A Assembleia de Freguesia de Tadim, o “Interesse Nacional” e 70 Minutos de Atraso

Tal como anunciado em newsletter via correio electrónico no dia 25 de Junho, realizou-se hoje a Assembleia de Freguesia de Tadim; o email recebido pelos subscritores da newsletter, e tal como anunciado no próprio site oficial da Junta de Freguesia de Tadim, dava conta que esta Assembleia se realizaria hoje, dia 27 de Junho “pelas 21h30“.
Na medida da minha disponibilidade temporal, acompanho sempre que possível estes actos de cidadania e democracia e hoje, tendo-me sido possível programar o meu dia de trabalho em conformidade, cheguei à porta da Casa do Povo de Tadim (local onde decorreria a Assembleia) minutos antes da hora marcada.
Por razões que a Mesa da Assembleia e o próprio sr. Presidente da Junta aludiriam no decurso da Assembleia, o atraso no início dos trabalhos – atraso de 70 minutos – deve-se a ter havido um jogo de futebol com uma equipa portuguesa e onde, disse-se, estava em causa o “interesse nacional“. Portanto, a desculpa para atraso estava dada.
Igualmente, à minha interpelação sobre este atraso, foi também proferido pela Mesa da Assembleia que havia sido acordado ad hoc pelos membros da Mesa, Executivo e Oposição, um atraso tal que permitisse o visionamento televisivo do tal jogo de futebol.
Em nome do “interesse nacional” parece-me louvável.
Com grande pena mim, a mim, na qualidade de freguês com o direito legal de participar nesta Assembleia, nada me foi dito com uma antecipação razoável, nem tal alteração constava no site da Junta de Freguesia, que consultei in loco na expectativa de uma explicação para o atraso.
No espaço legalmente concedido a ao público, solicitei o uso da palavra e coloquei as seguintes questões (que, acredito, serão vertidas em acta):

– Quanto vai custar, afinal, o novo edifício-sede da Junta de Freguesia de Tadim?   pergunta sem resposta.

– Não teria sido possível utilizar o vário património edificado da freguesia para sede? (aqui citei os eventuais exemplos de: antiga escola primária, casa dos Correios, estação ferroviária e casa paroquial). Obviamente, e como frisei adiante estas alternativas de localização seriam válidas caso os edifícios estivessem disponíveis. Foi-me adiante respondido que a casa dos Correios é agora propriedade particular e a casa paroquial é da paróquia. NOTA: não obstante a casa ser da paróquia, e sendo o Estado laico, nada me incomoda que esta Junta de Freguesia divulgue online a agenda paroquial, o que parece fazer crer que existe algum tipo de entendimento entre estas entidades, que saúdo).

– As várias lâmpadas de grande consumo implantadas no parque de merendas serão alguma vez utilizadas? – pergunta sem resposta por parte do sr. Presidente da Junta por, no seu entender, a pergunta ser despropositada.

– No parque de merendas existe o que aparenta ser uma câmara de videovigilância? A mesma está legalizada? Foi-me respondido, no momento próprio, pelo sr. presidente da Junta que “tudo o que Junta faz é legal”. No alinhamento dessa resposta, um outro elemento da Junta referiu que “está a ser legalizada”.
Permaneço na dúvida: aquela câmara de videovigilância está ou não está legalizada? Vai ser legalizada ainda?
Notar que no Artigo 4.º da Lei n.º 1/2005, de 10 de Janeiro, se lê:

Colocadas as perguntas e ouvidas as respostas possíveis, dou também nota pública (porque a Assembleia de Freguesia é ela própria um acto público, assim como tudo o que ali é tramitado) conta da aparente indignação do sr. Presidente da Junta e de outro elemento (que não sei nomear) pelo facto de o primeiro me ter visto “várias vezes” a andar de bicicleta (!) no “adro da igreja“.

1 – Nos locais objeto de vigilância com recurso a câmaras fixas é obrigatória a afixação, em local bem visível, de informação sobre as seguintes matérias:À data em que fiz esta fotografia (e outras onde é claramente visível a câmara de vídeo), não estava visível nenhuma da informação estipulada pela Lei.

Confesso-me surpreso e não consigo enquadrar o facto de eu andar de bicicleta nos espaços públicos da freguesia, mais ainda no “adro”… fora da jurisdição da Junta de Freguesia. “É uma falta de respeito”, disse o outro elemento da Junta.
– (confesso, dei uma voltinha à igreja no passado sábado, dia 23 Junho, pelas 16h na minha bicicleta Dahon Vitesse d7, vermelha, linda!…) – 
Mas foi-me precisado que o “adro” não se refere ao “adro” que é usado por toda a gente como estacionamento automóvel. O “adro” a que se referem é o espaço imediatamente à volta da igreja. É, portanto, um espaço que não compete à Junta administrar mas, aparentemente, ver “respeitado”. Da próxima vez que o zeloso sr. Presidente da Junta vir lá crianças a correr… actue em conformidade.
Afinal, um poder político preocupado com a moralidade pública é próprio de grandes regimesA Bem da Nação!

ps: em nome do louvável “interesse nacional”, em Aveiro também se preferiu o futebol.

Comments


  1. Adorei, caro Dário! Post verdadeiramente esclarecedor!

    Será que, por analogia, já conseguiremos começar a compreender a javardice que é este país?

  2. 7anaz says:

    Caro Dário,

    Também sou natural de Tadim, aliás, reconheci de imediato a igreja, onde ía muitas vezes, em miudo, com o meu avô reparar o relógio da torre e onde frequentei a catequese, no tempo do antigo padre, de quem já não me lembro do nome, mas que era bem bravo com a pequenada.


    • Olá, 7anaz,

      Eu não nasci ou cresci em Tadim, o que já me valeu o lustroso cognome de “estrangeiro”, eu que até sou um cidadão do mundo…!
      Desse antigo padre, com quem nunca privei mas de quem tenho alguma memória visual, já me contaram estórias pouco abonatórias da graciosidade da raça humana. Certo é que, tendo já falecido, não está em posição de poder defender-se do que sobre ele diz quem sofreu as suas mórbidas torturas às crianças, hoje adultos. Os tempos e a sensibilidade mudaram e o seu comportamento dictatorial não me deixaria a mim, pai, em serena contemplação. Como digo, outros tempos.


  3. Lindo! Assim se prova que ter um Salazar em cada junta de freguesia dificilmente é solução para este país. Se calhar este pensar salazarento, vingativo, pequeno, mesquinho é um motivo para estarmos como estamos, em termos de país.

    Continua a fazer perguntas!

  4. Tito Lívio Santos Mota says:

    já as medalhas que estamos a ganhar noutro Euro, o de Atletismo, nem sequer merecem tempo de antena na RTP.

    Cada vez sou menos “patriota”, coisa que sempre achei ser inversamente proporcional ao amor ao país.

    Os da Junta de Tadim, são “patriotas” sem dúvida alguma… como os jornalistas da RTP 😉

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