O homem que fugia ao destino


Rodney King, o homem cujo espancamento por membros da polícia de Los Angeles indignou os EUA e o mundo, e deu origem a seis dias de motins sangrentos, em 1991, morreu hoje, aos 47 anos.

O seu corpo foi encontrado numa piscina, pela sua namorada, e as primeiras declarações da polícia afastam a hipótese de crime.

A vida de Rodney parece, agora que a vemos alinhada numa cronologia de acidentes, infortúnios e reviravoltas, uma extraordinária fábula de queda e redenção.

Quando foi detido e espancado pela polícia, Rodney já tinha cumprido pena por assalto à mão armada. Filho de um pai alcoólico e violento, começou cedo a reproduzir o mesmo padrão de comportamento. Na noite da detenção, não acatou a ordem de um polícia, provavelmente por estar a conduzir com excesso de álcool, e lançou-se numa fuga a alta velocidade. Quando foi detido, agentes da polícia atingiram-no com disparos de armas taser, pontapearam-no e bateram-lhe dezenas de vezes com cassetetes.

Rodney seria mais uma vítima anónima da violência policial, mas um homem, George Holliday, um canalizador que acordou com o barulho da detenção, tinha a sua câmara de vídeo à mão e filmou tudo. As imagens parecem bastante más, nesta época em que qualquer telemóvel grava imagens de alta qualidade, mas foram suficientes para indignar a comunidade afro-americana, que já vira o mesmo filme uma e outra vez, sempre com os mesmos protagonistas e o mesmo desfecho.

Rodney King tornava-se o rosto dos afro-americanos e quando um júri, composto por dez brancos, um latino e um asiático, absolveu os agentes da polícia que agrediram King, o barril de pólvora da tensão racial explodiu nos seis dias mais sangrentos da história recente da cidade. Pilhagens, assaltos, fogo-posto, destruição de bens materiais e assassinato. 53 pessoas morreram nos motins de Los Angeles. E é então que Rodney, ainda com as marcas visíveis da agressão, faz uma aparição surpresa e pergunta perante as câmaras: “Can we all get along?” Podemos seguir em frente?

Os motins não acabaram nesse instante, mas esse parece ter sido um ponto de viragem. O Departamento de Justiça abriu de novo o caso e, em novo julgamento, dois dos agentes foram condenados.

Rodney continuou às voltas com o seu alcoolismo e em 1993 entrou para um programa de reabilitação.  Nos anos seguintes tornou-se uma estrela dos reality shows televisivos, protagonizando programas sobre ex-condenados que tentam retomar as suas vidas e alcoólicos em recuperação.

Já em 2011 lançou um livro de memórias, «The Riot Within: My Journey from Rebellion to Redemption», e anunciava “Tive de aprender a perdoar.”

King escapou muitas vezes ao seu destino, e em cada uma deve ter pago um preço alto. Quando, no mês passado, promovia o seu livro, não parecia um homem pacificado, antes sim um sobrevivente que espera chegar ao fim desse dia. Quando um jornalista lhe perguntou que gostaria de fazer no futuro, respondeu “seria bom construir algo sólido, algo que dure uma centena de anos.”

Não sabemos a que se referia, se a uma casa ou a um ideal. Mas Rodney morreu como um símbolo e não como um bandido, e só por isso já deve ter valido a pena pagar o preço reservado a quem foge ao seu destino.

Sobre Carla Romualdo

aviadorirlandes(at)gmail.com
aventar.eu / pestreita.wordpress.com

Comments

  1. maria celeste ramos says:

    Ninguém foge ao seu destino

  2. MAGRIÇO says:

    Mais um exemplo, pela negativa, das falhas graves de muitos sistemas ditos democráticos que não abdicam da legalidade musculada e, pior, selectiva. Os fracos fazem-se sempre acompanhar da força.

  3. Gyver says:

    Estar a conduzir bebado e ainda fugir á polícia! Ainda devia era ter levado mais para ver se aprende.

    • Mais porrada ainda (??????) “para ver se aprende”.
      Conseguem abalar estas palavras. Mas o mais lixado deste comentário, é que diz muito do mundo em que vivemos.

  4. Carla Romualdo says:

    pois é, Alexandra, a coberto do anonimato dizem-se muita asneiras. Assinando por baixo, também, claro, mas pelo menos tende-se a pensar um pouco mais

    • Enfim, haverá que tomá-lo como uma advertência mais das águas em que nadamos. Até pode que nem esteja demais que surja desde a mesma “cidadania”. Serve de recordatório de certos males desta sociedade.

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