Nuno Crato disse que há professores que trabalham 14 horas por semana


Há pouco, na televisão, ouvi Nuno Crato vangloriar-se, diante dos deputados da maioria, de que tinha conseguido uma grande poupança no seu ministério.

Apontou como uma das razões para isso o facto de, graças ao programa de rescisões, ter conseguido afastar os professores mais velhos. A propósito destes, afirmou que alguns (ou a maioria, confesso que não me lembro) trabalhavam catorze horas por semana.

O que Nuno Crato deveria ter dito era que há professores que dão catorze horas de aulas por semana, o que decorre das reduções que foram acumulando ao longo da carreira.

Ora, dar catorze horas de aulas por semana não é o mesmo que trabalhar apenas catorze horas, como reconhecerá qualquer pessoa minimamente informada ou que queira sê-lo. Faz tanto sentido como dizer que um jogador de futebol trabalha noventa minutos por semana e, ainda assim, se for titular. Faz tanto sentido como afirmar que um actor trabalha o tempo que leva a representar uma peça. Faz tanto sentido como declarar que um jornalista só esteve a trabalhar o tempo que durou uma entrevista.

Para além disso, actualmente, dar catorze horas de aulas nem sequer é o mesmo que estar catorze horas na escola, uma vez que foi imposto que os tempos de redução sejam aproveitados para realizar outras actividades não lectivas ou alegadamente não lectivas.

Não faltará – como não falta – quem se insurja contra as horas de redução com que os professores são contemplados e haverá quem comemore o facto de serem obrigados a estar na escola, porque não são mais do que os outros.

 Hoje, e para já, interessa-me realçar o facto de termos um ministro que cometeu a mesma imprecisão que qualquer ignorante sobre Educação poderia cometer. Nada disso levará a que a imprensa se interesse pelo assunto e dificilmente obrigará Nuno Crato a pedir desculpa.

Comments

  1. fatimainaciogomes says:

    Bravo.
    Haja honestidade. Intelectual, pelo menos, já que da outra, nem sombra.

  2. Nightwish says:

    Bem, também poupou uns milhares de salários durante dois meses, e ainda continua a poupar alguns…

  3. O que os trabalhadores deviam perceber é que pelo facto de exagerarem em referencias a lutas sindicais nos média só têm perdido prestigio, talvez aversões(refereencias ao malevolo nogueira) e espalham a nefasta ideia que problemas sindicais e ensino são a mesma coisa. Menos srs professores, menos é melhor.

    • António Fernando Nabais says:

      Os sindicatos e os professores andam, há vários anos, a fazer menos, quando a gravidade da situação implicaria que fizessem muito mais, porque a Educação, área que inclui os problemas laborais dos professores, está a ser destruída. Os cidadãos, de uma maneira geral, embrutecidos pelos vários poderes, imprensa incluída, não se informam. O “cristof9”, por ser desinformado ou desinformador, anda a espalhar a ideia de que o problema está nos sindicatos, como se não houvesse várias vozes entre os professores. Mais, senhores professores, muito mais.

  4. João Paulo says:

    Vê-se que essa pessoa não sabe nada do seu ministério. E não fala da asneira que fez ao colocar professores, que por acaso tinham pedido a rescisão, em horários zero, sendo que alguns pertenciam a esses professores que rescindiram! E não fala que ainda foi contratar professores para os mesmos horários que não existem… O que vai acarretar maior despesa pública?! E não fala que não cumpre o CPA ao não dar resposta a quem lha solicita por escrito?! E não fala das vidas que destrói com os concursos da B(S)CE e todos os outros que aconteceram este ano?! Já agora à laia de despedida… há alguma organização, vulgo sindicato, que se interesse por nós?!

  5. orquidea says:

    ” Perdoai-lhes Senhor que não sabem o que dizem.” Fui daqueles que se enganaram e nem tão pouco sou religiosa.
    14 horas? Santa ignorância!!!!

  6. Paulo says:

    Mas ele não passa mesmo de um ignorante da educação que lá foi parar porque muitos professores igualmente ignorantes o vangloriaram noutros tempos, não tendo consciência de quão ignorante era (e é!) quem eles aplaudiam! Lamentavelmente temos todos que pagar por isso!

  7. Marcolino says:

    O Crato devia ir dar aulas de Matemática para a escola do Cerco. Dava-lhe 1 semana. Mudava logo de opinião! O problema destes políticos é que nunca estiveram “no terreno”. Estão nos gabinetes, com ar condicionado, rodeados de secretários e seguranças e pensam que os professores são iguais! Os professores deviam era ganhar o dobro!

  8. Há professores com direito a redução de horário?! Que lindo, mas não os de 1º ciclo do ensino básico e os educadores de infância( que até nem sequer têm um calendário escolar idêntico aos outros níveis de ensino… pois trabalham, em média, mais um mês por ano letivo do que todos os restantes docentes e ninguém se importa!)… estes dois grupos, como ia dizendo são de momodocência, ou seja , trabalham sempre com o mesmo grupo de meninos e não há horas de redução…a carga horária é sempre a mesma até aos 67 anos, que chegue a reforma, se a houver…)

    • António Fernando Nabais says:

      E tudo isso está mal. Calculo que defenda – e bem – que os professores de todos os níveis possam ter reduções ao longo da carreira. Ou defende que se deva retirar esse direito a quem o tem? Ninguém se importa? Mas quem é ninguém?

  9. Pai desiludido says:

    Não sou professor mas sou pai. Não quero entrar em polemicas de horas a mais ou a menos, mas penso comigo próprio, se isto tudo será só incompetência, ou se não é um verdadeiro plano orquestrado para destruir o ensino publico. Eu fui sempre aluno do público e agradeço á geração dos meus pais ter contribuído, para um ensino público de qualidade, mas que infelizmente criou uma geração de gente que aceita impávida e serenamente o desmantelar da instituição mais importante de qualquer sociedade desenvolvida. Até quando vamos aceitar que nos digam que é tudo uma questão financeira? O Sr. ministro poupou imenso…Então e se fechar todas a escolas e despedir todos os professores, então aí é que poupa! Não pode ser só incompetência, é demasiado para ser verdade…

  10. orquidea says:

    É verdade que havia alguma injustiça na questão das reduções da componente letiva. É verdade que um docente do 2º,3º ciclos e secundário poderia atingir os 60 anos com apenas 14 horas da componente letiva mas, tinha a componente de estabelecimento, nunca trabalhava só as 14 horas.Contudo, os docentes da monodoccência eram compensados na aposentação, podendo sair mais cedo do que os restantes. Hoje já não é assim.
    Quanto ao ministro, era um bom professor, não lhe retiro o mérito, escreveu livros interessantíssimos sobre matemática. Depositei alguma esperança nele. Mas, como ministro está muito longe de perceber a realidade docente e as escolas.

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  3. […] a opinião pública e publicada, e com a ajuda de ministros, generalizou-se a ideia de que o horário de trabalho de um professor corresponde ao número de […]

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