Educação espartana – o apartheid

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«O Ministério da Educação decidiu “abanar” uma instituição de grande gabarito e tradição no panorama do ensino nacional, introduzindo turmas femininas num liceu há décadas vocacionado para o ensino de rapazes, exclusivamente. Eu fiz parte do primeiro contingente de raparigas a estudar no Liceu de Camões. (…) Vivíamos com regras peculiares, como, por exemplo, estarmos confinadas ao pátio norte, não podermos ter qualquer tipo de contacto com os colegas rapazes, sob pena de processo disciplinar (o que era recíproco para os rapazes, que tentavam sempre espreitar e ver as meninas…), termos maioritariamente professoras, e estarmos sob a tutela de uma vice-reitora (…). A disciplina era implacável, tendo nós a sensação de que o reitor buscava o mínimo pretexto para nos colocar dali para fora.» (Ana Paula Russo)

Em 1971 chegavam ao Liceu Camões, de uma assentada, mais de cinco centenas de raparigas. Por já não haver lugar para tantas nos poucos liceus femininos então existentes. Porque tudo estava a mudar, apesar de tudo, e a vida das mulheres também. A escola passava a ser um liceu masculino com uma secção feminina, isoladas no pátio norte. «Raparigas alinhadas para [serem] um presente dos anos 70 dado à história do liceu: íamos inaugurar a “secção feminina” em sessão solene. O reitor chamou-nos para avisar (o dedo em riste) que estávamos ali por favor, que aquele era um liceu masculino. Posso então escolher um pátio, repleto de manchas brancas (as nossas batas), lugar de brincadeiras, mas vigiado. Escolho esse pátio e entrego-o às vontades da vice-reitora, que mandava espiar as meninas. Assim, posso converter o recreio numa prisão, campo em que jogávamos ao “mata”, dia após dia, como se nada se passasse em todo o mundo lá fora. Os rapazes pertenciam ao outro pátio e os funcionários policiavam o corredor, a sustentarem a impossibilidades de nos cruzarmos». (Cecília Cunha)

«Apartheid – As meninas lá estavam (…), centro de todas as atenções, da nossa curiosidade e pulsão adolescente (…), inacessíveis, a um pátio de distância, guardadas em todos os acessos por funcionários zelosos». (Luís Cunha) Apartheid, sim, pois «mesmo quando as raparigas tinham aula na sala de Geografia, que ficava no “pátio dos rapazes”, tinham de aguardar – no corredor estreito que une os pátios, atrás de uma grade de lagarta – que todos os rapazes tivessem entrado nas suas salas respectivas. E só depois, em diagonal rápida, podiam avançar.» (José Alfaro)

Testemunhos de antigos alunos do Liceu Camões, em Lisboa, em Liceu de Camões – 100 anos, 100 testemunhos (Quimera, 2009)

A propósito da educação espartana.

Comments

  1. MAGRIÇO says:

    O fundamentalismo religioso está quase sempre na base de qualquer discriminação. Pela sua grande inércia em acompanhar o evoluir dos tempos, a religião tem sido, através da História, um cadinho de conflitos entre povos e crenças. Desenganem-se os que pensam que fundamentalismo é coisa de muçulmanos: estes, apesar do seu inegável fanatismo, nunca tiveram uma inquisição…


  2. Como diz a minha prima…. “Educação é aquilo que a maior parte das pessoas recebe, muitos transmitem e poucos possuem.”

  3. xico says:

    Isto porque se tratava de um liceu de betinhos e era preciso cuidar da honra das meninas, filhas dos grandes da Terra. Por esta altura e até antes, nas escolas industriais e comerciais já as turmas eram mistas. E o que as raparigas faziam sofrer os professores homens mais jovens não passa pela cabeça das mais traquinas de agora.
    Quanto ao que diz o Magriço, talvez um curso intensivo de história lhe desse algumas luzes de forma a não dizer os disparates que escreve. Pode ser num liceu misto ou unisexo.

    • MAGRIÇO says:

      Pelo seu comentário, parece-me que não sou eu quem precisa de um curso intensivo de História. E, já agora, numa escola laica, de preferência, sem formatações de espíritos.

      • xico says:

        Claro. Onde é que já se viu formatação de espíritos numa escola laica? Nunca!
        Mas sobre as escolas comerciais e industriais o ensino não foi teórico. Foi prático. Frequentei a escola industrial antes de 71, em turmas mistas.

        • MAGRIÇO says:

          Que bom para si! Já ganhou o céu! Nos anos 50 fiz todo o meu percurso do ensino médio num colégio Salesiano, por acaso óptimo pedagogicamente, mas em que rapariga não entrava. E, veja lá, tinha missa todos os dias antes das aulas, tinha uma cadeira de religião e nunca me convenceram a almejar o paraíso. Questão de mentalidades…

          • xico says:

            Azar o seu. Os meus pais não podiam suportar o luxo de uma missa diária, por isso aguentei a industria dos pobres e dos transviados. O único luxo foram os namoricos dentro da sala de aula e professores prafrentex que não entravam no liceu por serem avançados em demasia. Sorte a minha. Na altura não sabia mas hoje sei: aquilo já era o paraíso!

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