diz. Só os loucos se acham perfeitos e creio que ainda não cheguei à demência. Mas não concordo consigo. Quem elege políticos em confronto com a justiça merece o quê? Quem vota naquele que lhe alcatroou a estrada apesar de lhe ter fechado a escolha merece o quê? Quem escolhe o big brother e afins em vez de um debate merece o quê?

      Eu não acho que o povo português seja ignorante. Sempre à espera que alguém lhes resolva os seus problemas, em vez de os tomar em mão, sim. Mas ignorante, não. A minha avó, por exemplo, que não sabia ler nem escrever, tinha uma rara sabedoria de vida. Não são os estudos que tiram as pessoas da ignorância – apesar de ajudar e muito – e não são precisos avançados conhecimentos de economia para se perceber que fazer obra para outros pagarem é sacanagem.

      • jorge fliscorno says:

        «Não são os estudos que tiram as pessoas da ignorância»

        Com isto quero dizer que há pessoas com estudos que não abandonaram a ignorância.


        • Concordo com quase tudo o que acrescentou acima, excepto em alguns pontos:
          Na minha opinião, totalmente pessoal, a maioria dos defeitos das pessoas (como a passividade de esperar que outros resolvam os problemas, como refere, mas também a corrupação, egoismo, falta de civismo, etc) decorre em grande parte da ignorância.
          Por isso teoricamente a maneira mais eficiente de melhorar o funcionamento da sociedade seria reduzir essa ignorãncia. Algo que não é fácil porque, como também refere, é necessário um bom ensino público acessível a todos E uma boa educação no âmbito familiar. Algo que infelizmente frequentemente não se verifica em Portugal.
          Todos nós temos defeitos e somos ignorantes, não estou a apontar dedos, já que estas me parecem características naturais dos humanos que só podem ser atenuadas através de medidas activas, como a educação em casa e na escola.

          Mas pegando no seu exemplo. de que “não são precisos avançados conhecimentos de economia para se perceber que fazer obra para outros pagarem é sacanagem”. A maior parte das pessoas que conheço, principalmente os mais idosos, nunca sequer pensaram em quem pagaria as SCUTS, ou qualquer outra despesa pública cujo custo não os afecte directamente. Eu nunca considerei que tal fosse por egoísmo ou maldade mas simplesmente porque as pessoas não se consideram capazes de avaliar a questão. E na maioria destes casos, efectivamente não são. A isto junta-se a desconfiança e separação entre os cidadãos e os políticos que faz com que estes considerem que não vale a pena tentar fazer ouvir a sua opinião, nos casos em que a possuem, bem como o facto de que as vozes discordantes que havia não tiveram projecção mediática relevante para esclarecer a opinião pública. Algo que também acontece hoje com as vozes credíveis que se levantam contra a austeridade cega, optando a comunicação social por ignorar estes mostrando apenas os idiotas úteis que só servem para reforçar a ideia do “caminho único”.

          Tentando resumir, o que quero dizer é que me parece o grau de responsabilização dos indivíduos deveria ser proporcional ao grau de influência real que tiveram nas decisões politicas em causa. Como o nosso sistema político funciona com uma grande independência em relação aos cidadãos (com a excepção das eleições de 4 em 4 anos) as decisões tomadas reflectem muito mais a influência dos agentes políticos (e dos seus interesses) do que os interesses da generalidade dos eleitores.

          Por outro lado, e se seguirmos o seu próprio raciocínio, que qualificação outra poderíamos atribuir a um povo que se coloca na situação desastrosa a que chegamos, senão a de ignorante?

          Fico com a ideia que os argumentos andam em círculo indo todos dar à mesma origem.

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