Margem de incerta maneira

Foto: Carla Olas

Não vou dizer onde fica, não. Mas sempre posso contar que tem uma varanda para o rio, e uma esplanada que cresceu à volta da imagem de um Cristo que o povo traz apaparicado, sem que nunca lhe faltem as velas acesas e os ramos de cravinas.

É um desses sítios em que é necessário entrar sóbrio e sair um pouco ébrio. Não demasiado, que aqui não há passeio e há que caminhar sem ziguezagueios pela marginal. Ébrio o suficiente para segurar-se à mesa e ver erguer-se, como se pelas ondas, as paredes cobertas por lanternas, arpões, lemes, sextantes, bóias, sinetas, cordames, remos, reproduções de barcos, gravuras antigas, o emblema do FCP.

O peixe assa à porta, os pimentos começam a queimar-se, o sal dos robalos há-de cair aos pés do Cristo, da cozinha saem os primeiros mexilhões, vêm num embalo de salsa e cebolinha, um consolo para eles depois de uma vida de embates do mar.

Podia esperar-se um lampejo de sol nos copos de vinho branco, um riso de mulher, uma canção da moda, algum indício dessa alegria entontecida do fim de Agosto. Mas só há casais cinquentões, comendo e falando baixinho, baixinho, só os donos da casa falam alto, são mãe e filho, ele passa a noite a chamar-lhe mãe, ela não precisa de chamar-lhe nada. Chegam vizinhos, podem ser clientes ou da família, não se percebe, mas também eles são de poucas falas. Melancolia de fim de Verão, de fim de festa, de fim da linha, mas melancolia e não tragédia, que a noite, não sendo terna, é amena e sem correntes de ar.

Vem o peixe, vêm os pimentos, eu trocaria todo o marisco do mundo por uns pimentos assados, tive sempre gostos de pobre no que toca aos petiscos. Troco também a mesa de dentro por uma que avista o rio. Os que nunca partem em navio algum gostam de sentar-se nestes lugares, pousar o braço sobre a varanda como quem se debruça na amurada, e fazer de conta que hão-de aportar a sítio novo, e daí a necessidade do vinho, é verdade, venha de lá o vinho, eu avisei que isto só lá vai se estivermos um pouco ébrios.

Nesta casa não se usa ementas nem se pergunta o preço, porque se sabe que os donos são honrados e cozinham para gente humilde. Se não se sabe, tem-se o dever de intui-lo e comer fraternalmente entre desconhecidos tristonhos, que é, no fundo, a eucaristia dos descrentes, esta de sentar-se em bancos corridos, lado a lado com a discussão dos problemas que não nos pertencem, e passar a garrafinha de azeite de uma mesa para outra.

Hei-de lembrar-me de pedir o requeijão com doce de abóbora, nunca me esqueço, e o filho, razoavelmente expedito a adivinhar o que os clientes querem, mas sábio a decifrar aquilo de que precisam, há-de ler-me os pensamentos e oferecer-me vinho do Porto, e eu hei-de vê-lo, ao vinho, jorrar triunfalmente do feio barril metálico para o copo e vir parar-me às mãos sem que eu o peça.

E de tudo o resto, do que se pensa e imagina, ou do que se recorda e futuriza, enquanto o vinho faz o seu percurso, o relato seria sempre aproximativo, em fuga, assaz imperfeito. Mas foi breve esse percurso, e o mundo não girou mais que o costume, nem a parede balanceou mais que o previsto. É que o vinho, atenção, assim me foi ensinado, serve para recordar melhor, não para esquecer. E é sobretudo com isso, com a agudeza da memória, que é preciso mais cuidado.  De maneira que me levantei muito direita, sem precisar de deitar a mão à amurada e sem tropeçar nos degraus, e voltei costas à margem para vir escrever estes apontamentos sobre o que não existiu.

  

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