Cartoline d’Italia (15) (da Agrigento e da Palermo)

Elisabete Figueiredo

IMG_5621Il posto più brutto al mondo, i templi, mezza angùria, un’ape e, alla fine, um bello gatto giallo*

Decido ir ao Vale dos Templos, já que o tempo parecia anunciar-se mais fresco (mas, na realidade, nem por isso). Saio do hotel, Via del Celso abaixo, doppo a destra pela Via Maqueda. Passo a Piazza Quattro Canti, continuo a dritto. Vou com calma a apreciar as coisas, sou duas ou três vezes interrompida com perguntas de turistas sobre lugares que não sei explicar onde ficam e acho graça, confesso. Embora tenha pena de não saber explicar como se vai para os sítios para onde as pessoas querem ir. Continuo em frente até ao cruzamento com a Via Torino, doppo a sinistra, doppo a destra e chego à Stazione Centrale di Palermo. Vejo o que parte mais cedo, se o comboio, de o autocarro. É este e, por isso, uma vez mais com uma certa pena, apanho o autocarro. Andata e ritorno para Agrigento. Sento-me, lá fora o céu está cinzento e eu contente com o meu chapéu-de-chuva cor-de-rosa (que afinal não foi preciso) dentro do saco. No autocarro vão poucas pessoas. Só eu e duas raparigas irlandesas (ouvi-as falar e percebi) somos turistas. Também vão, seguramente, para o Vale dos Templos.
O autocarro avança. Não sei exatamente quantos quilómetros são entre Palermo e Agrigento, mas o autocarro fá-los, de qualquer modo, bastante devagar. São precisas duas horas para ir e mais duas horas para vir. Hoje viajei, portanto quatro horas de autocarro. O bilhete de ida e volta custou 13,80 €, enquanto uma ida em excursão organizada, com guia, custava 90 € (excluindo a entrada no sítio arqueológico). Perderia bastante, além do dinheiro, se tivesse sido parva o suficiente para embarcar na excursão anunciada num folheto qualquer do hotel. Como sempre, prefiro fazer as coisas assim, a meu modo. Às vezes arrependo-me. Hoje não. Na maior pate das vezes pode chegar-se aos sítios, sem ir em grupo (e o que eu detesto grupos destes!), a ouvir explicações aborrecidas que se podem obter, seja como for, se se souber ler. O autocarro avança. Cruza a Sicilia de norte a sul. De costa a costa. Pára numa estação de serviço. Que bom. Fuma-se um cigarro. E continua. A paisagem é de cortar a respiração. As montanhas, as colinas, as cores, as ovelhas, as oliveiras, a linha do caminho-de-ferro, as casas perdidas nos montes. Fico ainda com mais pena por não ter vindo de comboio. Mas aprecio tudo aquilo, maravilhada com esta Sicilia pacífica, dourada, verde e cinzenta a recortar-se no céu ora azul ora cinzento.
Aos poucos começam a aparecer armazéns para alugar. Edifícios feíssimos. Proprio brutti a manchar a paisagem e a calma. Edifícios ruidosos que se adensam e amontoam quando chegamos a Agrigento, numa desordenada confusão. Penso que Agrigento é o sítio mais feio do mundo. Sim, Agrigento é provavelmente o sítio mais feio do mundo. Percebe-se aqui aquilo que aconteceu também em Portugal durante décadas. Planeamento urbanístico zero, prédios gigantescos, de má qualidade, construídos por quaisquer empreiteiros locais que certamente pagaram ao presidente da Câmara alguma coisinha para erguerem tais atentados. Mais tarde ao telefone, dizendo a um italiano que Agrigento è proprio brutto, ele havia de dizer que sim, que é bruttissimo, parece ter sido construída por mafiosos. Pois bem. Talvez seja isso. Saio do autocarro e pergunto ao motorista como se vai para o Vale dos Templos. As irlandesas, percebendo que sei falar italiano, seguem atentamente os meus movimentos. Vou comprar o bilhete do autocarro (2 € ida e volta) a um quiosque. Per il Valle dei Templi, le linee uno, due o tre. Grazie mille e espero, com as irlandesas, sentada num banco, numa estação feíssima, porém com um certo encanto de épocas passadas.
O autocarro (linha 1) chega e lá vamos. Alguns locais, eu e as irlandesas, as três muito brancas, num contraste claro com a maior parte dos outros passageiros, todos moreníssimos. Chegamos rapidamente ao Vale dos Templos. Descemos e lá vamos à nossa vida. O lugar mais feio do mundo avista-se perfeitamente, embora ao longe, também daqui. O bilhete para visitar o vale (melhor será dizer a colina) dos templos custa 10 €. Pago e entro. O sol ora está forte ora coberto por uma nuvem. O calor não é muito. Mas não chove, afinal e o meu chapéu-de-chuva cor-de-rosa dorme dentro do saco a fazer peso. Penso que parva sempre carregada com coisas que não são precisas. E o peso aqui faz alguma diferença, pois tem de se caminhar bastante para ver os templos. Ou melhor, o que resta deles. Fico sempre surpreendida com a permanência das coisas. Há templos (como o da Concordia ou o de Juno) que estão, não direi, intactos, mas bestialmente bem conservados para edifícios construídos no século V a.C. Aposto que daqui a 400 anos nada restará dos imensamente feios prédios de Agrigento. Talvez mesmo daqui a 100 anos. Os templos, as suas ruínas, são extraordinários. A colina onde se localiza a maior parte deles está belíssima, nesta tarde ora azul ora cinzenta, cheia de oliveiras e quase sem gente.

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Através das oliveiras vou andando pela Via dei Templi e depois paralelamente à Via Sacra. Chego ao templo da Concordia, imponente e majestoso, digno de um deus ou dos deuses todos. Atrás dele uma escultura monumental de um ‘anjo’ caído, de asas partidas e sem pernas. Ao aproximar-me verifico que é Ícaro que ali aterrou ao fugir de Creta. Seja o que for e como for, a escultura é comovente ou eu acho-a comovente. As asas partidas, a expressão do rosto, tão humana, a ausência das pernas. Mais à frente uma velha oliveira. A oliveira do templo da Concordia, com 500 ou 600 anos. Também me comovem as árvores, pela sua permanência, pela vastidão da sua vida. Em qualquer parte. Especialmente os castanheiros. Mas as oliveiras são belas árvores também e familiares por isso, dedico a esta algum respeito e sigo caminho. Vejo a maior parte dos templos, de certeza que me escapou algum e às vezes páro para beber água, ou fumar um cigarro, ou tirar uma fotografia (ou muitas). Tenho os sapatos tão cheios de pó que podia ter escrito este postal neles. Vou regressando, passado umas horas, devagarinho à entrada, para voltar a Agrigento e apanhar o último autocarro para Palermo (que parte às 18h30).
Na entrada do Vale dos Templos há um café feíssimo e cheio. Tem uma esplanada e há pessoas a comerem pizza. Penso que não me apetece nada comer pizza com o calor que sinto e entro no café. Vejo a melancia e decido que é mesmo isso! Sento-me também eu na esplanada, eu e quase meia melancia. Partilho-a com uma abelha. As duas, eu e ela, felizes com a cor e a doçura do fruto. É uma coisa tão frágil, a felicidade. Penso que a abelha não dá conta disso, ou se calhar dará, já que, acabada a melancia que partilhámos, lá vai ela, cheia de risquinhas e asinhas, zumbir para outra mesa.

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Chega o autocarro para Agrigento. Apanho-o. E as irlandesas também, entre sorrisos. Na estação esperamos um grande bocado, o suficiente para acabar de ler o livro do Marsé e para falar em italinglês com alguém que me pergunta ‘come stai turista in Sicilia?’. ‘Bene! Come no?’. Finalmente chega o autocarro. Desta vez vêm mais pessoas e às 20h30 pontualmente chegamos, depois de mais montanhas, colinas, casas, ovelhas, à Stazione Centrale di Palermo. Penso que devia ir tomar um banho e depois jantar. Mas comi pouco durante o dia e tenho tanta fome que o melhor é comer e tomar banho a seguir. Faço o caminho inverso ao que fiz de manhã. A primeira metade da Via Maqueda, já o devia ter dito, é árabe. As lojas, os restaurantes, os cartazes afixados, os anúncios, as mulheres de véu (que a esta hora não se vêem, mas viam-se de manhã). A partir da Piazza Quattri Canti começa outra via Maqueda. Mais cheia de gente, muito mais ocidental, digamos assim. Da Piazza Quattri Canti subo um bocadinho da Via Vittorio Emanuele até à piazza Bologni. Tudo cheio. ‘Ha prenotato?’ Reservado, eu? Hum… não. Adiante, então, que estou esfaimada, desço outra vez o bocadinho da via Vittorio Emanuele, chego de novo à Piazza Quattri Canti e continuo a andar pela via Maqueda, passo a entrada davia del celso, avanço para o teatro Massimo e numa rua estreita dou com uma trattoria com uma bela esplanada. Sento-me. Peço. Começo a comer.

Estou entretida entre uma garfada e outra quando ele chega. Devagarinho, como se pisasse lã. Olha para mim curioso. Atiro-lhe um bocadinho de comida que rejeita. Mas avança mais um bocadinho. Estendo-lhe a mão, quase lhe digo piacere, mas haviam de considerar-me maluca, pelo que nada digo e deixo-o cheirar-me a mão, o que ele faz prontamente. No fundo, a dizer-me piacere à maneira dele. Senta-se ali à minha beira, grande, curioso e suave. Atiro-lhe mais um bocadinho de comida que não come. Fica ali apenas, às vezes olha para mim, outras fecha os olhos. E é tudo. Não sei que lhe hei-de dizer para além do ‘bch bch bch, ma che bello gatto sei’. Penso falar-lhe dos gatos que conheço, mas se calhar, outra vez, iam achar-me maluca. De modo que nada lhe digo. Às vezes olho para ele, outras vezes não.

Ficamos os dois ali a fazer-nos pachorrentamente companhia, eu e um gato amarelo, enquanto à nossa volta as pessoas estão na confusão do costume. Uma coisa tão frágil, a felicidade.
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* o sítio mais feio do mundo, os templos, meia melancia, uma abelha e, no fim, um belo gato amarelo.

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