O grande romance do século 21

Gregório Duvivier

Preciso escrever o grande romance do século 21. Mas estou casado e minha vida é uma delícia. Bebemos vinho toda noite e suco verde toda manhã. Ninguém escreve o grande romance do século 21 com essa vida mansa. É preciso um pouco de instabilidade pra se escrever o grande romance do século 21.

Estou separado e morando num motel da Lapa. Difícil escrever o grande romance do século 21 ao som de um bloco de maracatu que se confunde com o show da Anitta na Fundição Progresso enquanto na sua janela um mendigo canta o hino do Flamengo.

O colchão tem sanguessugas do tamanho de um polegar e eu devo respeito às baratas porque elas chegaram aqui antes de mim. Durante a noite, alguém levou o laptop. Difícil escrever o grande romance do século 21 no bloco de notas do celular. É preciso um pouquinho de conforto para se escrever o grande romance do século 21.

Estou num flat no Leblon. Ar-condicionado split, lençol banda larga e internet de mil fios. Baixo filmografias e discografias completas num piscar de olhos. Aliás, é só o que eu faço. Difícil escrever o grande romance do século 21 com uma conexão boa dessas. Eu preciso de um pouco de isolamento. Já entendi o que falta: leitura. Para escrever o grande romance do século 21, é preciso, no mínimo, ter lido o grande romance do século 20.

Estou há um ano tentando ler o grande romance do século 20 e não passei da página 23. O livro é dificílimo de ler -se eu não consigo nem ler o grande romance do século 20 como é que eu quero escrever o grande romance do século 21? Talvez o grande romance do século 21 precise ser um livro difícil, ainda mais difícil que o do século 20.

Talvez os grandes-romances-do-século sejam iguais às fases de videogame: cada século tem que ter um grande-romance mais difícil que o do século anterior. Tenho que voltar atrás nos séculos.

Muito bom esse grande romance do século 19. Ficou ainda mais difícil escrever alguma coisa depois de ler um negócio tão bom. Agora estragou tudo. Eu não tinha é que ter lido nada. O que eu preciso agora é desler o que eu já li e só viver, que isso já basta: o grande romance do século 21 é uma coisa que acontece naturalmente.

Não aconteceu. Vivi uma vida e não bastou. Morreu o século 21 e eu não escrevi sequer um romance, quanto mais o grande romance do século 21. Mas vivi uma vida longa e moro na praia. Não sei se vivi a grande vida do século 21, mas corto um coco como ninguém. Essa praia, esse céu, essa água de coco… Não sei, não, mas acho que essa é a grande água de coco do século 21.

Publicado originalmente na Folha de S. Paulo

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