Só muda a cor e as gravatas Duarte

Rato

Com uma redução significativa de pontapés na língua portuguesa, o deputado que não gosta de ratos de biblioteca e que acredita que o problema do desemprego pode ser resolvido pela fé – ainda que nem todos possamos ser abençoados por São Tacho – presenteou-nos com mais um escrito de propaganda de terceira divisão regional, ao bom velho estilo dos corredores da traquinice jota.

Os alvos são os do costume: a esquerda e o partido-irmão do PSD, o PS. A argumentação é da mais rota e idiota que tenho visto por ai. Nem chega a ser propaganda porque a propaganda pressupõe capacidade de persuasão e, neste caso, só se for mesmo para persuadir determinados rebanhos de ovelhas, algo que, sendo parte integrante do código genético da esmagadora maioria destes seres, acaba por não contar.

O panfleto começa com esta brilhante tirada “Quando parece que as instituições portuguesas estão, finalmente, a desempenhar bem as suas funções”. Parece? Só se for ao gado ovino porque a ideia que passa cá para fora, para as pessoas que vivem no mundo real, é precisamente a oposta. Quais instituições é que estão a desempenhar bem as suas funções? O Governo com certeza não será uma vez que falha a esmagadora maioria das metas a que se propõe e não conseguiu até à data fazer qualquer reforma do Estado que não fosse subir impostos, cortar salários e pensões e vender os anéis ao desbarato e isso, como sabemos, não é reforma nenhuma, é o método de quem não tem coragem para mais.

O deputado jota honorário e provável futuro líder do PSD continua com uma referência ao caso BPN e ao “conjunto de trapaceiros” que deram origem à até agora maior fraude financeira da história deste país. Tudo malta próxima da sua malta. Mas para quem gasta o nome de José Sócrates até à exaustão, não teria sido mais claro referir nomes como Dias Loureiro, antigo consultor do seu querido líder, ou todos aqueles “trapaceiros” que encheram a comissão de honra da candidatura de Cavaco Silva às últimas presidenciais, candidato no qual votou e pelo qual fez campanha? Que más companhias Duarte!

O ridículo continua, com o deputado a acusar o regulador Constâncio de não ter funcionado no caso BPN ao passo que agora, no mundo perfeito e imaginário do deputado, a coisa estar bem encaminhada com Carlos Costa ao leme. O que ele se esquece é que Costa já lá está desde 2010 pelo que a sua regulação já devia ter detectado as actividades mafiosas do universo Espírito Santo antes do problema atingir a dimensão que é hoje pública. Já agora, esse grande incompetente que é Vítor Constâncio foi condecorado com a Grã Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, não por socialistas mas por Cavaco Silva. O mesmo que condecorou vários mafiosos do BPN, tendo protegido um deles no seu Conselho de Estado enquanto lhe foi possível.

O Banco de Portugal actuou mas poderá ter actuado tarde. A ver vamos se esse risco sistémico foi efectivamente afastado ou se teremos em breve uma surpresa à BPN, daquelas que no início não custam um cêntimo aos contribuintes até que a factura de 7 mil milhões chega. Quanto a Pedro Passos Coelho, carácter e coragem de tirar o tapete a Ricardo Salgado quando este já se encontra em queda livre é fácil. Carácter e coragem deveria ele ter tido quando mentiu aos eleitores para conseguir o poder. Mas optou por ser um cobarde sem carácter que prometeu e não cumpriu. Quanto aos contribuintes pagarem ou não a factura do BES, a ver vamos. Cheira-me que ainda vai sobrar alguma coisa para o violado do costume.

E se Seguro estrebucha ou não para branquear a promiscuidade entre os governos PS de Sócrates e o BES, tal não nos deve admirar porque ele é feito da mesma matéria jota de que outros aldrabões e branqueadores são feitos. Mas o partido do senhor deputado não é propriamente um exemplo na matéria. Para além de estar a tomar o BES de assalto, o escândalo BPN foi feito por antigos governantes do PSD e uma enormidade de outros negócios altamente danosos para o Estado, como a Lusoponte ou a Tecnoforma também. Vocês não são melhores que os socialistas, são iguais. E o BES tem e teve lá tantos ministros, secretários de Estado, deputados e boys do PSD como do PS. A única coisa que muda é a cor e as gravatas.

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P.S. Ao contrário do iluminado deputado, que apesar da nova administração ainda não ter iniciado funções já a consegue considerar idónea à priori, não me considero capacitado para avaliar a qualidade das escolhas de Vítor Bento, Moreira Rato ou Mota Pinto, até porque o trabalho deles ainda nem sequer começou. Deixo a tarologia para o Duarte. O único problema aqui é o critério de proximidade do poder político: Vítor Bento é um homem próximo do PSD e foi primeira escolha de Passos Coelho para Ministro das Finanças, Moreira Rato é próximo do PSD e ainda há poucos meses emitiu dívida sindicada pelo BES e Mota Pinto é um jurista cuja experiência no sector é zero. Agora imaginemos que esta fosse uma decisão tomada pelo PS com gente próxima do PS a ser alvo da dita nomeação. O que diria o deputado?

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