Fatwa à Poesia. Um Certo Gato Zarolho

Isto é um peso. Descobrir-se um homem Poeta a meio da vida, demasiado sensível às palavras e ao puzzle brutal delas sublime, esmaga-me. Tanto acalmar-me, respirar fundo sob o imperativo de escrever: «Vá lá, Joaquim, menos paixão racional! Vai lá para fora ver o azul.» Saio. Contemplo efectivamente o passar de nuvens e aviões, o irisar do disco solar sob o vapor que alveja celestial [visto do chão, o Sol está sob a nuvem, por detrás do Sol há outro chão], eventualmente bebo um copo de vinho tinto com a minha fêmea amada e acendo o meu ocasionalíssimo cachimbo de festejar futebol ou o transcurso de etapas pessoais. Regresso. E tudo me sai poema.

Há depois um gato zarolho, uma aparição clandestina aqui por casa. Amarrotado, sujo, torcido, cinza-castanho, o pobre bicho sem um olho marginaliza-se e, no entanto, implora. Implora à distância sem miar um miado. Parece em perpétuo passo de camaleão, bicho que, como se sabe, hesita fisiologicamente para trás e para a frente cada passada camuflada. Assim o nosso felino zarolho ao visar partilhar a comida do Tareco, o castrado, coiso oficial da família e que nos adoptou por sua livre e interesseira vontade.

Desculpem. Era de facto para fazer uma fatwa à Poesia. Fica para outra vez. Tudo me sai poema.

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