Dura Praxis, Sed Estupidus

praxe

Em 1974 o  fim da censura fez de Escuta Zé Ninguém de Wilhelm Reich um sucesso de vendas, que arrastou a publicação de mais obras do autor, um discípulo chanfrado de Freud com um bocadinho de Marx mal lido à mistura.

Numa delas, O Combate Sexual da Juventude se bem me recordo, explicava o sucesso da Juventude Hitleriana junto dos adolescentes arianos por uma razoável liberdade sexual que reinaria nos acampamentos mistos, tipo campismo com quecas. Desconheço a veracidade de tal, mas recordo-me de na altura ter meditado no ascetismo que vigorava em grande parte da esquerda não sendo bem assim na direita, e cheirou-me a esturro. Assim foi, o assunto queimou-se.

A “restauração da praxe” nessa mesma década em Coimbra não foi fruto dessa leitura, mas vista hoje à distância até parece.

O objectivo era outro: afrontar a esquerda nos seus valores e património, a crise de 1969, na sua incapacidade em criar uma alternativa civilizada à vetusta Queima das Fitas, que a bem dizer já ninguém 10 anos depois sabia bem o que era. O que implanta (em completa ilegalidade dentro do direito praxistíco, já que nunca teve o aval do Conselho das Repúblicas que abolira a praxe em 1969) virá com tanto de anacronismo como de caricato.

A capa e batina, que permitira durante décadas a um estudante pobre andar andrajoso com a única roupa que possuía, passou a traje caríssimo, na maior parte dos casos usado uma semana por ano. As duas únicas ocasiões, o Baile de Gala e o Chá Dançante,  em que as meninas enclausuradas nos lares de freiras auferiam de alguma liberdade, sendo-lhes permitido ao corpo o roçar que qualquer sopeira auferia nos bailes domingueiros, viraram uma espécie de baile de debutantes. E a semana da Queima, rapidamente acompanhada pela latrinada, descambou no maior festival de álcool, sexo e Quim Barreiros, agora que as moçoilas estavam devidamente autorizadas a essa fuga escapatória, que para os paizinhos distantes eram uma luta conservadora.

Foi assim que tudo começou, e vistas as coisas à distância essa estrondosa vitória da direita (que bem a pode agradecer à cobardia da esquerda JS/UEC e cegueira do que sobrava da extrema-esquerda) nem trazia mal maior ao mundo, falo com o à vontade de quem na altura militou contra o restauracionismo.

Numa cidade onde quase tudo fechava à meia-noite e estudante pouco entrava em tascas, já para não falar na polícia de costumes familiar que substituíra a fardada, até foi uma lufada de desempoeiramento nos costumes. Foi assim com naturalidade que numa emergência aceitei participar num Conselho de Veteranos e assinar um decreto de luto académico pelos acontecimentos de Tianamen, o que pese a justeza da causa era uma fronteira impensável de atravessar uns anos antes.

O problema veio depois, chegando devagarinho, e já com outras gerações. O que a praxe tem de político, e muito, a humilhação pública do recém-chegado que a ela se sujeita porque depois se irá vingar, a imposição que começa logo nos actos de matrícula, e o controle de tudo isto pela fina flor dos idiotas incultos que ironicamente substituíram os restauradores, de um modo geral gente que sabia ler, escrever e até era politizada, instalou-se. Pior do que isso, exportou-se tudo na pior forma para um país onde pela primeira vez uma geração, mais a de 90 que a de 80, se libertava dos atavismos morais do salazarismo ultra-católico, sem que os seus pais tivessem passado pelas libertações de 60, como é óbvio, um salto muito maior do que a perna.

Chamar-lhe boémia é no mínimo convidar Alberto Costa (e todos os Padzés que se lhe seguiram) a um novo suicídio.

Aquilo que vigora presentemente em Coimbra consiste numa quinzena anual de glorificação da bezana entre o caixão e a cova, desfilando-se pela cidade em devastadoras procissões ao som de cânticos onde elas pedem caralho e eles solicitam cona, tudo religiosamente treinado nas noites de terça e quinta. Falamos de hordas, violentas, e sim, invoco novamente Reich enquanto eles chamam a Juventude Hitleriana. Castigo divino, as moçoilas são filhas da geração que abriu a caixa de Pandora.

Escrevo isto por memória e porque há duas diferenças entre a praxe de Coimbra e a restante: temos efectivamente uma tradição, de praxe e de luta contra ela, sempre dividiu a academia, e embora também com falhas aqui ainda sobram resquícios de civilização e auto-controle: de tal me convenci definitivamente quando após a última latrinada a AAC alugou o recinto das festas a uma coisa chamada “Comboio do Caloiro”, proveniente do Porto, e tive oportunidade de assistir a uma república de Saló nas minhas ruas, basta dizer que em Coimbra é obviamente proibido rapaz praxar rapariga, pelos vistos qualquer frustrado sexual o pode fazer noutras paragens.

Posto isto, e no que toca aos costumes como agora andam, foi preciso morrerem cinco de uma vez para o país reparar que outros já haviam falecido, fora os acidentes que a muitas marcaram para a vida, sim as violações existem; o problema da praxe não existe nem é da competência do ministro da educação (que chamou as associações de estudantes, demonstrando uma completa ignorância). Há sim em Portugal um problema de polícia que não actua “porque isso é dos estudantes”, resguardada num pseudo-voluntariado que ainda ontem Marcelo Rebelo de Sousa arrasou juridicamente. Quem tem de actuar, exemplarmente, é o Ministro da Administração Interna, ordenando às polícias que actuem, e quanto muito a ministra da Justiça, a humilhação pública de um humano se necessário que seja crime público.

Ora o ministro da Justiça Administração Interna, Miguel Macedo de seu nome, estudou em Coimbra e foi parte militante da geração que criou o problema. Tem uma oportunidade de ouro para a redimir: basta acabar com o autêntico foro privado que é a praxe, do Minho ao Algarve, restaurando o estado de direito em todo o território. Coisa pouca, para um ministro que tutela as polícias.

O cumprimento da lei do ruído, o policiamento das ruas em defesa do transeunte, e a intervenção pronta perante manifestações não autorizadas, chegam perfeitamente. Nem é preciso tanta preocupação como a que existe com as claques futeboleiras, um parente próximo da mesma selvajaria, mas os mesmos polícias chegam perfeitamente.

Imagem preguiçosamente roubada ao Paulo Abrantes, que também denuncia o óbvio.

Comments

  1. ” … na altura … (1974) … ter meditado no ascetismo que vigorava em grande parte da esquerda “.
    Hehehe, pelos vistos não andámos na mesma esquerda.

    No restante, concordo a 100% contigo. O que me deixa perplexo é o que levará grande número de jovens estudantes a submeterem-se voluntariamente às humilhações da praxe.

  2. Reblogueó esto en fermin mittilo.

  3. Passe à frente... :) says:

    Não esquecer o “TOQUE DA CABRA” no alto da torre de 33.5m… 🙂
    ” Não foram 5, foram “6” … ”
    Ora então “COIMBRA É UMA LIÇÃO”… 🙂
    Deixem as OVELHAS fazer o que melhor sabem, seguir… 🙂
    ” O Hábito faz o monge”… Não passa da representação de quem são, por muito que vos custe ouvir… 🙂

  4. Obrigar os outros aos bons costumes(aqueles que nós gostamos) é a filosofia do estado corporativo.Responsabilizar cada um pelos seus actos é o que defendo.

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.