O candidato de Fação

Marcelo Nóvoa

Segundo o Expresso, Marcelo Rebelo de Sousa ter-se-á dirigido a António Sampaio da Nóvoa, durante o debate de ontem, nos seguintes termos: “O senhor é um candidato de fação”. Lembrei-me do episódio ocorrido há uns anos, com órgãos de comunicação social a insinuarem que João Semedo teria acusado Cavaco Silva de fazer um “discurso de fação”.

Como acontecera com Semedo, [faˈsɐ̃ũ̯] foi aquilo que Rebelo de Sousa efectivamente pronunciou e, por isso, teremos «não pode ser de facção» (4:41) e «de uma facção contra outra facção» (18:14), em vez de «não pode ser de fação [?]» ou «de uma fação [?] contra outra fação [?]». Aliás, para se perceber aquilo que aconteceu, basta consultar jornais de referência:

Ele alinha com uma parte do país contra a outra parte do País. O Presidente não pode ser de facção.

Durante o debate, não ouvi aquilo que o Expresso diz que Rebelo de Sousa disse: «O senhor é um candidato de fação [?]». Talvez nos bastidores, mas não me chegou qualquer registo dessa ocorrência: por isso, para já, ficamos sem saber se Rebelo de Sousa insinuou que Sampaio da Nóvoa era um candidato de Fação. Como sabemos, há quem seja acusado de contra Fação. Exactamente: contra Fação.

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

fação

Contra-semântica, co-adopção e contra-senso

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Mark Rothko, Entrance to Subway [Subway Scene],1938, Collection of Kate Rothko Prizel (http://1.usa.gov/13sD0jg)

I try to deny myself any illusions or delusions, and I think that this perhaps entitles me to try and deny the same to others, at least as long as they refuse to keep their fantasies to themselves.

Christopher Hitchens

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Ao ler “Implementar as ações [sic] necessárias à harmonização gráfica da língua portuguesa e da terminologia técnica, nos termos dos acordos estabelecidos”, na página 59 do documento estratégico orientador Agenda para a Década (Agenda para a Década ou Agenda pára a Década?), fiquei a matutar naquilo: “harmonização gráfica da língua portuguesa”.

“Harmonização gráfica da língua portuguesa”?

Interceptar?

“Harmonização gráfica da língua portuguesa”?

Aspectos? Perspectiva? Concepção? Facções? 

“Harmonização gráfica da língua portuguesa”?

Excepcionais convertido para excecionais? Percepção convertido para perceção? Aspecto  convertido para aspeto? Aspectos convertido para aspetos?  Perspectiva convertido para perspetiva? Perspectivas convertido para perspetivas? Concepção convertido para conceção? Respectivas convertido para respetivas? Respectivos convertido para respetivos? Confecções convertido para confeções? Receptivos convertido para recetivos? Ruptura convertido para rutura? Receptiva convertido para recetiva? Facções convertido para fações? Receptividade convertido para recetividade? Respectivamente convertido para respetivamente? Receptor convertido para recetor? Infecciosas convertido para infeciosas? Excepcional convertido para excecional? Recepção convertido para receção? Rupturas convertido para ruturas?

“Harmonização gráfica da língua portuguesa”?

“Harmonização gráfica”?

“Da língua portuguesa”?

Depois de lida a Agenda para a Década (Agenda para a Década ou Agenda pára a Década? — a dúvida mantém-se), debrucei-me sobre o texto  [Read more…]

Chomsky e Houaiss: perspectiva, concepção, aspectos e facções

110p

Elements of Linguistic Structure, Noam Chomsky, 1955 © MIT (http://bit.ly/1vRi4OH)

Truly, we live in a world in which people feel entitled not just to their own opinions but their own facts.

Paul Krugman

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Em qualquer área em que seja usada, tanto no Brasil, como em Portugal ou na África, a língua portuguesa será grafada de uma só maneira. Isso significa que um livro editado em português pode correr todos esses países, porque a ortografia é a mesma

Evanildo Bechara

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Li recentemente um artigo de 1996, do jornalista brasileiro Ibsen Spartacus (1965-2003), acerca do Roda Viva com Noam Chomsky. Lembrei-me, obviamente, do Roda Viva com Antônio Houaiss (1915-1999), ao qual me referi em 2009 (p. 10), com o conhecido lexicógrafo a admitir o valor diacrítico da letra ‘c’, embora errando o alvo: na palavra ‘actividade’, a letra consonântica ‘c’ tem de facto valor grafémico, sim, mas esse valor não é diacrítico.

Neste registo, com um desempenho teórico francamente melhor, Houaiss esclarece aqueles que não conhecem o sistema ortográfico do português europeu: “[a consoante muda], em Portugal, se escreve para fins de abrir o timbre ou por coerência; como em ‘activo’, eles põem o ‘c’ para dizerem ‘activo’ [aˈtivu], em lugar de dizer *’ativo” [ɐˈtivu]; eles põem esse ‘c’ em ‘acção’, coerentemente, por serem co-radicais”. Depois, acrescenta: “para dizerem ‘optimizar’ [ɔtimiˈzaɾ], eles têm que pôr o ‘p’; ao pôr em ‘optimizar’ o ‘p’para essa função de timbre, automaticamente eles levam o ‘p’ para o cognato ‘óptimo'”.

Muitos anos volvidos sobre estas intervenções de Houaiss [Read more…]

Presidência do Brasil

pres brasil

O leitor sabe então que Ulisses, reiteradamente qualificado pelo narrador como o mais subtil dos homens, vive a experiência da perfeição, desde o dia em que o acaso dos mares ou a vontade dos deuses marinhos o atiraram para aquela ilha perfeita, para os braços da perfeita Calipso.

Isabel Pires de Lima

 

Segundo o Público, a palavra ‘mentira’ foi a mais frequente durante o debate entre Dilma Rousseff e Aécio Neves.

Ao ler os programas de governo quer destes dois candidatos à presidência do Brasil, quer da candidata que ficou em terceiro lugar na primeira volta (Marina Silva), detectei palavras muito mais interessantes do que ‘mentira’ — caso não saibam, uma variante específica do conceito ‘indiciariamente inverdadeiro‘.

Adiante.

Se algum defensor, promotor e amigo do Acordo Ortográfico de 1990 se der ao trabalho de percorrer as páginas das propostas de Dilma Rousseff, Aécio Neves e Marina Silva, deixo já um aviso: tropeçará inevitavelmente em palavras exóticas, como aspecto, aspectos, concepção, confecções, excepcional, excepcionais, facções, infecciosaspercepção, perspectiva, perspectivas, recepção, receptiva, receptividade, receptivos, receptor, respectivamente, respectivas, respectivo, respectivos, ruptura e rupturas. [Read more…]

Afinal, há facções e fações

FSP

Hoje, através da Folha de S. Paulo, ficámos a conhecer esta extraordinária ocorrência:

Nova facção mais violenta se organiza em presídios de SP

Decerto, neste preciso momento, alguns defensores do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 terão ficado estupefactos com tamanha heresia no título de um jornal de referência.

Próclise (‘se organiza’) e ênclise (‘organiza-se’) à parte, eis mais um exemplo da “unidade essencial da língua portuguesa” conseguida através do AO90.

A ocorrência da palavra ‘facção’ na Folha de S. Paulo, como acontece com ‘recepção’, ‘acepção’, ‘confecção’, ‘intercepção’, ‘percepção’, ‘peremptório’ ou ‘ruptura’, demonstra que a aplicação de critérios tecnicamente inválidos, além de afectar a tal “unidade essencial“, é claramente prejudicial para quem não adopta a norma brasileira.

Existem razões para o c de ‘facção’. Aquilo que não existe é motivo para se insistir no absurdo Acordo Ortográfico de 1990.

Artur Baptista da Silva é contra Fação?

“Falso consultor da ONU acusado de contrafação“. Contra Fação? Mas porquê?

O presidente da República e o discurso de Fação

Li, nalguma imprensa, que João Semedo teria acusado o presidente da República de fazer um “discurso de fação”, aludindo ao discurso de Cavaco Silva na 39.ª Sessão Comemorativa do 25 de Abril. Achei curioso e fui verificar, uma vez que não conheço discursos característicos de Fação. Havendo discursos característicos de Fação, a letra inicial deveria ser, como acabamos de ver, maiúscula. Afinal (valha-nos a rádio), João Semedo disse que “não há consenso, quando o presidente da República faz discursos de facção”. De facção! Exactamente: [faˈsɐ̃ũ̯] e não [fɐˈsɐ̃ũ̯]. A diferença é gritante, como bem sabemos. Felizmente, a imprensa de referência em ortografia portuguesa europeia não engana. Curiosamente, no Correio da Manhã, o texto sobre o “discurso de Fação” aparece em ortografia portuguesa europeia (ruptura, facção, Março, director…). Haja  esperança.

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