e-corrúpio

Em 2020 já não haverá livros, assegura-me ao telefone um amigo tomado de fascínio por essa visão pós-moderna da nossa existência próxima. Digo-lhe que não, que haverá sempre livros. Contra-argumenta lembrando a quota de mercado que têm actualmente os e-books, e afirma, insuflado de certeza pelas garantias da propaganda da tecnologia de ponta que o subjuga, que esse mercado vai crescer, que as pessoas já não vão querer ler livros em papel, que vão lê-los nos seus formatos digitais, com tablets e essas coisas que hoje também servem para ler. Digo-lhe que haverá sempre livros porque haverá sempre leitores de livros. Diz-me que esses leitores analógicos e anacrónicos vão morrer, e gradualmente dar lugar a novas gerações de leitores nada interessados no objecto-livro – segundo ele condenado, mais que não seja, porque é demasiado caro. Insisto que haverá sempre livros, e que pessoalmente não aceito participar desse programa de matança do livro. E para o calar remato: que me deixe às minhas utopias, sendo certo que essa espantosa engenharia das possibilidades se constrói com as cabeças que pensam e com as mãos que escrevem, com os olhos postos no Mundo que é preciso fazer nascer dos escombros – ruínas produzidas pelas mesmas tecnologias de mercado que reduzem pessoas a números indexados em bases de dados de consumidores-contribuintes dos e-Estados.

Desligo o telefone e baixo-me para apanhar um desses escombros: uma lamentável tradução recente de um livro de um grande escritor, talvez realizada num prazo absurdo para uma obra literária, num e-corrúpio à moda dos tempos, talvez unicamente revista num monitor de computador, talvez sem as sempre necessárias (e anacrónicas e analógicas, bem-entendido) provas de papel com emendas a lápis, ou talvez mesmo jamais revista por um revisor profissional, o que acrescentaria custos à edição – e sobretudo retiraria receitas aos editores reféns das lógicas monopolistas abjectas das grandes superfícies e suas cadeias de intermediários que, duma assentada, acabaram com as livrarias e com os ofícios da edição. E abro o escombro (editado por uma importante chancela, como agora se diz das editoras compradas pelos grandes grupos que se têm dedicado a dar cabo da edição de livros em Portugal) nas primeiras páginas para descobrir, atónita, a certificação que dá cabo de mim: as traduções dos livros desse escritor em Portugal são todas obrigatoriamente revistas por uma senhora professora doutora que assegura a sua qualidade. Como diria a minha filha tomada de perplexidade: what the fuck?!

Comments


  1. Como é que se hão de encher paredes com livros comprados ‘a metro’?

  2. maria celeste d'oliveira ramos says:

    Este mêdo já eu tinha ouvido a Natália Correia quando o computador “apareceu” em Portugal

    Mas neste tempo de desmantelamento de tudo não só não há na Ar Natálias Correia como de fecto o prazer de ler se vai apagando aqué nos mais jovens que lêm porcarias e tê tantas outras formas de conviver que nem sei se lêem
    Já não vejo tantos meninos com livros da mão a ir ler para a rua o jardim ou a esplanada
    E até adultos da minha idade andam com as tais “tablets” e divertem-se a fazer não sei o quê

    Não sei que diga neste tempo de se querer ser tão moderno que se esquece o mais essencial e se anda a correr não sei para ir onde

  3. Maquiavel says:

    Há 30 anos dizia o Bile Gaitas que a sociedade seria sem-papel em 20 anos!
    Foi portanto há… 10 anos atrás que abandonámos os pap… näo, espera…

  4. Tito Livio Santos Mota says:

    Um dia um jornal anunciou a morte de Mark Twain
    No dia seguinte foi publicado o seguinte desmentido :

    “O anúncio da minha morte estava bastante exagerado.
    Mark Twain”

  5. Pedro Marques says:

    Apagou o último artigo porquê?

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