Dia das Vítimas de Discriminação Religiosa

mulherDesde ontem que, cada vez que abro o Facebook, essa rede social que há quem «odeie» e veja como «agência de namoros», sou inundada com publicações a elogiar as mulheres, dizendo o quanto somos fantásticas, especiais, únicas e mais uma série de lugares-comum, elogios quase sempre partilhados ou redigidos por mulheres.
Hoje, como sempre, não vou escrever coisas bonitas sobre as mulheres. Não me vou, directa ou indirectamente, elogiar. Sou mulher, como milhões de outras, da mesma forma que milhões de homens são homens. Não especialmente meiga, carinhosa, delicada, companheira, amiga, etc.
Sou simplesmente um ser humano, com as forças, fraquezas, qualidades e defeitos de todos os seres humanos. Sou eu e ponto final. Mereço, como todas as mulheres e todos os seres humanos, respeito e viver com dignidade. Não mereço hoje, por ser hoje, rosas ou quaisquer outros símbolos de apreço por ter nascido com vagina em vez de pénis.
As mulheres continuam, infelizmente, a ser das maiores vítimas da estupidez e intolerância. E, se numa sociedade como a nossa, mais ou menos moderna e de mente moderadamente aberta, podemos ser vítimas de discriminação, que dizer dos países onde ainda hoje se pratica massivamente a excisão genital feminina, a lapidação, o casamento forçado, a violação para cura de doenças e tantas outras atrocidades?
Verdade que é «em casa» que devemos começar por praticar aquilo que defendemos, portanto, o trabalho de sensibilização e de luta deve começar cá, por nós próprios, pelos nossos filhos e por todos os que nos rodeiam e alargar-se, de forma viral (como agora soe dizer-se com tanta frequência) a toda a humanidade.
Vejo, ainda, muitas mulheres a perpetuar nos filhos varões e nas filhas donzelas a imagem da mulher que tem que ser forte mas sofredora silenciosa, mártir, vítima de todos os sacrifícios. Sendo que crescemos e nos desenvolvemos com os modelos com que convivemos diariamente e a esses modelos voltaremos vezes sem conta na vida adulta, perpetua-se nos rapazes, futuros homens, a ideia de que podem fazer o que bem lhes apetece porque são superiores às raparigas e elas até estão habituadas a sofrer em silêncio. Já nas raparigas, futuras mulheres, perpetuar-se-à o sentido do sacrifício, tirando-lhes toda e qualquer iniciativa e fazendo delas carneiros sem capacidade de livre-arbítrio.
Conheço algumas mulheres que, em vez de exigir a óbvia partilha de tarefas domésticas e parentais, simplesmente se conformam e desistem de exigir aquilo que é um seu direito fundamental.
Ressentem-se contra o companheiro que não faz praticamente nada em casa, mais tarde ressentir-se-ão contra os filhos que também nada farão em casa, ressentem-se contra o mundo porque nasceram mulheres e não homens, ressentem-se contra tudo e contra todos, quando, na realidade, parte da culpa é exclusivamente sua.
É aqui, nestas mulheres, que o trabalho deve começar. Nós temos tanta obrigação de ter a casa limpa como os homens, temos tanto dever de vestir e alimentar os filhos como os homens, temos tanto dever de andar bonitas e sedutoras como os homens, podemos tanto escolher com quem queremos viver, se queremos viver com alguém, ou ter relações sexuais como os homens.
Deixemo-nos de armar em mártires e comecemos a lutar pelo que é nosso por direito.
Sabe-se que na Idade Média, época tão comummente denominada d’«As Trevas», as mulheres eram respeitadas e tinham total liberdade. Eram tratadas como seres humanos iguais aos outros seres humanos. Geriam a casa e negócios, os homens ali não metiam o nariz, votavam e algumas eram pessoas influentes nas comunidades em que viviam. Eram pessoas de pleno direito, nem melhores, nem piores do que os homens. Apenas iguais. Até que chegou a Idade de Luzes e tudo apagou…

Foi aqui que esta herança maldita começou. Por mão religiosa…

Portanto, façamos do dia de hoje dia de luta pelas mulheres cujos direitos são diariamente alienados, começando por nós próprias.
Recusemos os símbolos que nos querem dar no dia de hoje e que não passam de símbolo das grilhetas que ainda hoje tolhem as liberdades de muitas de nós e exijamos o que nos pertence por direito. Não interessa que hoje o homem nos dê uma prenda só porque nascemos assim e amanhã e todos os restantes dias do ano nos trate como seres subalternos porque nascemos assim.
Feliz 8 de Março para todos, homens e mulheres!

Comments


  1. Concordo a 1 000%.

  2. JgMenos says:

    Sempre me impressiona esta noção de que tudo se resume a vagina versus pénis!
    Tudo o mais é igual, e neste caso até se define a data em que passoua ser diferente.
    E o certo é que anda por aí muita mulher apostada a fazer valer a igualdade a 1.000%!
    Triste miséria, inimaginativa e sem graça que justifica tudo o que de desinteressante se passa num sexo meramente alternativo à masturbação e numa vida comum de iguais que carregam diferenças em negação permanente.

  3. jonas river says:

    Há quem não saiba existir sem espartilhos.


  4. Esta conversa “não cheira a rosas” e é muito “urbano-intelectual” Mas já se forem ou aos subúrbios e/ou interior a conversa muda de música – vê-se mesmo que é urbana e intelectual – tem a SUA opinião que por caso nem faz LEI leu pouco e conviveu em circuito mais do que fechado – é o que é

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