Má sorte ter sido cagarra

Hoje os meus pensamentos estão com a cagarra da Selvagem Pequena. A criatura escolheu o sossego de uma ilha virgem para nidificar, ela que pertence a uma espécie que passa boa parte do tempo a voar sobre o mar.

A ilha, garante o director do Parque Natural da Madeira, estava “como veio ao mundo”, um pequeno éden sem sombra de intervenção humana.

Nenhum chefe de Estado alguma vez pisara o areal. Nem sequer o Alberto João.

Aí escolheu a cagarra nidificar e quando estava aconchegada no calor do ninho, chocando amorosamente o seu ovo, abriu os olhinhos piscos e – o horror, o horror – descobriu Aníbal Cavaco Silva a olhar para ela. Sem mais preâmbulos, e com a falta de jeito que podemos imaginar, o presidente pegou nela e colocou-lhe a anilha L88327, ficando assim “para sempre ligado à ave”, já que no cadastro do bicho ficará indelevelmente registado que foi o presidente da República a anilhá-la.  

Antes de soltar a ave, terá o presidente ordenado à cagarra que “desse notícias quando passasse por Lisboa”, talvez para reforçar a ideia do vínculo perpétuo a que nem uma ave migratória poderá escapar depois do desditoso anilhamento.

E ainda na presença da criatura, o presidente não se inibiu de perguntar se a cagarra fêmea mantém sempre o mesmo parceiro, pergunta insultuosa para a cagarra e pouco diplomática para um chefe de Estado. Que sim, responderam-lhe, sempre o mesmo.

“Boa sorte, cumprimentos ao teu companheiro” – despediu-se o presidente, malcriadíssimo.

Deve ter partido depois a comitiva num tropel de assessores, jornalistas, tropeções, risadas inconvenientes, pedras chutadas, folhas partidas, deixando para trás um rasto da sua passagem pelo que foi uma ilha virgem.  E talvez a cagarra possa aconchegar-se à ideia de que foi tudo um sonho mau, apesar da sólida presença da anilha.

É uma pena, penso com os meus botões, não terem convencido o presidente a anilhar o touro Marreta, que, de tanto fugir, deve sentir-se incumbido de alguma missão na vida. Quem sabe não será a da salvação nacional?

Comments


  1. Este sujeito , uma espécie de presidente da república , que nada dignifica o cargo , tinha que ir conspurcar a selvagem .
    Pena que a cagarra não o tenha ” carragado ” de necessidades orgânicas . Este indivíduo é um interesseiro , um egoísta , falso sem credibilidade . Só ele é que conta para ele .
    Será que isto é uma punição sobrenatural aos portugueses ?
    Quando se fala em austeridade essa gentalha não se priva de
    nada , gasta à fartasana , como o outro em França , à grande
    e à francesa . É fartar vilanagem .

  2. edgar says:

    Falar da gravidade da situação do país, com ar de praia e de férias, não lembraria ao diabo….

  3. Mário Machaqueiro says:

    Mais sugestões de animais a anilhar pelo presidente Cavaco: um rinoceronte, um leão privado de comer há cinco dias, uma cobra-coral, um tubarão-branco (não sei onde cabe a anilha, mas deixávamos o presidente descobrir).

  4. Pinto says:

    Não há stress,nas selvagens não há industria nem agricultura para destruir …. o pior que ainda pode acontecer é as cagarras terem de entrar na mobilidade especial…


  5. Não há indústria e agricultura para mandar destruir , mas só pela presença do Cavaco já está a haver destruição , ele é
    um destruidor nato e certamente já pensou na mobilidade das
    cagarras . Coitadas das salvagens , que tiveram má sorte de
    assim nascerem .. Este sujeito , uma espécie de presidente da república , que se julga o ser superior de todos os seres e de
    coisas do mundo , em que só ele conta pelo seu egoismo ,pela
    sua indiferença , incapaz de respeitar o que quer que seja , é capaz de passar por cima de tudo e de todos .

    O povo a passar mal por culpa dele e de seus apaniguados e
    ele a esbanjar , sem pejo de conspurcar as ilhas selvagens .


  6. Anilhado está o Coelho.

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