Carta do Canadá: Umas boas férias

Parafraseando Steinbeck, bem podemos dizer que este é o verão do nosso descontentamento. E porque o inverno que aí vem não se afigura mais prazenteiro, aconselha o senso prático que nos ofereçamos as férias que nos carregarão as baterias de que tanto vamos precisar. Férias simples, modestas, como as de antigamente, no campo, cheias de silêncio e ar puro, sem jornais, rádios  ou televisões. Um tempo de completo pousio e contemplação, rodeado de gente que à terra tem dado a vida por gerações e que tem sempre um jeito saboroso de enfrentar a adversidade. Acrescente-se uma alimentação saudável e uma sesta bem dormida, um longo passeio a pé depois do jantar, que podemos aproveitar para rezar ou meditar, e teremos a receita de que precisa o nosso cansaço e desalento.
E, já se sabe, senso de humor, rir o mais possível. Para o que, sem pretensões, venho contribuir.
No meu tempo de Colégio de Nun´Álvares, em Tomar, tive o privilégio de conhecer João Santos Simões, engenheiro têxtil porque a isso obrigava uma empresa de família que vinha do seculo XVIII, uma fábrica de fiação, mas homem de nata vocação artística. Veio ele a ser o maior especialista de azulejaria portuguesa, devendo-lhe o país e a cultura, entre outras coisas, o levantamento completo do azulejo luso em terras brasileiras. Conversador admirável, generoso e alegre, de uma simpatia irresistível, guardou de rapaz um jeito desligado e boémio que era uma delícia. Porque em jovem pintou a manta.
Quando acabou o curso, o pai, babado e mãos largas, deu-lhe para a mão uma conta calada para que fosse viajar. E lá foi João, no velhinho Sudexpress, por essa Europa fora. De vez em quando, mandava para casa um postal em que ia contando das maravilhas que o encantavam. O tempo ia passando e João  por lá.  Um belo dia chegou um postal lacónico: Pai, estou em Haia e preciso de dinheiro para voltar. De imediato o pai remeteu dinheiro. Fez-se silêncio. Dali a dias, novo postal: Pai, estou em Roterdão e preciso de dinheiro para voltar. Outra vez o pai mandou dinheiro ao viajante. E outra vez se seguiu o silêncio. Este enredo durou umas semanas até que, finalmente, chegou um enxuto postal: Pai, estou em Paris, chego a Lisboa no dia tal.  No tal dia, o pai estava na plataforma de Santa Apolónia, acompanhado do outro filho, o Zé, um bonacheirão bon vivant. Ambos numa grande excitação.  Chegou o mítico comboio, esse de quem Eça dizia que chegava “num barulho de ferros e Europa”. Os passageiros iam saíndo, pai e filho de pescoço esticado, mas de João, nada. Já ninguém mais saía do comboio quando João apareceu, quase de braço com o revisor. Depois dos abraços, disse ele muito franco e descansado: Pai, pague a este senhor que ele fiou-me o bilhete. A paternal figura abriu a carteira, regalado, e foi então que o Zé sentenciou: Oh pai, eu não lhe dizia que o João vinha à cobrança?
Boas férias, caro leitor.  Esqueça-se de tudo. Tenha uma fé absoluta em Deus. Acredite que só a morte não tem remédio.

Comments

  1. MAGRIÇO says:

    🙂 🙂

  2. maria celeste ramos says:

    Pois é – mas já não há nada assim – a urbanidade desconstruíu

Deixar uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.