1993: Odisseia na RTP Memória

Corria o ano da graça de 1993. Eu tinha 9 anos, o saudoso Mandela recebia o Nobel da Paz, os “amaricanos” (ainda) lançavam mísseis sobre Bagdad, Rabin e Arafat (que esteve em Portugal nesse ano) apertavam a mão, Mário Soares era insultado pelo Jornal de Angola (burro), Fidel anunciava a despenalização da posse de moeda estrangeira em Cuba, a Checoslováquia dividia-se em dois países e o primeiro e falhado ataque ao World Trade Center era orquestrado quando algo de verdadeiramente extraordinário aconteceu.

Parece que o programa se chamava “Olha que dois” – o que não é caso para menos visto que as personagens eram nada mais nada menos que Teresa Guilherme e Manuel Luis Goucha – e, pelo que podemos ver neste curto mas esclarecedor vídeo, estava em estúdio um senhor com um ar muito académico (a cara não me é estranha mas não chego lá. alguém ajuda?) que dizia coisas muito simpáticas sobre o jovem Pedro Passos Coelho, que era já um líder jota deputado de 29 anos, como tantos e tão úteis que temos hoje em dia. Dizia então o senhor académico sobre “gente” como o Passitos:

[…] e penso que está nas mãos de gente como ele, e pela seriedade que eu acho, que eu acho que ele tem, eh… está nas mãos de gente como ele o futuro deste país. Sejam eles de que partido forem. Mas de gente que pensa e que sobretudo faz coisas como eles.

Vale a pena parar um momento e olhar para esta declaração do senhor académico. Em primeiro lugar a utilização do termo “gente“. Quer-me parecer que a tripla utilização da palavra num universo de 52 poderá ser algum tipo de mensagem subliminar para convencer o subconsciente dos telespectadores de que Passos Coelho é gente. Algo que, como sabemos, não corresponde à verdade. Em segundo lugar, a questão da “seriedade“. Reparem que o senhor académico não refere a seriedade que Passos Coelho tem mas antes a que ele “acha”  – por duas vezes – que tem. Aquele breve gaguejar foi um sinal claro daquilo que vinha por ai. Um académico e um homem de premonição. Em terceiro lugar, o facto de estar “nas mãos de gente como ele o futuro do país. Sejam eles de que partido forem“. E, uma vez mais, o visionário académico estava correcto. O futuro está precisamente nas mãos de jotas, sejam eles de que partido forem desde que sejam do PSD, PS ou, quando o PSD precisa da muleta, do CDS. Destes 3 dá para escolher qualquer um! Infelizmente, as expectativas não são animadoras. Se o futuro continuar nas mãos desta gente, o mais certo é continuar a dar merda.

Existem ainda dois aspectos que me causaram alguma confusão. O primeiro tem a ver com a parte em que o senhor académico refere “gente que pensa“. Gente que pensa? Qual gente que pensa? O segundo diz respeito a acto de fazer “coisas como eles“. Que tipo de coisas? Controlar a concelhia para dar muitos votos ao líder e chegar a deputado? Abanar a bandeira e ser recrutado para técnico especialista da equipa de acompanhamento do memorando da troika? Todos nós, jovens, gostávamos de ser técnicos especializados do governo, ganhar salários gordos e meter montes de despesas na conta do Estado. Todos nós queremos “fazer coisas”. Mas isso não é bem assim senhor académico. De qualquer forma, acho que 20 anos depois já deve ter chegado lá. Mais vale tarde do que nunca!

Mas faltava a cereja no topo do bolinho do jotinha. Quando o obstinado defensor académico de Passos Coelho termina o seu eloquente discurso, Manuel Luis Goucha – also known as Rei das Manhãs da TVI – profere palavras que ficarão registradas nos livros para a posteridade:

“Daqui a dez anos tê-lo-emos aqui como primeiro-ministro quem sabe!”

Não foram 10 mas foram 18 Goucha, não estiveste muito longe. E não o tiveste ai porque, em primeiro lugar, o programa já não existe e, em segundo, porque os vossos encontros agora acontecem mais naquelas apresentações de livros da Luisa Castel-Branco, onde o Passos diz aos jornalistas que só dá prenda de Natal à mais nova porque, coitado, a vida está difícil. Pelo menos é um homem que “gosta de um bom abraço e muito calor“. Uma ternura do moço.

Obrigado à RTP Memória, à Caras e ao CM por este regresso ao passado. O mundo não voltará a ser o mesmo depois deste vídeo. A Maya que se cuide, o Rei das Manhãs da TVI vem ai para lhe roubar o mercado da tarologia.

Comments


  1. O Paulo de Carvalho “académico”? ó João, por amor da santa. Quando não conheces o contexto histórico (Passos Coelho andava a atacar Cavaco Silva), pergunta.


    • Não João: Paulo de Carvalho o “senhor com um ar muito académico”. Eu disse que a cara não me era estranha, até pedi ajuda para a identificar mas, como ser humano standard que sou, a minha cabeça não possui uma base de dados interminável e o Paulo de Carvalho não é propriamente uma referência que eu sinta necessidade de armazenar.

      Quanto ao contexto histórico, e sem querer colocar em causa a devida importância que tem, limitei-me a explorar este fragmento de vídeo que encontrei, do ponto de vista que poderás ver em cima, nada mais.

      • José Peralta says:

        João Mendes

        Paulo de Carvalho, inquirido há tempos sobre estas declarações elogiosas a passos coelho, disse qualquer coisa como : ” Eu em nenhuma circunstância abandono os amigos” !

        O problema do Paulo, parece-me, é que tem que escolher melhor os amigos…

        E, já agora, recordemos o que parece nada ter a ver com o assunto :

        A redução da TSU – a contribuição das empresas para a Segurança Social – em 5,75 por cento, passando para 18 por cento, foi anunciada pelo coelho a 7 de setembro de 2012, numa comunicação ao país a partir da residência oficial de São Bento.
        Em contrapartida, o Governo pretendia aumentar a contribuição dos trabalhadores para a Segurança Social para 18 por cento, ou seja, uma subida de sete pontos percentuais. A medida deveria ser aplicada quer aos trabalhadores do setor privado, quer aos funcionários públicos.

        Era o brutal aumento de impostos de um tal vítor gaspar, que logo abandonaria cobardemente o “barco” deixando uma carta a confessar o fracasso da sua “pulhítica”, e sendo substituído pela sua “gémea” albuquerque, o que provocou a “demissão” do inenarrável e IRRAvogável portas…

        E aqui, é que está “o ter a ver” com o assunto :

        Após ter feito este anúncio (que a 15 de Setembro de 2012 provocou a maior revolta e a maior manifestação popular desde o 1.º de Maio de 1974, originando a primeira crise entre o CDS e o PSD no governo ) o coelho, esse biltre, hoje, felizmente, um morto-vivo da “pulhítica”, não se dispensou de ir, alegremente e com inaudito descaramento ao Tivoli, assistir a um espectáculo do Paulo de Carvalho…

    • lidia sousa says:

      Paulo Carvalho mais um ex comuna convertido ao capitalismo selvagem. Mas cabta muito be, e tem canções lindas não o hino do PSD que é uma pessegada.

  2. Fernando says:

    “o futuro está na gente como ele”

    Uma palavra apenas…

    Pelo amor de Deus!

    pronto, foi mais de que uma palavra, mas o que conta é a intenção…


    • e o homem tinha razão Fernando! até porque ele não explicou que tipo de futuro seria esse…agora sabemos que Passos e sus Relvas tinham efectivamente o futuro nas mãos. Um futuro de merda…


  3. E antes do controle das concelhias, de facto uma boa dúzia de anos antes, parece lembrar-me passarem-se assim umas coisas pelas eleições das faculdades e das associações académicas de várias universidades… Mas falha-me convenientemente a memória. Roda um ano ou dois ou coisa que o valha, e só m’alembra assim da Doce dependurada do braço e não só e de um número invulgarmente inchado de pacóvios c’os olhos do tamanho de rodas de carroça e as bocas a salivarem, e o jotinha promissor a julgar qu’era adulação toda só pr’a ele… Mas enfim, suspiro, que não foi nada que quem por lá andava no princípio de 80 não tivesse visto soletrado na pedra.

  4. lidia sousa says:

    Podem procurar um youtube de Paulo Portas, com zita Seabra a “adivinhar” que ele seria Ministro do MAE o que nem sequer existia. Ponham aqui poeque é muito giro

  5. lidia sousa says:

    Obrigada, está incompleto mas é melhor que nada. Se por acaso encontrar o completo para vermos a zita seabra ex comuna

Trackbacks


  1. […] que Passos nasceu para isto, o Lá Feria é que não teve a visão. Tivesse ele dado ouvidos ao Paulo de Carvalho e talvez hoje o tivesse a contracenar com a Marina Mota no Politeama ao Sábado à noite. Ou quem […]

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