Imprima-se a lenda

 

A Arthur Machen (1863-1947), escritor galês que ficou conhecido pelos seus relatos de terror e sobrenatural, aconteceu a fatalidade que atinge alguns ficcionistas: não foi capaz, ainda que muito tenha tentado, de convencer os seus leitores de que aquilo que contara não tinha acontecido.

Em Setembro de 1914, publicou no jornal londrino “The Evening News”, um conto sobre a Batalha de Mons, o primeiro embate entre forças inglesas e alemãs durante a I Guerra Mundial, no qual os alemães, apesar da superioridade numérica (160 mil contra 80 mil ingleses) sofreram mais do dobro das baixas (não há consenso sobre os números, mas fala-se em perto de 5000 contra as pouco mais de 1500 do lado inglês). Machen descreveu um momento crucial da batalha, quando tudo parecia perdido para os ingleses e estes, com a fleuma que se lhes conhece, previam, entre comentários sardónicos, a inevitabilidade da derrota face a um inimigo muito mais poderoso. Um soldado inglês lembra-se, então, de uma figura de S. Jorge que havia visto anteriormente e, ao evocá-la, surge, em pleno campo de batalha, uma fileira de anjos arqueiros, que em instantes dizimam as forças alemãs, para assombro dos ingleses que assistiam à intervenção sobrenatural.

Poderia considerar-se um texto propagandístico, para elevar a moral das tropas e de quem, em casa, acompanhava os seus esforços, e estava escrito de forma a parecer fidedigno, um testemunho de quem tinha vivido o episódio e pedira licença à censura militar para relatar a assombrosa experiência. O jornal publicou o texto sem identificá-lo como ficção.

Quando, logo a seguir à publicação, lhe pediram provas dos factos espantosos que tinha relatado, Machen apressou-se a esclarecer que não tinha prova nenhuma porque tudo era imaginário. Mas já havia pouco a fazer. Vários jornais paroquiais pediram licença para republicar a história, que rapidamente passou a fazer parte dos sermões nas igrejas, ou não fosse ela uma prova admirável da intervenção divina em tempos de grande necessidade.

A lenda dos “anjos de Mons” tornou-se popular por todo o país. Machen decidiu inclui-la num volume de contos, ressaltando, assim, o seu carácter ficcional, mas por essa altura já a história era contada por quem nem a tinha lido, incluindo, claro está, detalhes que não faziam parte do original. Uma das versões até assegurava que os corpos dos alemães tinham sido encontrados com sinais de ferimento de flecha, coisa inexplicável. E então começaram a chegar relatos de soldados anónimos que, da frente da batalha, garantiam ter assistido à chuva de flechas divinas sobre o exército alemão, e a esses, quem poderia desmenti-los? Não havia provas de nada, mas elas não eram necessárias. Quem desejava acreditar não precisava de nada mais.

Arthur Machen passaria os anos seguintes a negar a veracidade do relato, a insistir que tudo era ficção, inflamada, é certo, por algum fervor patriótico num momento sombrio da história do seu país, e que de resto até o achava um conto fraco, um dos piores que tinha publicado. Mas os arqueiros de S. Jorge tornaram-se parte da história da batalha, ainda que nunca tenham estado na frente de combate, porque houve um homem que, tampouco tendo estado lá, engendrou uma explicação ficcional para um facto improvável.

Claro está que o potencial propagandístico da história contribuiu para a sua rápida difusão. Uma ilusão colectiva, em tempos de incerteza e temor, pode ser um importante aliado para quem detém o poder e não nos faltam relatos de aparições divinas em períodos de guerra ou penúria, salvações miraculosas, mensageiros divinos. As décadas seguintes, poderosamente tecnológicas, substituíram anjos e arcanjos por alienígenas de intenções por decifrar, mas o mecanismo é sempre o mesmo: procurar, nos céus, os emissários alados que intervenham nos nossos imbróglios terrenais.

A nossa época, reduzida à pobreza espiritual (e refiro-me a uma espiritualidade não arregimentada por nenhuma religião), humana e cultural , produziu a ilusão dos números, a mistificação do humano submetido à economia, aquilo que um dia há-de ser visto como um dos mais espantosos logros em que a humanidade pôde acreditar. Até do estrito ponto de vista da criatividade é pobre.

Para quem tiver curiosidade de ler o conto de Arthur Machen, está disponível aqui no original.
A imagem é de autor desconhecido e foi encontrada aqui. O título, como sabem, é roubado a esse portento chamado “The Man Who Shot Liberty Valance”.

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