Chomsky e Houaiss: perspectiva, concepção, aspectos e facções


110p

Elements of Linguistic Structure, Noam Chomsky, 1955 © MIT (http://bit.ly/1vRi4OH)

Truly, we live in a world in which people feel entitled not just to their own opinions but their own facts.

Paul Krugman

***

Em qualquer área em que seja usada, tanto no Brasil, como em Portugal ou na África, a língua portuguesa será grafada de uma só maneira. Isso significa que um livro editado em português pode correr todos esses países, porque a ortografia é a mesma

Evanildo Bechara

***

Li recentemente um artigo de 1996, do jornalista brasileiro Ibsen Spartacus (1965-2003), acerca do Roda Viva com Noam Chomsky. Lembrei-me, obviamente, do Roda Viva com Antônio Houaiss (1915-1999), ao qual me referi em 2009 (p. 10), com o conhecido lexicógrafo a admitir o valor diacrítico da letra ‘c’, embora errando o alvo: na palavra ‘actividade’, a letra consonântica ‘c’ tem de facto valor grafémico, sim, mas esse valor não é diacrítico.

Neste registo, com um desempenho teórico francamente melhor, Houaiss esclarece aqueles que não conhecem o sistema ortográfico do português europeu: “[a consoante muda], em Portugal, se escreve para fins de abrir o timbre ou por coerência; como em ‘activo’, eles põem o ‘c’ para dizerem ‘activo’ [aˈtivu], em lugar de dizer *’ativo” [ɐˈtivu]; eles põem esse ‘c’ em ‘acção’, coerentemente, por serem co-radicais”. Depois, acrescenta: “para dizerem ‘optimizar’ [ɔtimiˈzaɾ], eles têm que pôr o ‘p’; ao pôr em ‘optimizar’ o ‘p’para essa função de timbre, automaticamente eles levam o ‘p’ para o cognato ‘óptimo'”.

Muitos anos volvidos sobre estas intervenções de Houaiss, tentei explicar o porquê do ‘c’ de ‘acção’. Tendo a letra consonântica ‘c’ uma “função distintiva (própria), como a de um (sinal) diacrítico, exercendo a mesma função de marcação ortográfica de um acento, instruindo relativamente à não alteração do timbre da vogal a que a precede”, dificilmente poderemos aceitar uma explicação de cariz meramente morfológico ou etimológico para justificar a manutenção do ‘c’ de ‘acção’ — o conceito “radical” é adoptado para se definir, em Morfologia, um dos três vértices da estrutura de base das palavras e o conceito “raiz” é utilizado, como defende Graça Rio-Torto, para a definição de uma estrutura etimológica indecomponível. Faço notar igualmente que “não alteração do timbre da vogal” é diferente de “para fins de abrir o timbre”. É exactamente como uma porta que se pretenda aberta, uma cunha e uma chave: enquanto a cunha impede que a porta se feche, a chave serve para abrir a porta .

Descubra as diferenças:

cunha

© António Varela e João Paulo Rodrigues (http://bit.ly/1tjCnSy)

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via Cambridge Journals (http://bit.ly/1D0jwx7)

Segundo Houaiss, “eles têm que pôr o”, “se escreve em Portugal, para”, “eles põem para dizerem”. Então, suprime-se? Porquê? Citando José Mourinho, ¿por qué? Sim: ¿por qué? Segundo Houaiss, “porque foi a regra impeditiva da unificação ortográfica durante muito tempo”. “Unificação ortográfica”, note-se. Aliás, repita-se, sublinhe-se e saliente-se: “unificação ortográfica“.

Quanto à inspiração teórica de Houaiss, durante esta semana, houve uma notícia do Expresso a corroborá-la. Na ressaca do “auf Wiedersehen, goodbye, au revoir, adeus” de Durão Barroso, o Expresso debruçou-se sobre um discurso do ainda presidente da Comissão Europeia, “numa livraria em Estrasburgo” — para os interessados no nome da livraria, foi na excelente Kléber.

No texto introdutório, podemos efectivamente ler:

Barroso1

Contudo, no desenvolvimento da notícia propriamente dita, encontramos a letra consonântica ‘c’ quer no feminino de ‘activo’ , quer em ‘actividade’. Isto é, temos grafias que permitem dissipar as dúvidas que o texto introdutório suscitara. De facto, estamos claramente perante uma redacção portuguesa europeia.

Barroso2

Regressando a Noam Chomsky e à entrevista, a excelente transcrição (que inclui a correcção de um *Bethune, que surge nas legendas) é suficiente para se perceber que o prestígio internacional da língua portuguesa não melhora através do Acordo Ortográfico de 1990 e que Houaiss se esqueceu de acrescentar que o sistema iria provocar dissensões. Quem se der ao trabalho de ler a transcrição irá tropeçar em ‘perspectiva’, ‘perspectivas’, ‘concepção’, ‘aspectos’ e ‘facções’. Além da ‘perspectiva’, das ‘perspectivas’, da ‘concepção’, ‘dos aspectos’ e das ‘facções’ (como sabemos, palavras muito frequentes), há evidentemente ‘contatos’:

Ela tem muitos aspectos positivos e negativos também. A comunicação pela internet estabelece contatos entre pessoas que, de outro modo, estariam isoladas, mas também isola as pessoas.

Aproveitemos esta citação, para um pequeno interlúdio, lembrando as palavras de Bechara: “a língua portuguesa será grafada de uma só maneira“.

Convertamos o trecho para AO90 (português europeu):

Ela tem muitos aspetos positivos e negativos também. A comunicação pela internet estabelece contactos entre pessoas que, de outro modo, estariam isoladas, mas também isola as pessoas.

Agora, em português do Brasil, mas com as regras do AO90:

Ela tem muitos aspectos positivos e negativos também. A comunicação pela internet estabelece contatos entre pessoas que, de outro modo, estariam isoladas, mas também isola as pessoas.

Depois do interlúdio, continuemos.

Não fazendo ‘fato’ (na acepção de “algo cuja existência pode ser constatada de modo indiscutível”, cf. Houaiss) parte da realidade grafémica portuguesa europeia, a verdade é que, no Diário da República,  há quem veementemente continue a discordar, como se comprova pelos 5 (exactamente: CINCO) “Menção de que o requerente declara serem verdadeiros os fatos constantes da sua candidatura” que surgem na edição de 21 de Outubro passado.

Ao contrário daqueles fatos, de facto, ‘perspectiva’, ‘perspectivas’, ‘concepção’, ‘aspectos’ e ‘facções’ fazem parte da realidade grafémica portuguesa europeia e foram reduzidas pelo Acordo Ortográfico de 1990 a obscuras ‘perspetiva’, ‘perspetivas’, ‘conceção’, ‘aspetos’ e ‘fações’ (exactamente, Fação, essa nossa velha conhecida). As grafias ‘perspectiva’, ‘perspectivas’, ‘concepção’, ‘aspectos’ e ‘facções’, adequadas segundo as luminosas leis que descrevem a ortografia portuguesa europeia no seu estado actual, passam a ser, como sabemos, exclusivas do português do Brasil, à sombra do Acordo Ortográfico de 1990.

¿Por qué?

E agora? Agora? Agora, desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

Comments

  1. António Fernando Nabais says:

    Magistral, também no sentido etimológico da palavra.

  2. Brilhante!

Trackbacks

  1. […] Exactamente. Segundo o Houaiss. Sim, ‘interceptar‘, segundo o Houaiss. Sim, sim, o Houaiss. Sim, esse mesmo. […]

  2. […] Aspectos? Perspectiva? Concepção? Facções?  […]

  3. […] Sim, é uma consequência da aplicação do Acordo Ortográfico de 1990. Trata-se de matéria já aqui abordada, mas há sempre quem não saiba (e quem, como eu, relativamente a “quem tramou Zeinal […]

  4. […] não abrem vogais. Existem, isso sim, consoantes que impedem o seu fechamento (ou elevação). Como escrevi no Aventar, “é exactamente como uma porta que se pretenda aberta, uma cunha e uma chave: enquanto a cunha […]

  5. […] não abrem vogais. Existem, isso sim, consoantes que impedem o seu fechamento (ou elevação). Como escrevi no Aventar, “é exactamente como uma porta que se pretenda aberta, uma cunha e uma chave: enquanto a cunha […]

  6. […] Como é sabido, antes do AO90, tínhamos […]

  7. […] de 2012, efectivamente, havia uma perspectiva que era correcta e comum. Agora, a perspectiva é exclusiva do Brasil e a perspetiva, além de incorrecta, não é […]

  8. […] na actual perpectiva (ah! a perspectiva) de Krugman, “here in Portugal” e não “there”. Entretanto, houve quem […]

  9. […] Barreto, há aspetos novos. Efectivamente, os aspetos são novos, exclusivos e desnecessários — além de maus e […]

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