Contra-semântica, co-adopção e contra-senso


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Mark Rothko, Entrance to Subway [Subway Scene],1938, Collection of Kate Rothko Prizel (http://1.usa.gov/13sD0jg)

I try to deny myself any illusions or delusions, and I think that this perhaps entitles me to try and deny the same to others, at least as long as they refuse to keep their fantasies to themselves.

Christopher Hitchens

***

Ao ler “Implementar as ações [sic] necessárias à harmonização gráfica da língua portuguesa e da terminologia técnica, nos termos dos acordos estabelecidos”, na página 59 do documento estratégico orientador Agenda para a Década (Agenda para a Década ou Agenda pára a Década?), fiquei a matutar naquilo: “harmonização gráfica da língua portuguesa”.

“Harmonização gráfica da língua portuguesa”?

Interceptar?

“Harmonização gráfica da língua portuguesa”?

Aspectos? Perspectiva? Concepção? Facções? 

“Harmonização gráfica da língua portuguesa”?

Excepcionais convertido para excecionais? Percepção convertido para perceção? Aspecto  convertido para aspeto? Aspectos convertido para aspetos?  Perspectiva convertido para perspetiva? Perspectivas convertido para perspetivas? Concepção convertido para conceção? Respectivas convertido para respetivas? Respectivos convertido para respetivos? Confecções convertido para confeções? Receptivos convertido para recetivos? Ruptura convertido para rutura? Receptiva convertido para recetiva? Facções convertido para fações? Receptividade convertido para recetividade? Respectivamente convertido para respetivamente? Receptor convertido para recetor? Infecciosas convertido para infeciosas? Excepcional convertido para excecional? Recepção convertido para receção? Rupturas convertido para ruturas?

“Harmonização gráfica da língua portuguesa”?

“Harmonização gráfica”?

“Da língua portuguesa”?

Depois de lida a Agenda para a Década (Agenda para a Década ou Agenda pára a Década? — a dúvida mantém-se), debrucei-me sobre o texto de Isabel Moreira É assim como fazer um exame de teologia para exercer sexologia e dei por mim a reflectir acerca de mais este exemplo de alguém que deixou de adoptar o Acordo Ortográfico de 1990 e que muito provavelmente ainda não sabe.

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Nem me refiro ao excelente ‘Outubro’ que surge no texto. Aquilo que grafemicamente mais me agrada, por diversos motivos, é a omnipresença do “Contra-semântica”, no título da coluna de Isabel Moreira, no Expresso — muito naturalmente, regressei ao episódio da *co-adoção e creio que estaremos todos efectivamente em condições de detectar um padrão estável: há quem simultaneamente consiga adoptar e não adoptar o AO90.

Recordando que o Acordo Ortográfico de 1990 é um documento com 21 bases (sim, 21 bases), isto é, não se restringe à base IV e à supressão de consoantes a torto e a direito (grafar ‘subjetivo’, ‘proteção’ e ‘lecionar’ não chega), lembro igualmente a existência da obscura e aparentemente críptica base XVI — já para não referir a base XIX.

Relembrando que Isabel Moreira participou e interveio na Audição Parlamentar N.º 122-CECC-XII e que insistiu (*)

o Acordo Ortográfico incide apenas sobre a ortografia, visando tão-somente regular qual a grafia de uso oficial e estabelecida como padrão para efeitos de harmonização da escrita do Português, mantendo-se a pronúncia e o uso das palavras inalteráveis, bem como a plena liberdade individual de utilização da grafia que pretender por parte de cada cidadão,

arrisco aventar (excelente verbo) que a Autora porventura preferiria uma correcção no final do parágrafo que citou: onde se lê “plena liberdade individual de utilização da grafia que pretender”, dever-se-ia ler “plena liberdade individual de utilização das grafias que pretender”.

Exactamente.

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

(*) Parecer sobre a Petição n.º 259/XII/2.ª, p. 6.

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The author [Christopher Hitchens]  violates the New York State Vehicle and Traffic Law’s “feet must be on pedals” rule. fine: $100. Photographs by Christian Witkin. (http://vnty.fr/1tQ8WYE)

Comments

  1. Assim se vai elevando a qualidade do Aventar

Trackbacks

  1. […] gráfica da língua portuguesa” é exactamente a mesma expressão adoptada na página 59 do documento estratégico orientador Agenda para a Década (ou Agenda pára a Década? — a […]

  2. […] igualmente que o Partido Socialista tem o objectivo de “Implementar as ações [sic] necessárias à harmonização gráfica da língua portuguesa”. […]

  3. […] o PS tem o objectivo de “Implementar as ações [sic] necessárias à harmonização gráfica da língua […]

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