O Espelho

[Veronese_Venus+no+espelho-3.3.jpg]Quem vê a Selecção Nacional de Futebol Sénior, vê Portugal atravessando os séculos. Mole que hesita décadas a fio em tornar-se um País a sério, organizado, forte. Chama-lhe ditadura. Deixa-se comer por toda a horda de corruptos na política e nos negócios que lhe desbaratam recursos, orçamento após orçamento, ano após ano. Chama-lhe liberdade e democracia. Chama-lhe progresso. E um dia acorda. Nu.

Vê que perdeu anéis desconhecidos e podem ir-se-lhe também os dedos de polvo apresado. Falha apuramentos, na Hora H. Chora. Não quer pagar os juros dos anéis nem o transfundido sangue-visco-verde dos dedos decepados. Encoleriza-se. Resolve-se a tergiversar. Inova e passa a odiar o vento. Insulta a sorte. Mergulha no paroxismo da Raiva. Inventa um touro expiatório. Erige um matadouro de Primeiros-Ministros. Lamenta-se mediante manifs e marchas paliativas em desagravo de factos consumados, apadrinhados por quem manda.

O Mundo tem dificuldade em levar a sério esse País com medo de existir, de ser forte, apto, compacto, competente, duro de rins, flexível a criar, assente no trabalho, insistente em si mesmo, capaz de marcar golos, contra Oceanos, Procelas, Gigantes, Exércitos, Orientes. No fim, este Portugal estilhaçado-em-espelho na agremiação que o representa na Bola e que falha, ou quase alcança, cogita consolar-se a insultar o mensageiro, a assassinar a voz incómoda. A voz abrasiva, louca, tenaz, insólita, fora do aconchego das certezas vermelhas velhas, é sempre fascista. O Espelho reestilhaça. Enlouquece regicida. Apaixona-se pela mordaça. Amordaça. Venda-se. Incendeia. Denuncia o vizinho. Delata da amante o marido. Cega. Crava.

E acaba tudo bem. Em pardo. Não acabando. Recomeçando. Temo-lo visto muitas vezes, grisalho, manquejando. À mesma hora, afastando o cortinado da janela do 1.º Esquerdo, pode ver-se a aparição do Coiso País que falha em tudo, mas não falha nisto: «Olha, lá vai Portugal. Vai à rua. Leva o cão a cagar!» Se não fosse o cão cagante, relíquia-saramago de qualquer coisa compassiva e consoladora, seria ele mesmo por desfastio a enfeitar de lixo o Asseio Impudico Público por onde os pobres passam, de língua estendida, macilentos, séculos inteiros a deslizar uma existência amarela talvez equivocada, juntando com as mãos num pequeno monte raso as migalhas caídas da farta mesa dessa gentalha burguesa, dos salgados, dos soares, dos mexia, toda a nata ventruda imune ao nosso inferno, indiferente a ele, cúmplice nele. Vagarosamente desfralda-se a voz desdobrada em estilhaços-reflexo: «Recolheu ele a merda do cão, Maria, ao menos?» É fatal repetir-se a Pessoa ou a História. «Não, homem. O bicho cagou e o dono andou!» É Portugal.

Aqui estamos. Aqui Sou. Cumpro Camões Enjeitado em Vida, pronto para a mesmíssima Grande Pedra Sepulcral Colectiva, a Inveja.

Comments

  1. Fernanda says:

    Perdigão perdeu a pena
    Não há mal que lhe não venha.

    Perdigão que o pensamento
    Subiu a um alto lugar,
    Perde a pena do voar,
    Ganha a pena do tormento.
    Não tem no ar nem no vento
    Asas com que se sustenha:
    Não há mal que lhe não venha.

    Quis voar a u~a alta torre,
    Mas achou-se desasado;
    E, vendo-se depenado,
    De puro penado morre.
    Se a queixumes se socorre,
    Lança no fogo mais lenha:
    Não há mal que lhe não venha.

    Luís de Camões

  2. Fernanda says:

    Camões, Grande Camões, quão SemelhanteCamões, grande Camões, quão semelhante
    Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
    Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,
    Arrostar co’o sacrílego gigante;

    Como tu, junto ao Ganges sussurrante,
    Da penúria cruel no horror me vejo;
    Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
    Também carpindo estou, saudoso amante.

    Ludíbrio, como tu, da Sorte dura
    Meu fim demando ao Céu, pela certeza
    De que só terei paz na sepultura.

    Modelo meu tu és, mas… oh, tristeza!…
    Se te imito nos transes da Ventura,
    Não te imito nos dons da Natureza.

    Bocage, in ‘Rimas’

  3. Fernanda says:

    Já Bocage não sou!… À cova escura

    Já Bocage não sou!… À cova escura
    Meu estro vai parar desfeito em vento…
    Eu aos céus ultrajei! O meu tormento
    Leve me torne sempre a terra dura.

    Conheço agora já quão vã figura
    Em prosa e verso fez meu louco intento.
    Musa!… Tivera algum merecimento,
    Se um raio da razão seguisse, pura!

    Eu me arrependo; a língua quase fria
    Brade em alto pregão à mocidade,
    Que atrás do som fantástico corria:

    Outro Aretino fui… A santidade
    Manchei!… Oh! Se me creste, gente ímpia,
    Rasga meus versos, crê na eternidade!

  4. Fernanda says:

    Chaves na mão, melena desgrenhada,
    Batendo o pé na casa, a mãe ordena
    Que o furtado colchão, fofo e de pena,
    A filha o ponha ali ou a criada.

    A filha, moça esbelta e aperaltada,
    Lhe diz coa doce voz que o ar serena:
    – «Sumiu-se-lhe um colchão? É forte pena;
    Olhe não fique a casa arruinada…»

    – «Tu respondes assim? Tu zombas disto?
    Tu cuidas que, por ter pai embarcado,
    Já a mãe não tem mãos?» E, dizendo isto,

    Arremete-lhe à cara e ao penteado.
    Eis senão quando (caso nunca visto!)
    Sai-lhe o colchão de dentro do toucado!…

    NT

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