Facebook leva João Geraldo à Guatemala

Imagem

João Geraldo teve o desplante de ser bom, muito bom, numa modalidade em que os melhores estão a crescer numa cidadezinha de província, até agora apenas conhecida por um megalómano “metro” em vias de extinção, pelas alheiras e por ter sido o berço do Prof. Jesualdo Ferreira. Dizia alguém (uns garantem que foi La Rochefoucauld, outros afirmam que foi Alexandre Dumas) que “todas as generalizações são perigosas, até esta”, e eu não queria generalizar quando afirmo que o caso de João Geraldo é o paradigma do desporto amador em Portugal.

Alguém cresce desportivamente, conquista o direito de estar em representação do país numa prova global, e, depois, não tem dinheiro para se deslocar à final dum circuito mundial. Porquê? Porque a sua federação já não tem crédito: são muitas as dívidas, ninguém fia…

João Geraldo é uma das grandes promessas (e uma das mais jovens certezas) do ténis de mesa nacional, modalidade desportiva que fez babar alguns portugueses naquele célebre jogo das Olimpíadas de Londres em que quase eliminávamos os monstros mundiais. Este rapaz, que joga no Clube de Mirandela, conquistou o direito a estar presente na final do Circuito Mundial de Juniores, que se disputa, ainda este mês, na Guatemala. Precisava de 2.400 euros para a viagem (sua e do treinador), e a Federação disse que não havia dinheiro. Com um passivo acumulado de cerca de 200 mil euros (cito), a estrutura federativa tinha outras prioridades.

Longe de mim pôr em causa a promoção de precedências. Também já fui obrigado a tomar decisões muito difíceis quando passei pela estrutura federativa de outra modalidade desportiva, igualmente amadora. E aceito o argumento de que “este valor equivale, por exemplo, a levar a equipa feminina de juniores a um Open na República Checa ou a selecção nacional de juniores ao Open de Espanha. Experiências de competitividade, crescimento e internacionalização muito importantes para vários atletas”.

Aceito ainda que esta decisão terá sido difícil, como foi a de, em Dezembro, “não poder viabilizar a ida da selecção ao Mundial de juniores, na Índia”.

Não tenho nada a opor aos objectivos da Federação de “a curto prazo, subir a posição da selecção nacional de juniores no próximo Campeonato do Mundo, em Junho (no ano passado, ficámos em 6.º lugar). A longo prazo, preparar a substituição da selecção A. E contamos, claro, com o João Geraldo”. Como diz Pedro Miguel Moura, o Presidente, a sua meta é “apostar na preparação e evolução dos atletas”.

O que eu questiono é que, sendo o ténis de mesa uma modalidade com percurso olímpico, logo com benfeitorias orçamentais em relação a outras, se tenha chegado a uma dívida destas. O que eu quero manifestar é a minha profunda indignação pela ousadia que alguns dirigentes têm, de deixar para os vindouros um ónus tão pesado como o que recebeu o actual elenco federativo do ténis de mesa.

Todas as federações vivem com sufoco, todas têm dívidas (a não ser que tenham presidente rico e que abra a bolsa), mas para tudo há limites: de bom senso, de respeito pelos dinheiros públicos. E, se as federações são, efectivamente, trampolins para alguns se alcandorarem socialmente, esses que paguem a publicidade granjeada, pagando do seu bolso, nunca com o dinheiro que devia ser gasto no fomento da modalidade, no aumento do número de praticantes e nos atletas que conquistam o direito a participar em provas internacionais.

Mas o João Geraldo vai à Guatemala. Uma subscrição, iniciada no facebook, conseguiu 865 euros; o jornal i pôs o resto (“É com grande satisfação que comunicamos que o jornal i se associa à iniciativa de angariação de fundos para custear a ida do atleta João Geraldo à final do Circuito Mundial de Ténis de Mesa na Guatemala, disponibilizando-se para contribuir com o montante neste momento em falta (…)”.

E, desde os 4,81 euros que um jovem doou, até à rifa da senhora de Cercal do Alentejo, muita gente se solidarizou com o pedido e ajudou à viagem.

Agora, só nos resta pedir ao João Geraldo que vença esta final. Era lindo! E uma bofetada com luva de pelica a alguns. Aqueles que estão mais interessados no mais recente fenómeno de balcanização do Comité Olímpico do que nos praticantes que, mercê dos seus resultados internacionais, suportam essas vaidadezinhas pessoais, que todos pagamos.

Comments

  1. Bufarinheiro says:

    Só acho estúpido dizer que é o Facebook que o leva…


  2. Sempre conheci Mirandela mais pelo ténis de mesa do que pelas alheiras! Aliás, as alheiras nunca poderiam ser de Mirandela, visto esta ser terra quente… 😉

    Quanto ao ténis de mesa (e é isso que agora interessa), sempre houve tradição nessa cidade transmontana. E bem.

    E o João Geraldo ‘só’ faz jus à tradição. P A R A B É N S!

    🙂


  3. As alheiras de Mirandela são como aquele vinho que é produzido em Trás-os-Montes, carregado em pipas para Vila Nova de Gaia, onde é engarrafado e exportado para todo o mundo, quem sabe até todo o universo, com o nome vinho do…Porto! Há tascos em Trás-os-Montes que fornecem cálices com água a quem peça um cálice de vinho do Porto.
    Quanto ao rapaz e ao ténis de mesa… não aconteceu mais ou menos o mesmo com o remo e a sua federação? Ademais, não é de esperar que haja no futuro próximo alguns destes excelente atletas a fazer o mesmo que a Jerónimo Martins e a sua marca Pingo Doce? Pois… e é triste, mas se eu fosse atleta já o tinha feito, e desprezaria totalmente todos os que dissessem que ah e tal foi Portugal que pagou a tua educação e mais não sei quê. É que os pais e avós destes miúdos pagaram impostos a vida toda e não devem nada a ninguém com certeza.


    • E eu conheço ainda melhor! A quem pedir vinho do Porto servem uma ‘coisa’ que se chama Três Velhotes. Água sempre é água, certo? 😉
      Já a quem pedir Vinho Fino… 😀

  4. Maquiavel says:

    “Populares solidários levam João Geraldo à Guatemala”.
    Assim é que é!

  5. Zé Maria says:

    Boa! Boa!!!!!!
    Felicidades “puto”, voa alto. Ao ganhares e conseguires a tua presença na Guatemala, trouxeste, aos que te apoiaram, umas pequenas vitórias.
    Sabe tão bem ler estas noticias!

Deixar uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.