Manuel Louzã Henriques

Há pessoas que nos fazem, começa sempre por duas, e depois nos foram fazendo, continuado o labor das mesmas duas, chegam outras, os amigos.

Sendo o meu pai um particular amigo do Manuel, tive o acrescido benefício de o conhecer desde pequenino. Confesso-me, de muito puto, fiel admirador e copiador no meu quarto daquela casa minúscula na Rua da Mãozinha onde as estantes acumulavam o desarrumo ordenado do que gostamos; livros, instrumentos, objectos com uma história e pessoas lá dentro e a contar para fora; mais que não seja serviu-me tantas vezes de justificação perante a minha mãe habituada às prateleiras ordenadas da loja dos avós, onde ela chamava desarrumado eu garantia, estética e funcionalmente, está muito mais arrumado que a nossa cozinha, sei onde está tudo e hei-de trazer o resto do mundo para casa. Coisas de puto, já não sei onde andam coisas e papéis, e cada vez menos trago o mundo para casa.

A Lápis de Memórias editou um livro que é uma conversa, entre o melhor conversador do mundo, o Manuel Louzã Henriques, a Manuela Cruzeiro e a Teresa Carreiro, acrescido do testemunho de um muito pequenino grupo dos seus amigos, houvesse espaço para todos e não cabiam numa lombada. Ficou-se pelas 460 páginas.

Algures Com Meu(s) Irmão(s) pode parecer mais uma daquelas coisas das gentes de Coimbra, muito dadas ao saudosismo e suas estórias (esquecendo que essa cantada saudade dos tempos juvenis brota da nascente dos que entre nós estudaram, e a estas terras, mares e suas serranias até eram estranhos). Também sendo, e qual o mal, não o é. [Read more…]

Tetracampeões

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A AD Lousada, conseguiu com serviços mínimos, ou seja ao segundo jogo da final do play-off à melhor de três jogos, arrebatar o tetracampeonato, juntando ao título de campeão na variante de campo o ceptro nos seniores em “sala”, a Taça de Portugal e a Supertaça, igualando algo que não acontecia desde a época 1996/97, momento em que o Sport Club do Porto conseguiu também o pleno em seniores.

Para a galeria dos vencedores, os golos de Pedro Sousa, Bruno Santos e Nelson Oliveira foram suficientes para garantir a vitória no jogo e na prova, de nada valendo, em termos finais, os golos de Ricardo Fernandes e Diogo Sequeira que amenizaram a derrota do Clube Futebol Benfica, animador da fase regular ao terminar em primeiro lugar para o tiro de partida para a fase definitiva.

Consumado o sétimo título nesta variante, a equipa do Vale do Sousa perfila-se para continuar a marcar a hegemonia, embora o crescimento do Fófó seja de assinalar, bem como a ascensão do Sport Club doPorto, o candidato vencido nas meias-finais pelos lisboetas.

Olha a uniformização ortográfica fresquinha! (2)

abiogênese (Bras.)/abiogénese (Port.)

Antes que a voz me doa

Se a intenção era, apenas, marcar uma posição pessoal e subir um ou dois degraus na hierarquia da coligação governamental que nos põe a cabeça em água e a bolsa em fanicos (para já não falar da dignidade atraiçoada), não havia mesmo necessidade de o Dr. Paulo Portas, na consumação da sua birra, por muitos e por mim também considerada infantil, quiçá irresponsável, nos ter feito pagar mais uns milhões de juros àqueles que teimam em espremer-nos até só sair sangue, que o suor e as lágrimas já se foram, de tão gastos.

É por isso que me concedi o prazer da fuga, não por cobardia, mas porque sentia que estava a perder a serenidade, a lucidez e outras coisas a que comummente chamamos valores (sociais, pessoais, morais, epistemológicos…). [Read more…]

A idade do ‘juventismo’

le_bel_age_01Numa entrevista recente, a pretexto da publicação em França do seu mais recente ensaio, intitulado Le bel âge, Régis Debray afirmou – ao arrepio dos que modernamente olham para a História da Humanidade como unicamente feita de presente – que vivemos uma época marcada pela “crise da transmissão”. Referia-se o autor à perda dos elos de ligação entre o passado e o presente, com consequências, designadamente, para a sobrevivência das identidades culturais dos povos, sobre quem se lançou o sortilégio tecnológico da globalização uniformizadora do Mundo. E no entanto, “o que distingue um homem de uma abelha ou de um urso é que um homem ergue monumentos, guarda a memória dos avós. Mas hoje instalam-nos num universo desligado do passado, embora conectado no espaço. Contudo, o elo de ligação profundo da Humanidade reside no tempo e não no espaço.” [Read more…]

FMI, o centro astrológico de Lagarde & Cia.

A astróloga Lagarde

A astróloga Lagarde

 O ‘Público’ divulgou a notícia ‘Zona euro aumenta pessimismo do FMI para a economia mundial’. Discordo. O título deveria ser ‘A predição do FMI é de pessimismo para a economia mundial e Zona Euro’.

A nuance de sintaxe não é irrelevante. No primeiro caso, está subjacente o princípio, errado, de que o FMI faz previsões rigorosas, a despeito de modificadas de semanas após semanas. A metodologia é obviamente falsa!

O organismo comandado por Lagarde, transformado em centro de astrologia, o que faz é anunciar mutáveis e inconsequentes predições, coisa bem diferente de previsões sustentadas em modelos matemáticos consistentes – os erros sistemáticos, denunciados pelas próprias chefias do citado FMI, constituem prova eloquente da falta de credibilidade de prever da instituição.

O que distingue a previsão da predição? A primeira corresponde a um estudo sério que permite antever resultados, dentro de desvios aceitáveis. A predição é um acto de astrólogos. Tem a pretensão de adivinhação por feitiço – faz-me lembrar as ciganas feiticeiras que, há anos, vagueavam pelo Parque Eduardo VII, aqui em Lisboa, a ler a sina, conjecturando venturas e desventuras desenhadas na palma da mão.

Tomemos, pois, em consideração quais são as principais predições da Madame Christine Lagarde e sua equipa para a economia mundial e Zona Euro:

  • A economia mundial registará um crescimento de 3,1% em vez dos 3,3% da predição de há três meses (Abril/2013).
  • Para a Zona Euro, a recessão será de – 0,6% em vez de -0,4% vaticinados antes.
  • A Espanha registará em 2013 uma contracção de 1,7%, passando ao estado de estagnação em 2014 que contrasta com a profecia anterior de crescimento de + 0,7% do PIB.
  • Os países emergentes, Brasil, China e Rússia, não escapam à queda em 2013, bem como a novas reduções em 2014.

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Indignação contagiosa

São hoje muitos os países, em todos os continentes, em que imensas massas populares  inundam ruas e praças para exercerem o direito  à indignação. O fenómeno faz lembrar a revolta dos escravos e a queda do Império Romano: contagioso, imparável na sua confrontação com uma globalização perversa, de finanças sujas que pisam a pés os mais elementares direitos humanos e pretendem impor ditaduras que nada ficarão a dever à crueldade de outras que, na primeira metade do século passado, queriam obrigar ao pensamento único, ao racismo criminoso e outras lástimas de minorias acusadas, com razão, de explorarem o povo em seu proveito. [Read more…]

No cu dos outros é pimenta

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Já fiz uma bandeira da Indonésia, em papel. Queimei-a sobre a A1, no primeiro directo radiofónico português  feito a partir de um balão de ar quente, porque achámos, na RUC, ser uma oportunidade para sermos solidários com Timor, contra a ditadura indonésia.

Queimam-se bandeiras contra governos, não ardem contra os povos. Fosse boliviano, e ontem também tinha inventado uma bandeira portuguesa, lançando-lhe as chamas que merecem os que abrem o cu ao governo dos Estados Unidos da América, ou de outra potência estrangeira qualquer. O nosso, e não o seu.

Quem finge não perceber isto chama-se Paulo Portas e está a esta hora metendo a cabeça entre as pernas, perante o nosso parlamento, demonstrando não passar, irrevogavelmente, de um mentiroso compulsivo a caminho de voltar a S. Bento de lambreta, haja eleições entretanto. Teria a certeza absoluta disso não fosse a liberdade de imprensa o poder e propriedade dos que lhe telefonaram a semana passada, transformando acabou no matrimónio que vem já a seguir

Ex-ministro da ‘CP’ chinesa condenado à pena de morte por corrupção

ministro_chines_condenado_morte_por_corrupçãoExpulso do Partido Comunista em 2012, entre 1986 e 2011 recebeu subornos (o equivalente a 8 milhões de euros) e usou o cargo para ajudar um empresário a conseguir negócios e lucros ilegais. (Fonte: Euronews)

Os Privilegiados: o relato dos interesses, influências e benefícios da classe política

Veja aqui.

Como apanhar um terrorista

Ou a importância dos metadados (em inglês).

O naufrágio

naufragio

O navio adornava perigosamente. Os tripulantes estavam agitados e temerosos. Os passageiros, esses, dividiam-se. Havia os que confiavam que tudo acabaria bem e as coisas se comporiam por si. Havia mesmo um ou outro que acreditavam na competência da tripulação.

Todavia, a maioria não estava satisfeita e havia mesmo quem pensasse que era melhor substituir o comando do barco antes que fosse tarde. Manhoso e espreitando com seu ar de fuinha, o imediato, ciente de que tudo, por aquele andar, iria dar para o torto, escapuliu-se pé ante pé, silenciosamente, sem bater com as portas e, sem dar cavaco – por assim dizer -, pirou-se num salva vidas que estava ali à mão.

Bem lhe parecera que não conseguiriam levar o navio a bom porto, sobretudo depois de o oficial da contabilidade e logística se ter demitido na escala anterior. Mas a sua alegria durou pouco. Por todo o lado se viam tripulantes a atirar-se pela borda fora nadando, atontadamente e sem destino.

Uma sombra, então, desenhou-se no ar e um corpo caiu sobre o seu, apertando-lhe o pescoço com as mãos. Era o comandante. E assim, engalfinhados um no outro, rodeados por desatinados marinheiros, se foram afundando.

Os que estavam mais perto ainda ouviram a voz do capitão que rosnava para o imediato: – “Sacana! Se nos afundamos, afundas-te connosco!”. E lá foram desaparecendo nas profundezas do oceano. No barco, espalhava-se o cheiro a coelho queimado.

O cozinheiro Aníbal, vendo que era o último tripulante que restava, tinha largado os tachos e aprestava-se a partir no último salva-vidas. “E os passageiros?!” – gritou-lhe alguém. “Os passageiros que se lixem!”. E lá foi.