Postcards from Romania (32)

Elisabete Figueiredo

Bucareste é uma cidade agreste

O Palácio do Parlamento secou tudo à sua volta, menos o Boulevardul Unirii (antes a Avenida da Vitória do Socialismo). Maior que os Champs Elysées tem a meio a Piata Unirii. Nesta e nas ruas, gigantescas, à sua volta, imensos ciganos vendem isto e aquilo. Há muitos pedintes e sem-abrigo. Ao dobrar a esquina, imediatamente se entra noutra dimensão. Embora o gigantismo das ruas e avenidas continue e os palacetes e outros belos monumentos se misturem, de uma forma desagradável, com blocos de apartamentos de arquitetura ‘comunista’, feíssimos, degradadíssimos, a pobreza (nas ruas, pelo menos) diminui progressivamente até se alcançar a parte sul da Calea Victoriei (que atravessa uma parte da cidade, serpenteando e que é, segundo dizem e me pareceu por tanto gucci, chanel e vuitton e tanto hilton e radisson, a artéria mais chique de Bucareste.  Continuar a ler “Postcards from Romania (32)”

Passos Coelho acumula cargo com actuações cómicas

Passos Coelho, revelando uma mestria própria dos grandes comediantes, declarou, num espectáculo ao vivo, que o governo deu “sentido aos sacrifícios dos portugueses“. Aproveito para revelar alguns dos dados em que, provavelmente, se baseou o primeiro-ministro/artista de stand-up para criar essa piada:

Receita fiscal aquém do esperado no orçamento aprovado em Abril

Eurostat aponta desemprego recorde de 15,7% em Portugal

Mais cortes na Segurança Social

Helicóptero do INEM em Vila Real demorará “o triplo do tempo” a socorrer Bragança

Mais de 43 mil professores sem trabalho no novo ano letivo

Custos com material escolar podem ultrapassar 800 euros em família com três filhos

Neste momento, sou forçado a parar, porque estou cheio de dores nos abdominais: o comediante faz-me rir descontroladamente; o primeiro-ministro provoca-me uma irritação pouco saudável.

Cavaco Silva não é notícia

Capa do DiaDevo andar muito distraída. Hoje dei-me conta que temos um PR…

Devo andar mesmo muito distraída porque não vejo notícias relacionadas ou em que o PR é o assunto principal, quanto mais capa de jornal, como hoje no Público.

Penso que o PR devia ser um chato. E não é. Chato no sentido de interventivo, crítico, pertinente, que se importa, que tenha resposta na ponta da língua para tudo e que não foge às questões dos jornalistas nem a estes.

Vem agora pronunciar-se sobre a troika: aponta-lhe falhas. E pede ponderação do caso RTP.

Dei-me ao trabalho de ler a primeira página do Público no último mês. Nada. Cavaco não aparece. Excepto uma referência no dia 2 de Agosto a propósito da morte de Eurico de Melo. 

Durante este mês muita coisa aconteceu: teve alguma palavra sobre o cenário de desastre para os docentes contratados? Disse algo sobre o fogo do Algrave (o seu Algrave), o segundo maior de sempre em Portugal? Pronunciou-se relativamente aos 465 mil desempregados que não recebem protecção social há quase um ano? Passou-me despercebida a sua reacção quanto ao escandaloso desfecho do concurso de colocação de professores e do desemprego em massa neste sector? Ele, que foi professor tantos anos, importa-se connosco? Lamentou o massacre dos mineiros na Àfrica do Sul? E quanto ao desemprego que chegou aos 15,7% em Portugal?

Cavaco Silva não chega às primeiras páginas de jornal nem pelos bons nem pelos piores motivos…

Os portugueses não precisam de um PR que se deixa ficar esquecido e à margem dos problemas.

Cândida Almeida a Procuradora Geral da República, já

O nosso país não é um país corrupto, os nossos políticos não são políticos corruptos, os nossos dirigentes não são dirigentes corruptos. Portugal não é um país corrupto.

Não bastou a lata de ir comentar processos judiciais que estão a seu encargo num evento partidário.

Ainda foi preciso esta mentira descarada, digna de que confunde o que é apanhado com aquilo que todos sabemos existir, e que escapa à justiça porque a lei os protege e a incompetência de gente como Cândida Almeida o assegura.

Passou com distinção. Uma aposta em como é nomeada Procuradora Geral da República?

Postcards from Romania (31)

Pode um palácio secar uma cidade?

Uma cidade, um país e um povo. As ditaduras ditas de esquerda são tão más como as ditas de direita. Os ditadores são dementes, geralmente. Ceausescu não era exceção e talvez tenha sido, de muitas mais formas do que aquelas que a nossa imaginação pode alcançar, a própria regra. Há um filme-documentário, mais ou menos recente em que, apenas usando imagens reais, o realizador nos dá conta do percurso desta pessoa*.

Ao princípio é simples. Uma pessoa ambiciosa, mas aparentemente com boas intenções. Bom, dizer isto de um ditador é no mínimo caricato. Mas assumamos que assim era. Ele e a sua mulher – Elena** – eram pessoas simples. De muitos modos, continuaram a sê-lo, mesmo na sua imensa perturbação, anos depois, mesmo na sua demência que, tal como o Palácio da República que idealizaram e mandaram construir, parece ter secado um país inteiro, descaracterizando-o através de um processo (quantas vezes deverei usar a palavra demência, ainda que com grandes reservas?) de ‘sistematização’. Continuar a ler “Postcards from Romania (31)”