é por isso que os tascos têm as janelas tapadas

O tasco ainda tem uma dessas portas de vai-e-vem que nos recordam os saloons, essas portas que dão vontade de empurrá-las, imaginamo-nos a aproximar-nos delas com passos sonoros, pausados, projectando sobre a sala uma sombra que fará com que todos voltem a cabeça na nossa direcção, para apenas descortinarem umas pernas, talvez um chapéu de abas largas, se o tivéssemos. E então poderemos empurrar as portas com firmeza mas sem demasiada força (porque nos lembramos de que as portas que vão também acabarão por vir)  e avançar para o balcão, ou ficar por uma das mesas e pedir um pratinho de moelas ou de tripas enfarinhadas.

Mas não foi isso que aconteceu, eu não cheguei a entrar, passei à porta do tasco e só me detive brevemente à janela. Não sei se já repararam que as janelas dos tascos costumam estar tapadas? Não permitem que olhos indiscretos espreitem esse momento silencioso e solene em que um homem leva o copo à boca, acercando os lábios para que os dedos trémulos não derrubem o vinho, bebe-o com a máxima seriedade, todo concentrado nesse acto, e pousa-o finalmente sobre a mesa, com o gesto já preciso e firme, um movimento rápido, e o olhar de súbito brilhante e mais entristecido. Na janela dos tascos encontramos tantas vezes um cortinado com rendas escurecidas, um estore de lâminas imundas, um simples trapo estendido, mas, para suavizar essa recusa aos olhos de quem passa, a dona do tasco deixa à janela um vaso de begónias ou um lírio-da-paz.

A janela deste tasco, porém, estava desimpedida e deixava ver o único cliente àquela hora, um homem de idade difícil de determinar (cinquenta e muitos, quarentas, recém-entrado nos sessenta?), sentado à mesa mais próxima da janela, absorto nos seus afazeres. Sobre a mesa tinha vários montinhos de folhas, uma factura da edp, recortes de jornal, um folheto publicitário de uma loja de electrodomésticos, um livro de capa castanha. Tinha nas mãos uma folha e ia lendo em voz alta, ou pelo menos os seus lábios moviam-se. Aproximei-me mais da janela, sem sombra de remorso porque me sentia como se estivesse a espreitar um cenário onde se representava uma peça para mim, um momento que fora iniciado quando eu decidira passar pela rua do tasco, e que continuara a decorrer, em perfeita sincronia com os meus passos errantes, até eu chegar àquela janela, e por isso não estava mal que eu colasse o nariz ao vidro, era suposto eu fazê-lo, era isso o esperado.

No cabeçalho da folha que o homem segurava, estava escrito, com régua, deixando todas as letras rectas na base (para discipliná-las ou castigá-las, ou para que não se escapassem da mão que as desenhava e se lançassem em formas bizarras): “Desportos com bola”. E seguia-se-lhe uma coluna longa: andebol, basebol, basquetebol, futebol, golfe, polo, ténis, voleibol, não consegui ler todos nem era preciso. Por baixo dessa folha havia outras, quem sabe com que listagens, talvez a casa dele estivesse assim, atafulhada de listas, folhas manchadas pela humidade, pilhas e pilhas de papel velho a obrigá-lo a andar pela casa aos ziguezagues, pousando com delicadeza a mão nas torres mais instáveis para não se derrubarem à sua passagem.

Já não foi a mesma, essa tarde, não foi a tarde que eu esperava ter. Andei a remoer naquela existência que precisa de encher o mundo com listas, preencher o silêncio com enumerações que não acabam, atafulhar o cérebro de dados inúteis para afugentar o desespero, e desejei não ter espreitado. É por isso que os tascos têm as janelas tapadas.

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