A um cardiologista

cardiologista
No decorrer da minha segunda gravidez foram-me detectadas arritmias cardíacas, algo que eu suspeitava ter, já que sempre senti que o meu coração batia de forma descompassada, ora mais rapidamente, ora mais lentamente, mas nunca ao mesmo ritmo.
Tenho um ritmo cardíaco só meu, único e especial.

Encaminhada para o Serviço de Cardiologia do meu hospital de referência, o Santo António – Centro Hospitalar do Porto, fui atendida pelo Dr. Pinheiro Vieira, que passou a ser o meu cardiologista.
Médico simpático, afável, conversador, usa os seus encantos e um discurso calmo e apaziguador para fazer uma paciente sentir-se menos apreensiva.
Não conheço o Dr. Pinheiro Vieira fora daquele consultório de hospital, mas creio que será daquelas pessoas que é bom conhecermos pessoalmente. Não pela profissão que exerce, nunca escolhi os amigos pela profissão, mas pela calma que dele emana. Não o conhecendo, tenho a sensação de que deve ser uma excelente pessoa, alguém que tenta que o mundo seja efectivamente um lugar melhor.
Claro que posso estar redondamente enganada e isso faz com que até possa ser bom que eu não conviva com ele.
Bom, voltando ao motivo que me levou a escrever este post, ao fim de mais de três anos de consultas e exames regulares, visto que as minhas extrassístoles não terão cura e eu continuarei a viver com um coração que, em vez de bater «tum-tum, tum-tum», bate «tum-tum-tum-tum, tum-tum, tum-tum-tum-tum-tum», mas sem quaisquer riscos para a minha saúde, chegou a hora da despedida.
O médico explicou-me e mostrou-me os resultados e deu-me alta. Já não preciso de fazer mais exames (xau, Holter, com quem passei dias e noites maravilhosos, que uma vez por ano passava um dia e uma noite inteirinhos comigo, e que, ao ir embora, deixava marcas bem visíveis em todo o meu corpo), já não preciso de voltar às consultas, de me sentar naquela sala de espera, já não preciso de fazer o electrocardiograma usual antes de cada consulta.
No entanto, fica-me uma certa nostalgia. Gosto daquele médico e, embora seja apenas um médico que eu via uma ou duas vezes por ano, a sua postura, a sua atitude de quem parece realmente preocupar-se com os pacientes, faz toda a diferença.
Ao despedir-me, armei em durona e disse: «Até à próxima não, Sr. Doutor! Espero nunca mais o ver.» E acrescentei: «A menos que seja socialmente».
Nem de propósito, pouco depois, quando almoçava num dos centros comerciais da cidade, lá vi o Dr. Pinheiro Vieira na praça da alimentação. Não tive coragem de lhe falar.
Não tive nunca coragem de lhe agradecer a simpatia com que sempre me tratou e com que certamente brinda os seus pacientes. Não tive coragem de lhe agradecer o profissional que é. Não tive coragem de lhe dizer que ele me fará falta, apesar de nem sequer ser uma pessoa presente na minha vida. Não tive coragem de lhe agradecer os cuidados que teve comigo, a preocupação de ter sugerido no seu relatório que eu tivesse um parto de cesariana porque, apesar de o parto normal não acarretar riscos, sempre seria melhor para mim que o bebé nascesse de cesariana. Não tive coragem de lhe agradecer o cuidado com que me perguntava em todas as consultas como estava a minha vida pessoal e profissional, se tudo corria bem e como estava a criança.
Isto que este senhor, creio que mais novo do que eu, faz nas suas consultas é verdadeiro serviço de saúde público. Aquele que querem acabar de uma vez por todas.

Seria muita coincidência que ele lesse estas minhas palavras, portanto digo aqui, alto e em letras garrafais:

OBRIGADA, DR. PINHEIRO VIEIRA!

Obrigada por tudo. Espero um dia poder cruzar-me consigo em momentos mais mundanos.

Comments

  1. Mário Machado Cruz says:

    É bom ler palavras amigáveis a médicos do SNS, para variar. Não sou o visado, nem nada que se pareça, mas como médico do SNS agradeço que tais palavras possam vir a público… Fazem falta palavras que não sejam para magoar ainda mais aqueles que trabalham para servir os outros… Ouso agradecer as palavras a um colega, apesar de não ser por elas que trabalhamos.


  2. E que nesse encontro arranje coragem para lhe agradecer, vai ser muito bom para si e para o médico. Lindas palavras.

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