A culpa é deles

Malgastam o dinheiro do pequeno-almoço dos filhos pelos cafés, endividam-se com plasmas e férias em Benidorm, preferem comprar maços de cigarros ao livro de português do miúdo, entregam-se, irresponsavelmente, à farra das greves, provocam as forças da ordem quando insistem em sair às ruas e gritar. A cada dia, aumenta o seu rol de pecados: hoje, é o do desperdício alimentar. Compram comida a mais e deixam-na estragar-se no frigorífico, perdulários como são, com mais olhos que barriga.

Curiosamente, não se ouviram referências às campanhas publicitárias das grandes superfícies, que ainda na semana passada facturaram em grande com a recolha de alimentos para o Banco Alimentar. Muito menos se recordam os super-descontos em dia de greve, que levaram os tais perdulários a comprar mais do que precisariam.

Há consciências que precisam desse embalo, do sossego que advém do convencimento de que só é pobre quem quer. E a esses, aos pobres por opção, bem se pode tentar ensinar, com caridosa paciência ou ríspido autoritarismo, mas é difícil que aprendam.

Comments

  1. maria celeste d'oliveira ramos says:

    O mundo do avesso – façam greve à solidariedade pois é o que gostam os que giovernam – contam sempre com os papalvos

  2. Pedro Pinguela says:

    A pobreza resulta das relações sociais que se estabelecem. Através delas também a poderíamos reduzir muito. Claro, há também comportamentos individuais, mas esses seriam contidos e sem expressão.

  3. xico says:

    Carla Romualdo
    Tem razão quanto à pobreza. Há os que são pobres, e muitos, porque não conseguem ter os bens suficientes. Mas há de explicar-me porque proliferavam cafés e snacks junto a escolas, com cantinas vazias porque os meninos não gostavam de sopa nem do comer. Conheci gente que não honrava dívidas pequenas, pedindo por tudo e por nada, e de manhã lá estavam no café onde se vendia pão que em vez de o comprarem decidiam ali tomar o pequeno almoço, quando até viviam perto. Infelizmente hoje os pobres verdadeiros estão a ser confundidos com tolos perdulários.
    E não me parece que haja mal algum que os supermercados ganhem dinheiro com a nossa esmola. Afinal ganhamos todos, quando assim é.

    • Carla Romualdo says:

      Ganhamos todos? Não, Xico, só ganha quem se alimenta do negócio da miséria. Quanto ao resto dos exemplos, são mais uns quantos casos pontuais transformados em maioria.

      • xico says:

        Não defendo a miséria e não sou apologista de resolver os problemas sociais através da esmola. Acredito na transformação da sociedade de forma a obter uma justa e equitativa distribuição da riqueza. Como cristão e católico é mesmo essa a minha ideia de caridade. A caridade é a compaixão: isto é, sofrer com o outro. Se sofrer os problemas dos outros, faço-os meus e vejo-me forçado a procurar uma justiça social e económica que não fica pela esmola ou distribuição do que me sobra, mas pela equidade e valorização do trabalho e controle dos meios de produção.
        Mas como já usufrui da esmola dos outros em tempos difíceis, sei bem que, enquanto os problemas sociais não se resolvem no campo político, é preciso prover rapidamente, através da partilha dos bens essenciais com quem precisa.
        Tenho perfeita consciência, ao contrário de muitos que aqui opinam, que ao comprar, com o que me sobra, bens para distribuir pelos que precisam, dou lucro aos comerciantes e impostos ao Estado. E isto é bom. Porque não conheço, eu que sou a favor do papel do estado, logo uma atitude de esquerda, dizia eu que não conheço outra forma para a existência de um estado social que não seja pelo pagamento de impostos.
        Quando o comerciante ganha lucros, espero que isso seja gerador de emprego. Ao gerar lucros, gera emprego e gera impostos, logo gera a possibilidade de um melhor estado social.
        Há quem queira ver a miséria aparecer para que os miseráveis se levantem e façam a revolução que eles, comodamente instalados, não estão dispostos a fazer.
        A miséria, vimo-la nas fomes da Irlanda, fruto do capitalismo feroz do século XIX. Infelizmente voltámos a ver as mesmas imagens, no século XX na Ucrânia e na China comunistas, fruto de um colectivismo absurdo, estúpido e criminoso.
        Dispenso lições paternalistas sobre a distribuição da riqueza e sobre os benefícios das revoluções. Dispenso lições paternalistas de quem, no passado, se regozijou com a transferência das fábricas da Alemanha para Portugal, não se preocupando com o desemprego dos outros.
        Enquanto puder, faço o que está ao meu alcance. Partilhar o que tenho com os que não têm.

        • Carla Romualdo says:

          Xico, não ganhamos todos com o negócio da miséria, que serve os interesses de uma elite e não vai à raiz do problema. Foi isso que eu quis dizer e acho que me entendeu.
          Quanto ao paternalismo, não estava nas minhas intenções. Mas imagino que também não estaria nas suas quando apontava uns quantos comportamentos pontuais para ilustrar uma realidade muito mais ampla e diversa.


  4. Olá…

    Difícil acho que é pouco… Vou mais para o impossível… Pelo menos para as próximas décadas/gerações… Afinal a mente desta gente é formatada pelo constante folclore transmitido em tudo o que é “meio de merda social”…

    Longa vida aos ESCRAVOS POBRES… Há que manter a Pobreza sempre presente pois sem eles a Sociedade actual não funciona…

    Abraço


  5. Comprai Bulicaos, aproveita-se, só sobra o invólucro, que pode ser por sua vez aproveitado para trabalhos manuais.

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