Os espelhos da Nação

Por A. Coelho de Carvalho

Futebol, corrosão da Democracia

Recordando um escrito meu, que ninguém quis publicar desde há uns 6 anos, volto a perguntar:

Não será já tempo de reflectirmos a sério sobre o impacto corrosivo do futebol, não só no Desporto como na nossa vida de cidadãos de um país por nossa culpa adiado?

Desde há milhares de anos, em todo o mundo, brincar com objectos que saltem é das primeiras brincadeiras das crianças. Esta naturalidade está na base da popularidade do futebol. Como também há uma latente semelhança entre o futebol e os desafios de amor (as jogadas entendidas como carícias e os golos como orgasmos…) todos passámos a adorar o jogo, a jogar ou a ver jogar…
Foi então que houve quem se aproveitasse da nossa paixão. Primeiro directores dos clubes, depois comerciantes, políticos e, por osmose, donos dos jornais, das rádios e das televisões, construtores civis e negociantes mafiosos.

O Futebol passou a ser, mais do que um espectáculo, um negócio, mas sem deixar de ser um jogo!
E desta confusão nasceram as SAD’s com a mirífica ambição de ganharem dinheiro ao “jogo”!
Claro que estão todas falidas. Parecem empresas mas não são. Têm uma lógica empresarial abstrusa, onde os proveitos são procurados esbanjando recursos. Se não há dinheiro para gerir o Clube, gastem-se milhões em contratos com jogadores na esperança do milagre de se ganharem campeonatos e uns cobres nos campeonatos europeus. É tudo uma questão de fé. De fé e de irresponsabilidade!

O que é que justifica os ordenados e prémios que os clubes ditos “grandes” oferecem aos jogadores de futebol e seus treinadores?
Os conhecimentos técnicos ? A habilidade exigida? A dificuldade de aprendizagem ? O esforço físico?
A capacidade intelectual? A responsabilidade por eventuais erros? As condições  em que trabalham? Não, nada disso. Os milhões oferecidos a jogadores e treinadores só têm justificação porque permitem ordenados e negócios chorudos a dirigentes do futebol e a muitos fidalgos que vivem na corte.

Há 60 ou 70 anos havia jogadores que aprendiam a jogar à bola nas praias, uns com os outros, e se tornavam exímios executantes em equipas semi-amadoras que jogavam melhor futebol do que as equipas milionárias que hoje vemos.
Como não se pode avaliar objectivamente a capacidade técnica de cada jogador, os futebolistas vão valendo o que a lábia do seus agentes e a propaganda da sua imagem na comunicação social conseguem sacar de dirigentes irresponsáveis, populistas, ingénuos ou mafiosos.

Ninguém repara na descomunal diferença entre o que ganha qualquer jogador dos campeonatos regionais e o que os clubes da primeira divisão oferecem aos seus escravos dourados. Qual é a diferença entre o que uns e outros fazem? Onde para esquecida a bandeira ingénua das utopias de Abril, “a trabalho igual salário igual”?

Compare-se agora as estrelas dos futebolistas, com os praticantes de outras modalidades desportivas. Pense-se no que é exigido a um ginasta, ou a um atleta, ou a um nadador só para poder aspirar a ser olímpico !
E se saltarmos para comparações com outros artistas? Quantos anos de treino são precisos a um malabarista para se poder apresentar em público? E a um trapezista? E a um ilusionista? E se um atirador de facas falhasse o alvo como vemos constantemente as estrelas do futebol falharem a baliza?
Aliás, no Portugal analfabético e futebolístico, os artistas de circo, admirados e respeitados em todo o mundo civilizado, são simplesmente ignorados pelos mesmos políticos que apadrinham as loucuras do futebol.

Numa última comparação. Entre os jogadores de futebol e os músicos. Considere-se o que é exigido a um maestro, ou a um pianista, ou violinista, ou a qualquer outro executante, em conhecimentos técnicos, em habilidade, em aprendizagem, em treino constante, em responsabilidade por eventuais erros… Que consideração merecem aos nossos governantes e aos nossos embrutecidos e alienados concidadãos?

E que dizer do que os clubes e a Federação pagam aos treinadores de futebol? Que conhecimentos extraordinários lhes são exigidos? Que objectivos celestiais têm que atingir? Que é que justifica as poses napoleónicas que alguns exibem? Mas se até quando demonstram uma confrangedora incapacidade são indemnizados com milhões de euros…

Que pensam de tudo isto os nossos intelectuais, os nossos professores, os nossos cientistas, os nossos músicos, os nossos outros artistas e atletas e os sócios dos clubes em risco de extinção, amantes do futebol mas ainda com uma réstia de bom senso?

Nada me move contra os jogadores e treinadores de futebol que recebem balúrdios. Não têm culpa e quase todos são profissionais honestos. O problema é outro. Tem a ver com o aproveitamento do “negócio” do  futebol espectáculo por parte de dirigentes desportivos, de agentes comerciais, de políticos, de donos de jornais e televisões e de outros negociantes para garantirem poleiros e tachos e arrecadarem, em proveito próprio, dinheiros e benesses à custa de uma intoxicação informativa criminosa que adormece o exercício da cidadania e mantém a maioria da população portuguesa distraída e mentecapta. E a democracia baseada na ignorância e na alienação mental é a mais asquerosa das ditaduras.

Comments


  1. Excelente texto! Caro A.Coelho de Carvalho, subscrevo e aplaudo incondicionalmente!

  2. Konigvs says:

    Eu não consigo entender em que é que o futebol corrói os valores da democracia no sistema capitalista em que vivemos. Não é a democracia a ditadura das vontades das maiorias?
    E num sistema capitalista não se compra e vende tudo? O futebol nos dias de hoje – bem longe dos tempos da bola de trapos e em que nenhum pai quereria que a sua filha casasse com um jogador da bola – é hoje um negócio que gera milhões. Há muito que o futebol deixou de ser o jogo do povo que ia em romaria aos domingos à tarde divertir-se numa bancada lado a lado com os adeptos adversários. Não, o futebol é hoje um jogo de novos ricos que podem pagar um lugar cativo anual, ou 75€ por um bilhete e que podem ver futebol na televisão pagando para o efeito um canal que em exclusivo transmite os jogos.
    Não culpem o futebol, porque podia ser o jogo do berlinde, da carica ou da corrida de sacos, pois se a maioria das pessoas estivesse na disposição de pagar bem para ver uma corrida de sacos, seriam os melhores corredores de sacos que ganhariam hoje milhões e haveria quem pagasse para ver as corridas na televisão, e comprar-se-iam jornais sobre as corridas de sacos. Culpem a ausência de valores dos tempos que vivemos e que diga-se não são de agora.
    No fundo – qual a diferença entre uma vedeta do futebol dos dias de hoje, e um herói das arenas romanas? Conseguem-me dizer?


  3. Pois eu concordo completamente e tanto que, já escrevi, nada aparece nos canais TV tal que a hora nobre de noticiário abre com futebol e tdos os canis têm mais e mais jogos mas spbretudo doutores e juristas comentadores de FUTEBOL e vejo porque nada mais tenho para ver mas não deixo de me agoniar – curiosamente meu irmão em tempo de liceu tinha tempo para jogar futebol e era guarda-rêdes de hokey em patins por puro desporto, eu fiz patinagem por desporto adorei e só me fez bem – E tal que começou a haver equipes femininas e mesmo de jovenzinhos – E quando vejo voley de praia ou de salão e footsal não têm muitos espectadores – que nem há espalhados pelo país embora tenha havido – mas deprezado e vilipendiado, a tentativa de construir pavilhões de desporto espalhados em vários locais do país – que estão fechados e não percebo porquê mas talvez poruq enão é um CAMPO de futebol desenhado pelo arqtº do prémio Pritzer Souto Moura – não sei e não avanço a falar do que não sei – Mas sei que em menina saltava à corda em grupo, jogava o ringue e andava de biciclete, remava no lago do parque urbano e andava de patins – tinha dança e tinha os espaços públicos (parque) para o encontro dos meninos – Mas todos os desportos se vão perdendo não só ligados ao ensino, ficando apenas futebol federado e internacional que movimenta milhões e COMPRA homens como quem compra vacas. termo “comprar” que até é recente e INDECNTE – mas há os que não desistem e o desporto é tão importante que há os cidades e vilas que nada têm – o foot siderou o DESPORTO porque assistir a jogos não é praticar e eu entendo que todo o desporto deve estar ao serviço em paralelo do ensino e da educação dos meninos (e meninas) – de outros desportos se pode falar – Mas o
    “pão e circo” já só é circo e dá pão sim, mas apenas para glutões que acumulam dívidas indecentes vá-se lá saber porquê – obrigada a quem escreveu este texto e me obrigou a pensar nos tempos em que o desporto não era território de indecência – não há teatro na TV (e havia) e fiz teatro no Colégio e na Faculdade de letras de Lisboa – não há espextáculos de ópera e ballet (e havia quando um amigo já desaparecido era director da TV ) que também editou a 1ª revista de cinema do país e escreveu sobre o cinema português (e guardo os livros) e foi fundador do CCC (cineclube católico) e estaurou a Cinemateca e construiu a sala do fundador ++ etc – sei lá lembrar-me de 100 anos de história e estórias do meu pais onde nasci e que me formou e formatou


  4. Não posso concordar com este texto. Os salários pagos são reflexo do valor do negócio e não o inverso. Os salários existem porque os clubes (as empresas) geram esse volume de negócio mesmo que este seja inflacionado e protegido e que sem essa protecção pudesse ser um pouco menor. Mas não modificaria o essencial. Tal como muitos outros artistas e nessa categoria (artística ou de performance) falar de trabalho igual é a mesma coisa que afirmar que todos os cantores de ópera são iguais … Desculpem mas este texto não faz qualquer sentido numa sociedade capitalista e mesmo fora desse modelo como sabemos por muitos outros os desportistas e os artistas, todos os que são únicos por alguma razão gozam de condições de vida infinitamente melhores que as dos restantes e o que fazem seja o futebol seja outra qualquer forma de entretenimento ou de arte são sempre formas de alienação. A forma correcta, a única forma de saber diferenciar as coisas é coloca-las no devido lugar e na importância que têm … e isso está essencialmente na cabeça de cada um de nos.

    • António M. C. Carvalho says:

      Peço-lhe para ler novamente o que escrevi. O que eu não posso tolerar é que tenha havido “gestores” (digo “gestores”, não “donos”) que, por incompetência, cupidez ou desonestidade, tenham arruinado tantos clubes e ficado impunes. Tal como acontece com os governantes. Não tem nada a ver com modelos de sociedades. Se um gestor leva, fraudulentamente, uma empresa à falência não deve ser castigado ? Ou deve continuar ano após ano à frente do clube, sem mudar de política, a desbaratar o dinheiro que vai pedindo aos Bancos? Praticamente todos os clubes portugueses de futebol estão falidos. Acha isso natural? Há negócios no mundo do futebol que são semelhantes aos que existem no mundo da política. Aliás a promiscuidade é evidente. Não foi, há poucos meses, distinguido “pelos relevantes serviços prestados ao desporto nacional” um agente comercial que se limita a embolsar milhões quando consegue impingir um jogador (devidamente propagandeado) a um clube endinheirado ? Há todo um mundo de interesses à volta do futebol mas a maior parte dos sócios dos clubes alheou-se da vida e dos problemas que os afligem. As assembleias gerais onde se votam os destinos dos clubes raramente conseguem reunir 10 % dos associados ! Só protestam quando os resultados no campo os envergonham, tal como o povo só se manifesta quando lhe vão aos bolsos… Não acha tudo isto um espelho do que acontece no País ?


  5. Estou mais preocupado com o que ganham os banqueiros e outros ladrões.

    • António M. C. Carvalho says:

      Mas quem é que, em última análise, ganha com as transferências de jogadores, a construção de estádios, os empréstimos às SAD’s, os jornais desportivos, as transmissões de toneladas de (mau) futebol pelas televisões ? Anda distraÍdo?

  6. Fernando says:

    Sou e assumo-me frontalmente “anti-futebol negocio”. Não sou invejoso do que ganham as “prostitutas” do futebol. Sim para mim os jogadores não são mais do que prostitutas do futebol. Vamos comparar: são governados por agentes que os “embelezam” para mais sacarem; ficam presos aos clubes por perda directa do passe, teem de dar o melhor que sabem ou serão punidos, são-lhes proibidos – em certas circunstancias – de se divertirem, dormirem com as esposas, namoradas ou amantes, etc.
    Quando eu leio que as prostitutas que vendem o corpo, ficam sem o passaporte; que os seus “anjos-da-guarda” as vestem de forma atraente; que vão trabalhar para os lugares destinados pelos seus “anjos-da-guarda” ; que se não agradam na cama sujeitam-se a castigos físicos; que são impedidas de criar amizades (intimas) com os seus clientes; que os jogos na cama não podem durar muito tempo ( estão mais clientes a’ espera), na minha arcaica opinião existe alguma similitude entre estas duas profissões.
    Quanto as fortunas que os jogadores ganham, bem… eles recebem o que lhes pagam.
    Tal como uma prostituta que cobra pelo seu jogo “X”, mas o cliente extasiado com o jogo recebido lhe pagar “Y”, o problema não e’ da prostituta.
    Se eu fizer um equilíbrio entre o trabalho produzido por um jogador de futebol e um medico ou um piloto de carreira ( a titulo de comparação) nem encontro palavras para descrever tal desequilíbrio.
    Que moral existe para criticar um medico que cobra 200 ou mais euros por uma consulta que pode salvar uma vida, um piloto que ganhe 10 mil euros por mês – mas tem nas suas mãos uma aeronave de milhões, e acima de tudo e’ responsável pela segurança de 300 ou mais pessoas -, se se “perdoa” o dinheiro que dão para assistir a um jogo em que o “craque” fez remates a metros do alvo ?
    Falar sobre a violência que este desporto (pessoas) origina ou da postura educacional que os amantes do futebol usam nos seus debates ou diálogos, dou por findo o meu comentário.

    • António M. C. Carvalho says:

      Nunca me ocorreu essa comparação, que acho justa. Nem os jogadores nem os treinadores são culpados das quantias astronómicas que “alguns” clubes lhes pagam. Mas essas quantias escandalosas, têm uma faceta psicológica que passa despercebida ! Tanto os políticos, como os que vivem à sua volta podem calar a sua consciência pensando “Se aqueles rapazes, mesmo analfabetos, podem ganhar fortunas a dar pontapés na bola, porque é que eu não me hei-de amanhar com o máximo que puder ?

  7. Konigvs says:

    O espelho entre o futebol e a política é este: quando os adeptos do futebol estão insatisfeitos atiram bolas de golfe, quando o povo está verdadeiramente indignado e revoltado com os seus políticos atiram ovos.
    Quando os adeptos de determinado clube estão insatisfeitos com algo, sejam os resultados ou as contas, atiram-se bolas de golfe, petardos e se for preciso fazem-se verdadeiras batalhas campais com os adeptos adversários Quando o povo é enganado, roubado, insultado e é forçado viver na miséria e lhe dizem “não estás bem emigra” o povo revolta-se violentamente contra as greves na CP mas mantém-se sempre manso.

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