E se isto tivesse acontecido na Rússia, na Venezuela ou no Irão? (IV)

Depois da violência no cárcere, os motins, o recolher obrigatório e o exército nas ruas. Alguém viu por aí a extrema-direita pseudo-Charlie?

O homem que fugia ao destino

Rodney King, o homem cujo espancamento por membros da polícia de Los Angeles indignou os EUA e o mundo, e deu origem a seis dias de motins sangrentos, em 1991, morreu hoje, aos 47 anos.

O seu corpo foi encontrado numa piscina, pela sua namorada, e as primeiras declarações da polícia afastam a hipótese de crime.

A vida de Rodney parece, agora que a vemos alinhada numa cronologia de acidentes, infortúnios e reviravoltas, uma extraordinária fábula de queda e redenção.

Quando foi detido e espancado pela polícia, Rodney já tinha cumprido pena por assalto à mão armada. Filho de um pai alcoólico e violento, começou cedo a reproduzir o mesmo padrão de comportamento. Na noite da detenção, não acatou a ordem de um polícia, provavelmente por estar a conduzir com excesso de álcool, e lançou-se numa fuga a alta velocidade. Quando foi detido, agentes da polícia atingiram-no com disparos de armas taser, pontapearam-no e bateram-lhe dezenas de vezes com cassetetes. [Read more…]

Eles também têm medo

Após as manifestações sindicais de 1 de Outubro, apareceram ontem plantadas na comunicação social notícias de que a polícia e as secretas estão atentas aos distúrbios motins e outras barbaridades que se avizinham, sublinhando desde já a ameaça que vem das manifestações convocadas para o próximo dia 15.

A lógica é simples: nós estamos aqui para vos roubar o ordenado, em nome dos bancos, aumentar os impostos, em nome de Alberto João Jardim, privatizar tudo e mais alguma coisa, em nome da troika. Vocês fiquem muito caladinhos e quietinhos lá em casa, em nome da democracia.

No fundo trazem a consciência pesada, e também têm medo, muito medo. Sondagens como a de sábado, nas ruas do Porto e Lisboa, assustam. Na Grécia já há quem seja claro: a austeridade imposta pelo saque dos donos da Europa só se conseguirá aplicar com uma ditadura. E realmente o neo-liberalismo em democracia nunca conseguiu ir muito longe, não ficando as suas afinidades com o fascismo dos anos 30 por aqui.

Na fotografia: perigoso gang ultra-radical (note-se o uso das t-shirt´s negras, são do Black Block, só pode) fotografado por mim na manifestação de Sábado, no Porto. Espero que as polícias tomem nota. Quanto ao fotógrafo pintava a cara de preto se não estivesse já fichado.

Transformemos Portugal numa nova Inglaterra (II)

Parece que não me fiz entender aquando do meu último post, «Transformemos Portugal numa nova Inglaterra», que tantos comentários motivou. Como tive oportunidade de explicar no post, esse texto tinha como título original «Transformemos Portugal numa nova Grécia» e foi escrito há 2 meses para uma nova revista, «The Printed Blog», numa altura em que as manifestações e a revolta na Grécia estavam no auge. Publicado em papel há uns dias, julguei oportuno publicar em blogue o texto, mas ainda mais oportuno adaptá-lo à realidade que então se vivia, a da Inglaterra.
Como é óbvio, não defendo as pilhagens, as destruições e os ataques a quem foi vítima inocente disto tudo. Mas defendo a forma pacífica como tudo começou, defendo as 500 mil pessoas que se juntaram há pouco tempo para lutar contra a austeridade e as políticas dos políticos ingleses. É esse tipo de revolta que gostava de ver em Portugal – que a população em massa saísse para a rua. A revolta que se começou a gerar na Grécia e em Inglaterra e não aquela em que infelizmente se transformou nas cidades inglesas.
Para além disso, mudei de ideias depois de ler os comentários dos amáveis leitores do blogue. São comentários muito oportunos e que, na maior parte dos casos, me fizeram ver que estava errado. Os argumentos são imbatíveis, sobretudo na forma como me qualificam: efeminado (afeminado no original), ignorante, idiota, grande estúpido, palhacito, burro, verdadeiro anormal, perfeito anormal, sem-vergonha, filho da puta, atrasado mental, imbecil, canalha, irresponsável, escumalha patética e mimada – «pode ser que te fodam a boca toda», terrorista, nojento, primata da linhagem dos símios, etc.
Ufa! Com argumentos deste calibre, fiquei convencido. Definitivamente. Os amáveis comentadores têm toda a razão. O terrorista sou eu.

É a austeridade que gera a violência, acordem

Mesmo não concordando com a forma que o Ricardo resolveu dar ao seu texto, a indignação que por aí vai não passa de fumo tentado mascarar a realidade.

A realidade é simples. A Inglaterra precisou de imigrantes para se ocuparem das tarefas que os ingleses desdenhavam. Não pode agora deitá-los fora, são pessoas, não são lixo.

A Inglaterra (que tem uma crise económica pior do que a nossa à custa de sustentar banqueiros e se safa apenas porque não está no euro) virou-se para a austeridade absoluta do neo-liberalismo. E isso tem um  preço, o que hoje está nas ruas.

São actos de banditagem pura? pois são. Assaltam lojas de electrodomésticos e não padarias? pois assaltam. É a consequência lógica da raiva misturada com uma ideologia alucinadamente consumista. Não é a revolta que eu espero que ocorra em Portugal. Mas continuem a enterrar o vosso querido capitalismo com a austeridade, avancem com o aumento do IVA como hoje se anunciou, cortem no SNS, na Educação, nos apoios sociais, e vão ter o mesmo.

O que a direita hoje leva em desvantagem em relação ao PS, ou aos trabalhistas, é que estes sempre perceberam que o neo-liberalismo só se pode aplicar mantendo mínimos de decência entre os pobres, verdadeira razão porque foi criado o Rendimento Mínimo Garantido e coisa que os democratas-cristãos de toda a Europa estavam fartos de saber. Esta é a última oportunidade de os Camerons e Passos Coelhos deste mundo descobrirem o risco que correm. A seguir é o abismo.

Adenda: “os resultados indicam uma correlação positiva entre cortes orçamentais e instabilidade” gráfico via Ladrões de Bicicletas

Transformemos Portugal numa nova Inglaterra*


Aproveitemos as férias para descansar. Depois de Agosto, todas as forças vão ser necessárias para lutar. O Governo Passos Coelho / Portas já mostrou ao que vem e todos temos de estar preparados. A receita é a do costume: aumento de impostos directos e indirectos sobre os trabalhadores ao arrepio de todas as promessas eleitorais. É tão fácil ser forte com os fracos e tão difícil ser forte com os fortes! Aos poderosos, como os Bancos, os principais responsáveis pela crise, não se pede um cêntimo a mais e ainda se lhes reduz a Taxa Social Única. É por isto que urge transformar Portugal numa nova Inglaterra. Não porque gostemos de ver o nosso país a ferro e fogo nem porque sejamos adeptos da violência como solução para os problemas. Mas porque é essa a única forma de lutar contra tudo o que o Governo se prepara para fazer. Como alguém disse em forma de previsão para o futuro, nós não somos carneiros.

(* escrito para a edição de estreia de «The Printed Blog» com o título «Transformemos Portugal numa nova Grécia», daí a fotomontagem que pedi ao Jorge Fliscorno. Mas a realidade desta Europa em crise não pára, daí esta adaptação que faz todo o sentido. Publicado também no 5 Dias)

Os motins são grandes e os Clash foram os seus profetas

Sempre achei que os Clash não eram apenas uma das melhores bandas de sempre (a melhor não existe), e que havia ali algo de transcendente, místico, uma cena dessas.

E confere. Vejam em 4 cantigas como tudo o que se está a passar em Inglaterra tinha sido escrito, e cantado.

1. Tudo começou assim, como de costume:

Police On My Back

2. Segue-se o enquadramento social e político

Guns Of Brixton [Read more…]

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