Quando Não Há Dinheiro Para Torrar em Luxos

Tamel Aborim é uma pequena freguesia do concelho de Barcelos; tem cerca de 900 habitantes e aconteceu em Tamel, como em Tadim, passar o comboio.
No caso de Tamel (ao Ponto Kilométrico 60 da Linha do Minho), em direcção a Viana do Castelo e à Galiza; no caso de Tadim (ao Ponto Kilométrico 47,4 do Ramal de Braga), em direcção a Braga.
Mercê as alterações profundas no modo de exploração ferroviária na Europa e em Portugal ocorridas nas últimas décadas, acontece em Tamel o mesmo que acontece em Tadim: o(s) edifício(s) da estação deixou de ser necessário do ponto de vista operacional.
No caso de Tadim, o edifício secular que o povo chama de “a estação” perdeu mesmo qualquer utilidade ferroviária a 5 de Outubro de 2001, data do encerramento do Ramal de Braga para as profundas obras de remodelação que demorariam cerca de 18 meses a concluir-se.
No caso de Tamel, e dado que a Linha do Minho, a montante de Nine, segue sendo explorada no regime de cantonamento telefónico, a mesma encontra-se guarnecida (com trabalhadores, portanto) na maior parte das horas do dia. Isto no edifício “da estação”. O “edifício de passageiros”, para ser mais concreto.
Sucede em Tamel que outros dois edifícios contíguos, outrora para alojamento de trabalhadores, perderam há já longos anos a sua utilidade, deixaram de ser necessários ao sistema ferroviário. Desde aí até há cerca de dois anos, os edifícios estavam sós, à espera.
Entretanto, surgiu em Tamel (Aborim) a necessidade de dar uma casa à nobre instituição Junta de Freguesia. Como Tamel não aparenta ter a facilidade de acesso ao dinheiro público, proveniente dos impostos pagos pelos portugueses, em Tamel não se optou por construir um edifício de raiz para albergar a Junta de Freguesia. Em Tamel… reciclou-se um edifício secular para que a população, como anteriormente, pudesse beneficiar da sua existência.
Um acordo, cujos termos desconheço, entre a Junta de Freguesia de Tamel Aborim e a Rede Ferroviária Nacional EPE permite, na prática, duas coisas: 1) albergar a sede da Junta por um custo muitíssimo inferior à construção de um edifício novo e 2) preservar e dinamizar um património público que, por esta via, continua a ser público e continua a ser útil, como desde há mais de 130 anos.
No caso de Tadim, infelizmente a situação é diversa. Há quase… uma década.
Infelizmente, a Junta de Freguesia de Tadim, com a mesma liderança que acontecia em 2001,  não teve ainda sucesso em negociar com a entidade pública detentora do edifício qualquer uso para o mesmo.
Dez anos depois, os tadinenses continuam privados do acesso a um património único no país – não há, de entre as mais de 500 estações ferroviárias que Portugal já teve, nenhuma igual à de Tadim. Dez anos depois.
Inépcia política?
Inabilidade política?
Incompetência política?
Falta de vontade política?
Ou simples desprezo autárquico pelo património?
Dez anos é muito tempo, já cantava o Paulo de Carvalho…

ps: há praticamente dois anos escrevi uma carta aberta à Junta de Freguesia de Tadim sobre este mesmo tema.
Este texto publicado originalmente aqui.

Comments


  1. e há coisas belas em Porugal e únicas no mundo são as velhinhas estaçoes de combõio em cada aldei com os enormes e belos painéis de azulejos azuis com motivos referenciando aspectos culturais locais – são história e cultura e memória e só por serem únicos no mundo deviam ser UNESCO – e tinham os gigantescos Relógios antigos e pavimentos e bem podiam ser polos turísticos espalhados por aí mais uma riqueza das aldeias e freguesias – mas a ignorância dos autarcas e desprezo não percebendo o que daí podem retirar com turismo de todo o ano – Percorri uma ez Suissa e Austria de Combóio – bem vulgares e impessoais mas os meus combóios e Estações mereciam ficar para contar história dos transportes e evolução dos lugares e herança e assim fixação dos habitantes e não a fuga – a até tinham trepadeiras de campânulas gigantescas de azul anil – iguais em todas as estações – Não eram a porcaria da estação do Oriente de Calatrava orgulho de não sei quem – Aceito que se mude mas que não se destrua “o de onde se vem” e se calhar Calatrava não passa de snobismo e mais nada – prefiro a Estação do Rossio ou de São Bento no Porto -mudar e evoluir não dá direito a destruir o que veio primeiro e nos fez percorrer o país mais ou menos devagar olhando paisagens e arvores a correr e os animais a pastar e os homens e os campos cultivados e as colheitas arrumadas e prontas a serem recolhidas como se contassem a história dos afazeres do campo que de automóvel não se vê porque conduzo epassa por mim um louco a 350 km/h, ou fica atrás de um TIR que nem me deixa passar e apanho com o fumo negro de gasóleo poluidor – Mas nunca de combóio tenha ou não as velhas janelas de deixar entrar o ar – Percorri o país de combóio onde havia – e ainda vejo as árrvores a fugir – as fores azuis anil e as paredes brancas de Cal e o Relógio a dar as horas para ver se o combói vem atrazado ou não – e o homem a bater nas rrodas de ferro do combói e aqule som familiar e a sua lanterna de aros de cobre a dizer que se poderia partir – pois na suissa e austria os combóios eram vulgares e as estações também – a ignorância dos autarcas consegue em poucos anos destruir pare do património e história e memória – Euronews 04:05 de 25 setembro – Procuradoria de Roma com falsas facturas para os “grupos parlamentares – entregues à justiça – mais de um milhão de anos (por cá não se passa nada) – dois saregentos marines do cprpo espacial vão ser entregues a tribunal marcial sabido por video na internet em que se vê dois marines a mijar em cima de dois afegãos que mataram – France vai financiar Qatar – boa – para os bairros “desfavorecidos dos emiratos” (muçulmanos) – etc – assim vai o mundo – Lagarde quer medidas reais para retoma real e em 9 out em Tóquio FMI revela o estado dos países financeiros – polícia búlgara bem armada para combate ao terrorismo – Mario Monti a criar italia mais competitiva e mais justa e já não provoca mais problemas à união – Prada ganha mais de 59% do que 2011 graças ao mercado da xina – assim vai o mundo com cifrões e xixis americanos – John Terry abandona a carreira internacional por ser acusado de racismo – Mourinho volta a ganhar mas Barcelona está na frente – etc – 67ª sessão da ONU com presidente da Pérsia vaiado – espanhóis frente ao parlamento incomodados pela poliícia – temperaturas primaveris e homogéneas em toda a europa – etc

    • titomota says:

      tem toda a razão no que respeita ao Rossio e São Bento.
      foram pensadas de maneira a poderem evoluir com o tempo.
      O património ferroviário português merece ser classificado para que seja protegido.
      Imagino que a estação do Vale de Santarém ainda deve cheirar a fumo, se não deram cabo dela já….

      Mas nem tudo foi tão bem pensado assim, no antigamente.
      A Estação de São Bento foi feita toda bonita, com azulejos lindos, nave para cobrir as vias, grande monumentalidade, etc.
      Só que foi feita sem bilheteiras.
      As que existem foram acrescentadas depois, às três pancadas. Aliás nota-se ainda que foram acrescentadas como se pode.
      Até há pouco tempo ficavam num corredor escuro e sem condições nenhumas. Agora recuperaram uma sala qualquer e lá as meteram, mas, mesmo assim, nota-se que foi arranjo a martelo.
      Basta ir a Campanhã e ver a diferença.
      Eu prefiro mil vezes Campanhã. Não tem os azulejos, mas é prática, airosa, e a renovação foi um êxito total.

  2. Fernando says:

    Tamel (Aborim) merece nota positiva. Quando tenho que criticar faço-o sem a mínima cerimonia. Quando tenho que elogiar uso o mesmo processo. Em Portugal gasta-se muito dinheiro em vaidade.

  3. Maquiavel says:

    Prefiro de longe a estaçäo de Santarém ou a de Vila Franca de Xira à do Oriente… nem que seja porque na do Oriente gela-se de Inverno e assa-se no Veräo!
    O Calatrava é muito bom… mas nunca deve ter andado de comboio! Näo foi o arquitecto que foi snob, quem foi pacóvio foi o mandante & pagante, que se esqueceu de lhe dizer que “uma estaçäo tem de ser fechada, nem que seja com paredes de acrílico”.
    AH, já me esquecia… o mandante & pagante também nunca deve ter andado de comboio!

    • Ana Lobo says:

      “Calhamostros” inúteis como a estação do Oriente há vários por todo o país desde o Pavilhão de Portugal à Casa da Música que custaram balúrdios ao povo contribuinte e não servem para nada. Isto para não falar de aeroportos vazios no alentejo nem de auto-estradas sem carros em Mafra… etc etc etc

    • titomota says:

      As estações de Santarém e de Vila Franca são muito bonitas sim senhor mas em matéria prática são tão inúteis ou mais que a do Oriente.
      Fora dos azulejos não servem para coisa alguma. Impossível transformar aquilo noutra coisa.
      Não há uma sala de espera com condições, não se pode instalar um restaurante nem um bar, nem comércios, nem nada.
      A de Vila Franca fica no coração da cidade mas só serve de passagem para quem atravessa, compra bilhete e depois vai apanhar frio e chuva para a plataforma. Ou fica dentro na corrente de ar, de pé, a olhar para nada, porque os azulejos ficam para o lado do cais.
      Mas enfim, foram pensadas para outras épocas e outros usos, têm essa desculpa.
      Agora, não me venham dizer que é o modelo que se deve seguir para fazer novas estações. Pela Santíssima Trindade.
      A do Oriente tem algumas coisas bem pensadas e é bonita, digam o que disserem.
      O estranho é que a parte bem pensada é a que não tem nada a ver com a ferrovia : a parte comercial, a estação rodoviária e a ligação ao centro comercial.
      Os cais e as bilheteiras é que devem ter sido pensados para Tombuctu e não para os invernos lisboetas.

      No outro dia reparei numa coisa, nas estações do Oriente e Campanhã. Pensaram em dividir os cais por secções, como fazem no resto da Europa, para poderem afixar com antecedência as composições dos comboios e permitirem aos passageiros o colocarem-se logo na secção em frente à paragem da carruagem para onde reservaram lugar.
      Que esperam a CP e a REFER para proceder à instalação dos dispositivos complementares.
      Mete-me nervos ver as pessoas a correrem como doidas ao longo dos comboios sem saber onde fica a carruagem.
      Há décadas que o problema foi resolvido em todo o lado.
      Não há técnicos na REFER?

  4. titomota says:

    A Casa da Música não serve para nada?????

    Ou não é do Porto ou não gosta de música.
    Ou engana-se na crítica.
    O defeito da Casa da Música foi não preverem foça de orquestra para representações líricas. Fora disso serve muito bem e é um dos edifícios portuenses mais frequentados.
    A estética é coisa diferente. Gostos não se discutem.

  5. titomota says:

    Aliás, em Portugal o que falta é visão.
    Ou melhor, às vezes temos visão, como foi o caso na Expo 98 e depois seguem-se décadas de governantes sem visão nenhuma.
    Os edifícios da expo 98 foram muito bem pensados e tinham todos destino previsto (FIL, universidade técnica, etc.).
    Se nem todos tiveram o futuro previsto, a quem governa se deve, sobre tudo à Câmara de Lisboa no tempo do “lambidinho” que não percebeu nem quis perceber o uso que poderia dar às coisas que tinha.
    Se o Pavilhão de Portugal não teve o destino previsto, perguntem ao Santana Lopes, porque tinha destino. Se ele não lho deu, a culpa é dele.
    A FIL soube muito bem aproveitar o que lhe deram. A Universidade Técnica também. O Oceanário é um sucesso. Os jardins também. Do Pavilhão Atlântico, nem se fala e o Teatro Camões, lá está, sempre cheio, que bem falta fazia.
    O Centro Comercial já nem chega para tanta gente, os terrenos foram vendidos a privados e deram e sobraram para re-alojar os habitantes dos bairros da lata que iam de Moscavide ao Arieiro.
    Se isto não é boa gestão, vão ter que me explicar o que é boa gestão de dinheiros públicos.
    (…)

    Mania que tem o português de criticar tudo e, de preferência, o que se faz bem.
    Não há pachorra…

  6. titomota says:

    Comparem o destino da Expo 98 com os das expos espanholas de Sevilha e de Saragoça.
    Aquilo sim é que foi deitar dinheiro pela janela fora.

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