A nossa doença é um luxo

 

Se há coisa que me desperta curiosidade é saber se aqueles que acham que o país está melhor passaram recentemente por algum hospital público. Ando, há pelo menos duas décadas, a acompanhar a doença crónica de quem me é muito próximo. São pelo menos 20 anos de consultas, exames, operações cirúrgicas e internamentos num hospital público. E durante este período nunca vi uma degradação tão evidente da qualidade do serviço prestado por esse hospital em concreto, um dos maiores do país, como a que se vive hoje.
Muitos dos médicos mais experientes e qualificados, entre eles muitos chefes de serviço, debandaram para o privado. E não foram só os cortes nas remunerações a pesar na decisão, foi também a atitude de desprezo e de falta de consideração por parte de quem manda, a não valorização de qualquer esforço para prestar um melhor serviço público. Ficaram médicos jovens, acredito que muito qualificados, mas inexperientes, numa área em que a tarimba faz toda a diferença. No recibo de vencimento de um destes médicos não se espantem se virem um salário líquido de pouco mais de mil euros por um horário de 40 horas semanais.
A experiência das pessoas que conheço é a de que os tempos de espera por consultas e exames aumentaram. Os exames que requerem anestesia continuam a ser um problema. Na sala de espera ouvi, há dias, uma conversa entre médico e paciente elucidativa a este respeito. Se o doente quisesse anestesia para realizar certo exame, esperaria à volta de três meses, sem anestesia poderia fazê-lo no dia seguinte. O doente hesitou mas acabou por abdicar da anestesia.

Nunca tinha ouvido, como há dias, uma enfermeira dizer a um paciente internado: “Infelizmente o hospital não tem todos os medicamentos que os doentes tomam em casa”. Tampouco tinha ouvido uma auxiliar confirmar a escassez de cobertores para todas as camas. As enfermarias precisam de obras urgentes – as paredes estão esburacadas, as janelas não fecham bem, há aquecimento no Inverno mas no Verão faz um calor insuportável, em muitos dos corredores a luz não é ligada até ser absolutamente indispensável, há enfermarias com cinco e seis camas onde não deveriam estar mais do que três. Numa enfermaria com cinco camas, pode estar disponível um único cadeirão, aquilo que permite que um doente possa passar algum tempo fora da cama, com o mínimo de conforto.
Em situações limite, de lotação completa, pode acontecer, como já assisti, que, não havendo espaço para transferir um doente terminal, ele agonize numa enfermaria repleta, com o rodopio inevitável de familiares que vêm despedir-se, com angustiantes cenas de choro e desmaios num espaço exíguo, tendo como testemunhas involuntárias todos os outros pacientes e famílias. Não é ficção, garanto-vos.
As urgências, ao contrário do que garante o governo, estão muitas vezes acima da sua capacidade de atendimento. Já por aqui contei o que respondeu um médico a quem se perguntava quando atenderia um doente nas urgências. Com 60 pacientes à espera, respondeu que não era um super-homem.
O encerramento de unidades de saúde gera situações de injustiça e crueldades intoleráveis e vai privando cada vez mais portugueses do seu direito constitucional de acesso a cuidados de saúde.
E o ministro da Saúde veio hoje afirmar que os portugueses tomam medicamentos a mais, sem adiantar uma explicação mais detalhada, sem esclarecer a que tipo de situações corresponde essa prescrição, sendo certo que para muitos doentes crónicos a alternativa a um elevado número de medicamentos  diários é a morte.
A troika impõe cortes na saúde, já sabemos, os hospitais devem gastar menos, e o país já não se pode dar ao luxo de suportar um Serviço Nacional de Saúde que, pecado capital, não dá lucro. Entretanto, a banca multiplica a oferta de seguros de saúde, os hospitais privados aguçam os dentes, desdobram-se em exames complementares de diagnóstico, descobrem necessidades de intervenção cirúrgica onde ela nem seria recomendável. No próximo mês, com a apresentação do Documento de Estratégia Orçamental, ficaremos a saber de quanto será o corte na Saúde para 2015, sendo certo que a incógnita é mesmo essa, de quanto e não se haverá corte.
E a saúde, que, a par com a educação, deveria ser um dos pilares de uma sociedade democrática, promotora do cumprimento dos direitos humanos e da efectiva igualdade de direitos e oportunidades, vai-se tornando um luxo acessível a um conjunto cada vez mais restrito, enquanto o discurso governativo procura justificar o injustificável com meia dúzia de termos de marketing – acabar com o despesismo, racionalizar, cumprir as metas do défice. Já não se trata de um risco iminente, está a acontecer. O SNS está a ser desmantelado debaixo dos nossos olhos e as vítimas somos nós, os nossos avós, pais, filhos, até aqueles que ainda não nasceram.

Comments

  1. Fernando says:

    Subscrevo.
    A grande questão é saber até quando os portugueses irão aguentar a humilhação e a ignomínia de um Portugal e de uma Europa governados por gente deste calibre!


  2. Incrível 🙁


  3. Já comprovei tudo isso o Verão passado, em Lisboa, num hospital pediátrico.
    Fiquei horrorizada!!!


  4. “Muitos dos médicos mais experientes e qualificados, entre eles muitos chefes de serviço, debandaram para o privado.”
    Carla Romualdo, o que diz é verdadeiro, mas eu acrescento: Depois de pedirem a reforma, não fora isso, eles não trocariam como é evidente. Sobre o restante conteúdo totalmente de acordo.

    • Ana Gonçalves says:

      Eu sou uma das coordenadoras de anestesia que saiu do país. Não me reformei mas fartei-me do desrespeito pelos médicos e doentes. Mexei muito com a minha vida familiar mas já era demais. !

  5. Paulo Sarnada says:

    No seu “retrato” pode incluir o tal maior hospital do Norte governado por uma direção estalinista que constrói verdades num ápice para mascarar a realidade.


  6. Tendo bastante experiência enquanto utente tenho notado algumas coisas:

    – Um serviço cada vez pior no que toca a algumas áreas relativamente a burocracias (perda de processos, marcação de consultas de forma errada, tempos de espera sem dar qualquer satisfação aos utentes, falta de respeito pelos utentes);

    – O que disse anteriormente é exponenciado pela proporção de idosos que frequentam o serviço em causa. O que me parece dever-se ao facto de serem pessoas com menos capacidade de fazer valer os seus direitos;

    – Serviços de urgências que tratam as pessoas como atrasadas mentais, onde não ouvem o que as pessoas dizem e fazem o máximo por despachar os problemas para outros;

    – Serviços de internamento e de especialidade com um profissionalismo notável e louvável. Aqui encontra-se a razão pela qual o SNS ainda é a nossa jóia da coroa. É impressionante como profissionais que sofreram o enxovalho que sofreram nos últimos 3 anos (no mínimo) mantêm um nível de serviço assim, uma entrega total aos pacientes e um profissionalismo que não se vê em lado nenhum, porque em muitos casos extravasa aquilo que é a obrigação profissional.

    Estou a falar do caso que conheço e falo com bastante conhecimento de causa. O SNS é uma realidade bastante complexa e as generalizações são sempre abusivas e grosseiras. Isto é aliás um grande problema, não devia haver um desvio padrão tão grande no nível de qualidade dos diferentes hospitais do SNS. Não obstante, parece-me que os pontos que apontei são comuns e generalizáveis, feliz e infelizmente. E a causa é, para além da desmoralização decorrente da falta de financiamento e de recompensa pelo trabalho bem feito, um problema de gestão imenso.

  7. José Peralta says:

    Totalmente de acordo, e com uma revolta imensa contra estes canalhas que nos (des)governam, e têm o descaramento de dizer que “o País está melhor”…

    E quando o ministro p. macedo, diz que há Portugueses que tomam medicamentos a mais, foi pena não dizer (mas também ninguém na A.R. se “lembrou” de lhe perguntar !!!!) quantos Portugueses os tomam a menos, ou nem os tomam, sobretudo idosos que tem de escolher entre o medicamento, e a pobre refeição !


  8. Sarah, mais um que tive que partilhar…

    Sr David Calão: concordo que em alguns hospitais haja “Serviços de urgências que tratam as pessoas como atrasadas mentais, onde não ouvem o que as pessoas dizem e fazem o máximo por despachar os problemas para outros”. Até acredito que em certos momentos haja em todos.
    Mas sabe uma coisa? desde o início do anos o número de queixas de agressão da população sobre profissionais de saúde (médico, auxiliares, administrativos e principalmente enfermeiros) igualou o número total de queixas do ano de 2013.
    Porque a população portuguesa, graças ao governo e a alguns comentadores (recordo dolorosamente os comentários recentes do Sr Miguel de Sousa Tavares), deixou de ter respeito pelas classes profissionais da saúde. Assim como há muito tempo também deixou de ter pelos professores.
    As pessoas esperam, desesperam, perdem dias inteiros de trabalho nos tribunais e ninguém reclama. Mas nos hospitais invadem salas de tratamento e gabinetes e injuriam e agridem fisicamente quem lá está. E está a trabalhar. Esses são verdadeiramente atrasados mentais, ou melhor dito, atrasados educacionais.
    O paradigma da gestão em saúde faz com que os profissionais das urgências sejam avaliados pelo número de doentes que observam, e não pela qualidade com que o fazem. Há bons profissionais a serem despedidos porque são considerados “lentos”, porque dão atenção aos doentes, porque os vêm bem, porque além das injecções ou dos soros lhes dão uma palavra de conforto. Porque o que responde às necessidades não é o humanismo, são os números. Bom é quem se gaba de “montar uma rotunda” à porta do posto de trabalho, para “assim que entrem, estão prontos a sair”.
    É triste, mas é assim.
    De resto, na generalidade concordo com o seu comentário. Com a legitimidade de que usou o ensino público, usa a saúde pública e trabalha no sector público.

    E quando leio o que escrevi, e penso nos doentes e nos profissionais, ocorre-me um pensamento antigo da minha falecida avó… “casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”…


  9. O sr. David afirmou, e bem, a Saúde é uma realidade muito complexa e muito dada a populismos, alguns com interesses discutíveis.

    Não se chegou a este ponto por acaso, nem repentinamente. E também não se espere que seja uma realidade facilmente alterável e, muito menos numa legislatura.
    A começar pelo facto de que, tal como acontece em muitas estruturas do Estado, o SNS está, a muitos níveis, refém dos interesses partidários, passando pela pressão de grupos privados, por interesses corporativos (alguns socialmente pouco defensáveis) ou pela falta de visão (ou, sequer, noção) de que o SNS também deveria ser discutido enquanto parte de políticas de coesão social e territorial.

    A própria Comunicação Social também não ajuda. Está cada vêz mais refém do imediatismo sensacionalista, da superficialidade, do populismo e, muitas vezes, deixando dúvidas quanto ao primado da independência jornalística.

    O resultado está à vista, até no texto em discussão: discutir a qualidade dos hospitais.

    Há uma cultura hospitalocêntrica que se instalou e foi sendo alimentada e defendida. Será que no interesse do Estado, dos cidadãos ? Do próprio SNS ? O SNS resume-se a uma rede hospitalar ? Porque é que as Urgências estão concentradas nos hospitais ? Porque é que os Centros de Saúde se tornaram a porta de entrada praticamente apenas para quem não tem outra forma de aceder aos cuidados de saúde ? E porque é que se insiste em manter o epíteto “Cuidados de Saúde Primários” ?

    A crítica é fácil. O populismo, idem aspas. Infelizmente, têm uma razão de sêr. A muitos níveis, a Saúde vai piorar. Talvez não do ponto de vista qualitativo mas suspeito que todo este frenesim mediático vai acabar por se traduzir numa transferência de competências do Estado, com o correspondente agravar da fatura. A pagar durante longos e bons anos e com contratos escritos na pedra.

    Nós não aprendemos mesmo nada com o passado…

  10. Maria de Lourdes Monteiro Simaria Évora da Cruz says:

    Isto é INADMISSÍVEL, DESUMANO E CRIMINOSO, o que estes “putos” inexperientes e que nunca trabalharam na vida, estão a tratar os portugueses e a destruir uma saúde da qual nos orgulhávamos, feita e aplicada pelo GRANDE SENHOR DR.ANTÓNIO ARNAULT, mais conhecido pelo PAI DA SAÚDE. Falto-nos tudo, desde as coisas mais insignificantes a médicos, enfermeiros, funcionários administrativos, funcionários auxiliares, etc etc. Nunca aconteceu, que me lembre, e já corri alguns hospitais, os doentes terem que levar os seus medicamentos, até mesmo seringas para as pessoas que sofrem de diabetes e outras coisas mais que custa aqui dizer. Isto é INFÂME….
    É inacreditável que o Ministro da Saúde diga que os portugueses tomam medicamentos a mais??? É pelos cortes que têm feito nas pensões dos idosos, será? Mas este desgoverno, mentem ao minuto, é esta a ESPECIALIDADE de quem nos desgoverna!!!. Porque não perguntam por aqueles milhares de pessoas, principalmente os idosos, que não tomam nem sequer um medicamento medicado pelo seu médico de família, se é que o têm, porque não têm dinheiro para os tomar , evidentemente. Porque não perguntam se os idosos têm dinheiro para se deslocar e pagar os serviços prestados nos hospitais?
    Será que não foi a geração que pagou durante 40 a 50 anos de trabalho, nos quais descontámos até ao último tostão, para agora estes nossos descontos nos serem ROUBADOS e entregues a estes INCOMPETENTES?
    O POVO já não é como era dantes, disso podem ter a certeza. O POVO atingiu os seus limites em toda a excepção da palavra, não só pela saúde, como pela educação, pelos “ASSALTOS” às nossas carteiras e à pobreza extrema das pessoas.
    Espero que os portugueses pensem e continuem a abrir os olhos perante um país sem futuro para os nossos filhos e netos, os quais vão passar as maiores dificuldades nas suas vidas.
    Não foi para esta tão grande desgraça que se fez o 25 de ABRIL!!!!!!!!! NÃO. NÃO FOI!!!!
    O 25 de ABRIL, foi sim, para todos termos uma vida melhor do que a dos nossos pais e não para EMPOBRECERMOS (palavras do passos coelho) e termos ainda uma vida pior do que nos tempos do fascismo!!! Isto é retrógrado, isto é um (BANDO DE MALFEITORES). ESTE É UM NOVO FASCISMO!!!!

  11. Vitor says:

    Quando se observa alguém que pertence a um conselho administrativo de um hospital afirmar numa reportagem que o fato de os utentes estarem internados, mas se apresentarem nos corredores, não inviabiliza que lhes seja prestados bons cuidados de saúde, está tudo dito. É o pais e a saúde que temos… Deveríamos agir de outra forma com o poder politico, certamente…


  12. quanto a mim não tenho caichas tenho sido muito bem tratado no SN S muito bom este fim de ano tive um enfare foi as uregençias do centro de saúde de ponte sor foi muito bem tratada um bom médico enfermeiras maravilha . mandarão -me para o hospital de Portalegre e fui muito bem tratada uma maravilha estive doas noites mandarão -me para o hospital de Évora foi logo atendida se o doutor Lino e doutor Renato lerem este comentário um beijinho para eles poi foi que me salvou a vida quanto aos outros medico muito bonés enfermeiras maravilhosas e restante pessoal muito bom .. em GRAÇIA DE ORTA nem tenho palavras Rodrigo Santiago um beijinho para ele foi operada no Hospital Corri Cabral foi do melhor pois só tenho que dizer bem …

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