Os alunos chegam à universidade sem saber ler nem escrever

O Paulo Guinote publicou uns recortes do Independente de 28 de Fevereiro de 1992, de onde imprimi isto:

estudantes analfabetos

Calha ser do Vasco Pulido Valente, é detalhe, toda a gente o dizia, reparem no ano: 1992.

Em 1992 já levava meia-dúzia de lectivos em sala de professores, recomendava aos meus alunos que lessem o Expresso para se prepararem a prazo para a PGA, uma tentativa cavaquista de regresso do exame de admissão nas universidades que se escafedeu a si própria, já estava portanto habituado, conversa favorita de profe velho depois repetida pela sociedade em geral ainda mais ciosa dos seus diplomas da 4ª classe antiga do que hoje: os alunos de agora são uma desgraça e a futura desgraça da nação.

Esses catraios, então de vinte para baixo, têm agora mais vinte e dois anos, e são o grosso do tal Portugal mais sábio de sempre, em quantidade e qualidade. Ainda se arriscam, sem saber ler e escrever e divagando sobre matérias afins, a serem no mínimo uma muito habilitada geração de emigrantes. Suponho que 22 anos antes a minha geração também não sabia ler nem escrever. E aposto em como dentro de 22 anos se dirá o mesmo. Aliás nunca entendi como, sem saber ler nem escrever, alguém escreveu ou leu isto.

Há uma explicação para este hábito ancestral de diminuir a qualidade a matéria-prima com que trabalhamos: no fundo quanto pior os considerarmos mais nos orgulhamos do trabalho que fazemos com eles.  Pode haver outras, mas gosto desta para explicar o ritual, combina muito bem com a palavra tolice.

Comments

  1. Gottlieb says:

    Acredita uem quer: As minhas filhas e os meus sobrinhos, todos formados em diversas áreas, não sabem a tabuada de cor.

    • E saber de cor a tabuada serve para quê?

      • Gottlieb says:

        Pois é. Saber fazer contas de cabeça não serve para nada.
        E saber responder a perguntas serve para quê ? Porra, vão ao Google.
        E saber escrever serve para quê ? O copy/paste dá um resultadão e para coisas vulgares as abreviaturas das SMSs são mais eficazes.
        E saber ler, a malta pouco lê. Além disso o meu telemóvel e o IPAD até lêem as páginas em voz alta se eu quiser.
        Topas, puto ?

        • José Peralta says:

          Gottlieb

          “Por acaso”, ter que decorar as linhas de caminho de ferro, e todos os rios, e etc., e etc., e…etc., foi uma grande ajuda para a minha vida e profissão…

          E então, levar ponteiradas na cabeça, ou sádicas reguadas em mãos infantis ?

          E a extraordinária eficácia desses “métodos pedagógicos” ?…

          Até “estou tentado a dar razão ” àquele gajo que está “na Europa”, qual é o nome dele ? Durão “raposo”, ou lá o que é!

          • José Peralta says:

            Em tempo

            Por manifesta falta da minha memória, citei erradamente o nome desse eminente, e quão “ilustre e magnífico patriota” :

            Corrijo : NÃO É “DURÃO” ! É… “FURÃO RAPOSO” !

            As minhas desculpas ao visado !

      • Duarte Lopes says:

        Saber a tabuada serve, entre outras coisas, para fazer contas quando a energia que alimenta as maquinetas de diversão popular, acabar.

    • André says:

      Eu conheço quem saiba a tabuada de cor, sem saber quem foi Newton; o que é a teoria da gravidade, usa expressões como “vai vir”, nunca leu um livro, não sabe qual é a capital da Hungria, não fala nem percebe inglês, não percebe de informática, não sabe o que é um mabeco ou uma ameba…and so on.

      Comparar os programas do básico dos anos 60 com os actuais é esclarecedor. Façam esse exercício.
      Este mito do “antigamente é que era bom” sempre existiu, medra na ignorância dos factos.

    • ‘any fool can know, the point is to understand’

  2. Nightwish says:

    Já no tempo da Grécia antiga havia quem se queixasse da geração adolescente. Infelizmente, já não me lembro nem da citação nem do autor, talvez Sócrates ou Sófocles, enfim, alguém conhecido da altura o disse.

    • Gottlieb says:

      Não saõ queixas a geração. São só queixas ao ensino em que a qualidade foi sacrificada pela quantidade.

      • André says:

        Tenho 38 anos e dois filhos no ensino básico. A quantidade e diversidade de matérias é, actualmente, bastante alargada. Os miúdos apreendem e aprendem muito mais informação e competências nos dias de hoje em comparação com os anos 70 e 60. Basta comparar os programas para desmontar esse mito.

  3. Rui Moringa says:

    Sim, aprendem mais matérias. Têm mais informação e meios para ter acesso à informação. isso é bom, notável nalguns casos.
    Mas não é isso que dará competências para interpretar texto escrito ou fala, ou mesmo conhecer e interpretar eventos científicos como os já mencionados nos comentários.
    Ensianr a tabuada é o ensino de um método imprtante para o cálculo e para a matemática. é um método. Em si não dá nada, mas é uma ferramenta fundamental. Claro na falta dela usamos a cálculadora ou outro meio, mas não compreendemos o caminho, o método para chegar a um resultado.
    Falta ensino de métodos nas escolas e dos método necessários para dominar a fala, a escrita e a interpretação.
    “De todas as verdades as maiores são os métodos” – Um filosofo disse ou escreveu isto.
    Ter só informação não chega. Um professor não é mais um debitador de informação, até porque será ultrapassado pelos outros meios que a debitam (divulgam).
    Um professor ensina sobretudo métodos de uso, de interpretação, de busca de problemas científicos e da vida corrente.
    Um professor também não é um educador, suprindo o falhanço da família ou a externalização das funções desta.

    • André says:

      Repare, ninguém afirma que decorar a tabuada é errado. É um método, não é o único. Os miúdos hoje aprendem efectuar cálculos de forma diferente. A forma como fazem a divisão é um exemplo claro disto mesmo. Existem métodos vários de incentivar o cálculo mental, por exemplo o método papi, bastante eficazes e, segundo alguns professores, melhores.
      Quanto à questão da interpretação, esta reflete se no nível absurdo de ileteracia que grassa em Portugal entre os cidadãos mais velhos, os ex alunos do total ensino de excelência do antigamente. Os métodos baseados na mera memorização,e a memorização é importante, são inimigos da interpretação. Os alunos do básico têm conhecimentos científicos, quando falam sobre o Newton aprendem um pouco mais sobre a teoria da gravidade. Um bom professor é um educador, enquadra explica e desafia.

  4. Paulo Sarnada says:

    Sr. André,

    De acordo, no essencial.
    Permita que discorde da ideia de que um professor é um educador.
    Literalmente os mais velhos e mais sabedores são todos educadores, usando o exemplo como meio-método.
    Fundamentalmente o professor é um especialista do ensino-aprendizagem. Se deixar de se concentrar nesta função derivando para outras, anda aos papéis.
    Ninguém pode ser aquilo que não é.

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