O tempo fora do tempo

 (pormenor da Ribeira Negra) 

 O verão entra hoje, lembrou a velha a comer um pedaço de pão. à porta da padaria.

Meio triste por vir tão cedo, meio contente por vir tão tarde, já que a primavera o deixa de mãos a abanar com este tempo sem tempo. Ainda agora caiu um aguaceiro que fez as gaivotas encolherem-se e o rio cobrir-se de um espesso véu.

O verão está à porta como a velha na padaria. Nem entra nem sai.

Também à porta passa o eléctrico na sua lenta e gemida marcha de outros tempos, que nada tem a ver com as velocidades de hoje. O tempo fora do tempo.

O homem do lado de lá da rua, sentado num monte de redes ainda com algas, sacudiu o casaco molhado e praguejou. Um menino brincava a seu lado, com uma laranja espetada num pau.

As gaivotas espanejaram as asas quando a chuva parou, como fazem no inverno.

Pelo retrovisor, não me apercebi de que alguém fora atropelado, mas pareceu-me ver um gato a espernear na valeta.

O verão entra hoje mas não parece verão, lamentou a mulher de preto à porta da padaria, a comer um pedaço de pão. É mesmo um tempo fora do tempo.

Já o eléctrico dava a curva, quando um homem saltou, bem inclinado para trás, como se fazia no tempo dos eléctricos. Trazia na mão um vaso com manjerico, este sim, deste e de outros tempos.

Não havia vento. Se vento houvesse, os barcos baloiçavam, mas os barcos mantinham-se serenos e dolentes. Apenas uma brisa quente e salgada cheirava a peixe.

O homem sentado nas redes procurava atiçar as teimosas brasas de um fogareiro, ainda sem tempo de serem brasas de assar.

Balões de muitas cores pendiam das árvores a pingar, lembrando o S. João seco de outros tempos, ou apenas orvalhado.

A velha que comia um pedaço de pão gritava de longe ao velho do fogareiro para que cobrisse as sardinhas por causa dos gatos. Pouca sorte a do gatito escorraçado, assim morrendo fora do tempo.

As núvens teimavam em gotejar e o homem das sardinhas praguejou de novo, cobrindo as brasas com as mãos e com palavrões mais assanhados, deste e de outros tempos.

Uma pequena lufada de vento errante fez os balões brincar, e um deles rebentou, para nunca mais ser balão de S. João. Outro desprendeu-se e voou, subindo quase até ao avião que atravessava o rio. O menino com a laranja espetada num pau correu, correu atrás dele e caiu.

A velha de negro, achando que era o tempo de sair da porta da padaria, atravessou a rua ao jeito das artroses, numa corrida fora de tempo, e foi levantar o menino que chorava. Deu-lhe um beijo de avó e levou-o ao velho do fogareiro. O pescador largou as brasas que já faziam chiar meia dúzia de sardinhas e pegou nele ao colo. Uma gaivota atrevida e cansada do tempo achou que era tempo de pifar uma sardinha.

Apareceram mais dois, dentro do tempo, um vermelho e corcunda e outro pálido e esguio como vela de cera, falando “dos” diabetes e deitando o rabo do olho a um rabito de sardinha.

Podem ficar. O meu genro está a chegar do mar com mais e bem fresquinhas, disse a velha fora de tempo, dado que o cérebro de cada um já impusera, uns segundos antes, o tempo de se sentarem no caixote mais á mão.

Entra hoje o verão. Mas que verão! Não há nada mais triste do que o tempo fora do tempo.

Deixe lá que estas sardinhinhas vieram mesmo a tempo.

Comments


  1. Tão vívidas impressões deixa o texto no leitor que não é crónica, é filme!

    Fantástico, caro Adão!


  2. Verão ainda vai havendo, as padarias, temo, é que se esvairão na falência. (ou venderão pão às fatias, como o vinho a copo).

  3. maria celeste ramos says:

    Pois é, como verão do tempo certo que se tornou verão sim mas de tempo incerto dentro do tempo com tempo fora mesmo do tempo. Que tempo este. Mas espero que amanhã seja o tempo de Paulo Bento – Sim espero – sem saber nada do que ele sabe, mas não interessa senão o que digo porquê e é o que sinto até sem saber muito bem porquê – somente porque é

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