Enfim

Fala-se tanto na defesa da língua portuguesa como sendo uma das dez mais faladas em todo o mundo, na importância de valorizar a CPLP, na alma lusa, em Camões e Pessoa, usam-se cachecóis com as cores nacionais, canta-se o hino, grita-se “Portugal” e apregoa-se o fado e a saudade.

Mas, no fim de contas, lá temos o Primeiro-ministro português a falar em castelhano numa entrevista a um jornal espanhol.

Não fosse ser tão triste, seria de rir.

Momento ?????? do fim-de-semana

«Embora Camões diga ser “a última flor da Lácio“, na verdade [a língua portuguesa] era um dialeto do espanhol (…)»
José Sarney

Os Bloguesíadas

Despropósito autopropositivo: Não me falte pachorra para dar à luz uma viva, nova a merecida DesEpopeia de um desPortugal inglório, porra que afinal é, apesar do que foi ou possa ter sido. E ao mesmo tempo enaltecer grandiloquente os feitos da bloga que vai mudando a face do País político mais escrutinado, batido e sovado, fustigando a velha geração de rapaces profissionais da política sem mais vida que a política, vergônteas tortas sem profissão e sem trabalho, ancorados nos negócios de milhões só para eles de que ninguém, especialmente o País Profundo, sente o cheiro. Veremos se introduzirei na minha betesga desÉpica em dez desCantos e faço igualmente grandiloquente não só a vontade de chorar, mas também a noção de que isto, sem a palavra ferina da bloga, seria infinitamente pior. Camões, o portuense, será o meu exclusivo interlocutor, muso, santo, aparição, profeta finado, alma gigantesca a abraçar com as pernas a miséria mesma com lhe pagaram o amor pátrio, enquanto deambulava perdido, atónito, pelas vesgas vielas caolhas de Lisboa, à espera da tença e da morte. Sou outro Camões a imprecar o primeiro, íntimo dele,desterrado como ele da migalha mínima, perante o deserto da vil tristeza.

Canto I

Estância I

Inveja, meu velho Camões, fez-se afinal húmus e sementeira do Povo que cantaste, último lastro que arrasou as tuas armas e os teus barões assinalados, inveja irmã da sanha ávida do ganho que um punhado de cabrões atoleimados, contra o Povo e contra o Povo, perpetrou à pala da democracia. Uns pelo saque Chupcialista. Outros pela cobrança confiscatória liberal e literal sobre quem não saqueou, Povo corneado duas vezes. O que partiu da tua ocidental praia Lusitana, por mares nunca de antes navegados desnavegou. E o que passou ainda além da Taprobana, em perigos e guerras esforçados, mais, muito mais do que prometia a força humana, e entre gente remota edificou Novo Reino, que tanto sublimou, ficou aquém, muito aquém do cantável, entre a penumbrosa névoa da Hora e o esvaimento das gentes que daqui se vão para mais longe, morrer longe.

O Espelho

[Veronese_Venus+no+espelho-3.3.jpg]Quem vê a Selecção Nacional de Futebol Sénior, vê Portugal atravessando os séculos. Mole que hesita décadas a fio em tornar-se um País a sério, organizado, forte. Chama-lhe ditadura. Deixa-se comer por toda a horda de corruptos na política e nos negócios que lhe desbaratam recursos, orçamento após orçamento, ano após ano. Chama-lhe liberdade e democracia. Chama-lhe progresso. E um dia acorda. Nu.

Vê que perdeu anéis desconhecidos e podem ir-se-lhe também os dedos de polvo apresado. Falha apuramentos, na Hora H. Chora. Não quer pagar os juros dos anéis nem o transfundido sangue-visco-verde dos dedos decepados. Encoleriza-se. Resolve-se a tergiversar. Inova e passa a odiar o vento. Insulta a sorte. Mergulha no paroxismo da Raiva. Inventa um touro expiatório. Erige um matadouro de Primeiros-Ministros. Lamenta-se mediante manifs e marchas paliativas em desagravo de factos consumados, apadrinhados por quem manda.

O Mundo tem dificuldade em levar a sério esse País com medo de existir, de ser forte, apto, compacto, competente, duro de rins, flexível a criar, assente no trabalho, insistente em si mesmo, capaz de marcar golos, contra Oceanos, Procelas, Gigantes, Exércitos, Orientes. No fim, este Portugal estilhaçado-em-espelho na agremiação que o representa na Bola e que falha, ou quase alcança, cogita consolar-se a insultar o mensageiro, a assassinar a voz incómoda. A voz abrasiva, louca, tenaz, insólita, fora do aconchego das certezas vermelhas velhas, é sempre fascista. O Espelho reestilhaça. Enlouquece regicida. Apaixona-se pela mordaça. Amordaça. Venda-se. Incendeia. Denuncia o vizinho. Delata da amante o marido. Cega. Crava.

E acaba tudo bem. Em pardo. Não acabando. Recomeçando. Temo-lo visto muitas vezes, grisalho, manquejando. À mesma hora, afastando o cortinado da janela do 1.º Esquerdo, pode ver-se a aparição do Coiso País que falha em tudo, mas não falha nisto: «Olha, lá vai Portugal. Vai à rua. Leva o cão a cagar!» Se não fosse o cão cagante, relíquia-saramago de qualquer coisa compassiva e consoladora, seria ele mesmo por desfastio a enfeitar de lixo o Asseio Impudico Público por onde os pobres passam, de língua estendida, macilentos, séculos inteiros a deslizar uma existência amarela talvez equivocada, juntando com as mãos num pequeno monte raso as migalhas caídas da farta mesa dessa gentalha burguesa, dos salgados, dos soares, dos mexia, toda a nata ventruda imune ao nosso inferno, indiferente a ele, cúmplice nele. Vagarosamente desfralda-se a voz desdobrada em estilhaços-reflexo: «Recolheu ele a merda do cão, Maria, ao menos?» É fatal repetir-se a Pessoa ou a História. «Não, homem. O bicho cagou e o dono andou!» É Portugal.

Aqui estamos. Aqui Sou. Cumpro Camões Enjeitado em Vida, pronto para a mesmíssima Grande Pedra Sepulcral Colectiva, a Inveja.

Camões e a tença

Sophia de Mello Breyner Andresen

http://bit.ly/11QOJzg

Irás ao Paço. Irás pedir que a tença
Seja paga na data combinada
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce

Em tua perdição se conjuraram
Calúnias desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou seu ser inteiramente

E aqueles que invocaste não te viram
Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto

Irás ao Paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência

Este país te mata lentamente
—Sophia, “Camões e a tença”, Dual (1972), p. 73.

Camões

Dama d’estranho primor,

Se vos for
Pezada minha firmeza.
Olhai não me deis tristeza,
Porque a converto em amor.

E se cuidais
De me matar, quando usais

D’esquivança,
Irei tomar por vingança
Amar-vos cada vez mais.

LVC (BND)

lvcc

http://purl.pt/13395/1/

Cantando espalharei por toda parte/partilhai e espalhai a mensagem

Ricardo Costa 1142013
Ricardo Costa, director de um jornal que, há cerca de três anos, decidiu “poupar letras” e *adotar o acordo ortográfico, diz que este texto “não corre o risco de ser muito partilhado no Facebook e de circular na net por um ou dois anos”. Antes pelo contrário, Ricardo Costa. No que me diz respeito, considerando a incontestável qualidade da grafia empregada (sim, no segundo parágrafo, aparece uma *fatura, mas gralhas, como falhas, todos as temos) e respondendo ao apelo com que remata o texto (“partilhai e espalhai a mensagem”), como diria o Poeta, “cantando espalharei por toda parte, se a tanto me ajudar o engenho e arte”, por um, dois, quatro, seis ou mais anos se for preciso: no Facebook, sim, claro, mas também no Twitter, pois então.
Gostei muito deste texto, Ricardo Costa. Muito obrigado. Melhor prenda no meu primeiro aniversário no Aventar não era impossível, é verdade, mas admito que era difícil.
Agora, só falta fazer-se justiça. Sim, justiça. Falta o Expresso deixar de utilizar várias grafias e permitir que os seus jornalistas possam adoptar a grafia do director, uma grafia que, afinal, também é deles. Exactamente.

Luís, o poeta, decassílaba-se sobre a Greve Geral

Logo de Macedónia estão as gentes,
A quem lava do Axio a água fria;
E vós também, ó terras excelentes
Nos costumes, engenhos e ousadia,
Que criastes os peitos eloquentes
E os juízos de alta fantasia,
Com quem tu, clara Grécia, o Céu penetras,
E não menos por armas, que por letras.

Logo os Dálmatas vivem; e no seio,
Onde Antenor já muros levantou,
A soberba Veneza está no meio
Das águas, que tão baixa começou.
Da terra um braço vem ao mar, que cheio
De esforço, nações várias sujeitou,
Braço forte, de gente sublimada,
Não menos nos engenhos, que na espada. [Read more…]

%d bloggers like this: