Vida a prazo, salvação, atraso

A cena, passada na Comissão da Assembleia da República em que era ouvido Paulo Macedo e em que estavam presentes doentes e familiares de doentes de hepatite C, deixou-nos imagens pungentes de uma televisão-verdade que, por raras – sobretudo no âmbito da AR e dos seus protocolos -, nos despertam como bofetadas.

Um doente que vê esgotar-se-lhe a vida por falta de tratamento, qual náufrago que se sente morrer à vista da praia, interpelou e invectivou o ministro da saúde e, pedindo desculpa aos deputados, retirou-se. Deixou, olhos nos olhos, uma velada ameaça no ar – “a si, eu vou encontrá-lo” – que, se não é caminho para a solução da sua vida e dificilmente poderá ser apoiado como via justa de luta, não deixa de nos motivar empatia e fazer-nos sentir como nosso o drama daquele homem que ali surge como uma figura viva, individual, irredutível, como que emergindo das estéreis estatísticas em que o poder tenta dissolver as pessoas e mantê-las à distância. As pessoas.

Comments

  1. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    A alegação do custo de tratamento, como ouvi, irresponsávelmente o primeiro ministro abordar, é uma pura falácia.
    Ninguém perguntou ao povo português se queria dar dinheiro para pagar o buraco do BPN e quejandos provocado por miseráveis que hoje não só estão vivos, como bem instalados. Mas esse dinheiro foi-nos sacado.
    Alguém perguntou ao povo se ele quer ser mais humano, solidário e responsável que este governo?

    • joao lopes says:

      gostaria apenas de chamar a atenção para dois responsaveis por esta situação:a actual ministra das finanças e o vitor gaspar.p.s.- por outro lado o “preço” do medicamento ,que tanto espanto gerou ,é a ponta do iceberg ,do negocio dos laboratorios farmaceuticos.afinal,porque será que nunca laboratorio algum investiu(fortemente) na cura ou vacina para a malaria?

  2. Rui Moringa says:

    José Gabriel,
    Aceite a minha concordância com o seu texto. Certo, certeiro e sem “retória” para uma legitimação das ideias.
    O comentário do Ernesto Ribeiro é muitissimo oportuno.
    Apenas, uma reflexão mais:
    Aquele HOMEM, nosso concidadão, portanto um de NÓS que se confronta com a sua existência a todo o segundo, merece o nosso respeito e a nossa preocupação.
    Justifico: Através dele, também NÓS nos confrontamos com a nossa existência. Podemos precisar de um fármaco que salva a vida e não o ter.
    Os doentes com hepatite C que se curam com o tal fármaco deviam ser credores de todo o nosso esforço social para levar os desgovernantes que recusam o medicamento a demitirem-se ou, a nunca mais passarem pelo poder (Governo, Assembleia).
    Não compreendo a “passividade” do PS e de outros partidos.
    Estes não terão o meu apoio político (voto). Chega, BASTA.

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