A escala consente

(Texto de Marcos Cruz )

(Quadro de Adão Cruz)

 A Joana Vasconcelos é, de acordo com o Secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, “uma artista de uma modernidade assustadora”. Ele lá saberá por que acha isso. A frase, em si, pouco diz. Cada um de nós, face ao conhecimento que tem quer do SEC quer da JV quer do meio artístico quer da conjuntura nacional quer seja do que for que conte para o caso, pode interpretá-la como lhe apetecer. Na minha opinião, o SEC pretende dizer: a JV é uma artista à frente do seu tempo, visionária. E não: a modernidade que consagra a JV como artista é assustadora. A mim, porém, faz-me mais sentido esta segunda hipótese.

Se olharmos ao que foram as últimas décadas em Portugal, constatamos facilmente que, a nível de gestão política, a obra prevaleceu sobre a ideia. Da Expo 98 ao Euro 2004, das auto-estradas aos edifícios, o progresso teve um nome: construção. Hoje, chegado um ponto de crise em que já não lhe é permitido construir, a marca do progresso vê-se substituída pelo seu símbolo: a obra da obra. Dito de outro modo, o Estado de coisas produz coisas de Estado.

Joana Vasconcelos é, pois, no meu entender, um símbolo da megalomania de Estado, alguém que se afirma pela escala do que constrói, e ela própria constrói sobre símbolos atávicos do País. Ou seja, ela é simultaneamente produto e produtora da obra – que, por sua vez, é a obra da obra da obra.

A escolha da nova Rainha de Versalhes como representante nacional na Bienal de Veneza corporiza, assim, um auto-elogio da governação pós-ditadura, assente em ícones dessa mesma ditadura, entregues a uma figura que, nos seus trejeitos e trajes, remete para a monarquia.

Ora, nada mais paradoxal: à medida que a JV constrói, a sua sombra desconstrói. E, enquanto isso, o País vai continuando a ser destruído

Comments


  1. Ora aqui está uma análise brilhante, lúcida, inteligente e cirurgicamente incisiva!

    Os meus parabéns ao caro Marcos pelo texto e ao caro Adão pela pintura!

  2. Amadeu says:

    Os gigantes assustam os micro minis, né ?

    O que não perdoam à JV ela pegar na bucólica do Júlio Dinis e seus imitadores e dá-lhes a volta. Desconstroi-os e volta a construí-los. Para que todo o mundo veja.

    Isso não se faz !! Não se brinca com Deus Dinis.

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