A Sedição Nunca Tem Razão

Meu caro João, lamento, mas Soares nunca tem razão, uma razão pura, inocente, solidária. E os erros que comete não são só os de comentador sofista chanfrado, mas os de velho e inveterado acumulador de benesses e privilégios a fim de mover influências, colonizar de afilhados o Aparelho de Estado, tudo em nome da grande eminência parda maçónica que tutela na sombra o Regime e está na base da cleptocracia bancarrotista que escreveu a História Gloriosa dos últimos quarenta anos com as suas três falências.

Baptista-Bastos, de quem gosto e com quem há algum tempo troquei uns simpáticos e-mails, é ainda, pelo contrário, um bom velho Quixote, talvez o último, por uma justiça social, uma moralidade essencial, que não vemos concretizada nem na sociedade, nem no trabalho, nem na política, nem em quase nada português, mas não pode dar razão a quem, como Soares, tem passado uma mensagem abrasiva, impaciente, sediciosíssima, de profundo contempto pelos factos puros e duros da manutenção do Estado Português no Euro e de cumprimento das metas estabelecidas pelos Credores ao Estado Português, metas inescapáveis.

O que move Sua Jactância Soares são outras queixas e o que dói a Sua Papância Soares são outras dores. Deves perguntar-te por que é que o mundo inteiro, a Europa, o FMI, Bruxelas, Berlim, Estrasburgo, o Governo Passos, com todos os seus erros e opções altamente penalizadoras de ti, que perdes poder de compra, e de mim, que perco poder de sobrevivência, não te dão ouvidos.

Pergunta-te por que motivo esses teus argumentos de solução tão translúcida e tão óbvia, compendiadas basicamente no redutor «não pagar», afinal não colhem na hora H. É o Euro, pá. Isto já não é só à nossa maneira. E tens razão: é terrível a falta de coragem dos que, como eu, procuram compreender e enquadrar este horror perpetrado pelo Governo Passos Coelho II. É terrível estar só. Mas também me parece abominável a linha de raciocínio simplista que tens percorrido e que passa pelo HairCut sobre a dívida portuguesa, capitulando em toda a linha, terra queimada para o regresso dos galambas, dos pedro-silva-pereiras a prometer facilidades e o fim falacioso das nossas dores. Achas que podemos correr o risco de ver ainda mais degradadas a nossas condições de financiamento externo e fazer perigar ainda mais a nossa pertença ao Euro? É isso que preferes? Achas bonito que salários e pensões possam ser postos ainda mais em causa num cenário de rasura dos nossos pagamentos?! Estou convicto de que advogar tal coisa é uma loucura maior que todas as manobras desesperadas por cumprir os défices acordados com a Troyka.

E outra coisa: não há argumentários menos argumentáveis nem menos recomendáveis. Não sou político nem comentador político segundo uma óptica queriducha e convencional. Sou, no mínimo e no máximo um poeta a versar esse domínio. Crítico à Esquerda e crítico à Direita. No grande comentês político desses tubarões de interesses como o Inefável Soares ou o Cavo Vaporoso Alegre, o que há é um ou dois caracteres symbólicos e o seu efeito nocivo e erróneo no País. De Parasitários, movidos numa lógica majestática traficadora de influências políticas muito pouco recomendável e que, no cômputo dos anos, se mostrou absolutamente desastrosa para Portugal, não podemos esperar boa coisa. E por isso nutro um acerbo princípio de desconfiança básica para com ambos. Uma geração que não fez senão política deveria ser humilde e afastar-se a fim de não poluir de raiva, motim e inconsequência o que já muito nos custa.

Pensar em não pagar é uma loucura, João Paulo. Dizer aos quatro ventos «não pagamos» do mais irresponsável que há, parta de partidos do contra, sem projecto, sem suporte na Opinião Pública, como o BE, ou assente em retórica de encher e altamente impostora do Partido Chupcialista. Executar o «não pagamos» seria um crime capital. O Orçamento de 2014 nada mais é que uma loucura gizada para evitar outra loucura ainda maior. Essa é a que não quero. Recuso-me a morrer na praia do Euro e do Êxodo da Troyka, no próximo ano.

Comments


  1. Lá vem o conteúdo Liliane Marise, versão extrema direita envergonhada, nacionalista salazarista monárquica. Uma tristeza.

  2. nightwishpt says:

    Fizeste contas? Não, claro que não. O que importa é manter a ilusão de que o sistema financeiro funciona.

    • nightwishpt says:

      Ou seja, que a teoria económica por trás da austeridade tem algum tipo de lógica e que tudo vai voltar ao pré-2008 (a nível global) como se nada se tivesse passado e as economias ficassem normais.

      • nightwishpt says:

        Aliás, por muito que assustem os 30 ou 40% de corte imediato nos salários + inflação, ao menos com a saída do euro podemos começar a ter um plano para o futuro. Com a austeridade, só há abismo porque há cada vez menos para pagar impostos e consumir.


        • Sair do Euro? Provavelmente o ideal será as pessoas que não se endividaram, cambiarem as escassas poupanças para $USD. Claro que os titulares de capitais, só se forem parvos é que se deixam apanhar…
          Quem é que pretende empobrecer 30% a 40% num dia, ou talvez numa semana? Que direito têm em mexer no dinheiro ganho e poupado com sacrifício? Talvez tivesso sido preferível gastar à tripa forra, mesmo que em inutilidades, a ver desaparecer boa parte de um dia para outro.
          Em nome de quê? Mais Estado? E quem não quiser pagar mais Estado?

  3. joshua says:

    A Europa pode jogar uma palavra derradeira nesta questão com aparência de insolúvel, mas não sem os sinais certos de boa fé. Por muito que nos doa…

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