
Nós tivemos um navio naufragado na nossa praia, anos e anos a vê-lo enferrujar, um colosso enterrado, ou o que restava dele, um pedaço de proa ao alto, que os miúdos usavam como parque de diversões, perigoso como era, havia que trepá-lo apesar da inclinação, segurar-se às ripas podres, evitar as lâminas enferrujadas, e, uma vez conquistado, segurar-se bem ao bico da proa e olhar em volta, capitão por instantes. As meninas lingrinhas como eu não o trepavam mas ficavam a ver os rapazes, como se exibiam barco acima enquanto nós temíamos vê-los morrer ali mesmo enquanto comíamos maçãs, que história teríamos depois para contar, aquele rapaz matou-se no barco encalhado, era tão giro, fazia covinhas na cara quando ria. Mas eles salvavam-se sempre, regressavam ao areal triunfais, pegavam-se à porrada para celebrar o feito, obrigavam o vencido a comer areia, e nunca nenhum morreu, o que para nós era bom e entediante.
Ainda antes de nascermos, o encalhado fora um superpetroleiro dinamarquês, cruzava os mares com toneladas, mas fora encalhar num banco de areia, ardera durante três dias e com isso tornara a vida na cidade insuportável, fumos tóxicos, gente internada com problemas respiratórios, lojas fechadas. Depois uma parte afundou, mas a proa foi-se chegando a terra e ali ficou. Nós já só o conhecemos destroço. Deveria ter sido levado dali mas não foi, ou melhor só o seria ao fim de 20 anos, e de tanto ficar passou a ser parte da praia, como se tivéssemos herdado o areal cravejado de pedras pontiagudas, os rochedos, as gaivotas, o mar sempre gelado, os sargaços que atirávamos uns aos outros e que eram como tentáculos de criaturas espantosas que o mar escondia, frias e gelatinosas, e a ruína do barco, onírico navio fantasma que para nós estava ali desde sempre, uma advertência a navegantes, um sinal de que o improvável pode estar entre nós.
Naquelas manhãs em que o nevoeiro não levantava, e do mar vinha um bafo gelado, sentados a tiritar com a toalha pelas costas, ficávamos a olhar o barco engolido pela névoa e víamos sombras de marinheiros, esqueletos caminhando com passos cautelosos para não se desconjuntarem, um perfil de caveira com chapéu de pirata que se voltava lentamente para nós, e quando por fim nos encarava havia lume na cova dos seus olhos e uma gargalhada que nos fazia sair a correr aos gritos pela areia, e era bom ter medo de propósito e saber que não havia lá nada e ainda assim gritar e correr como loucos, e passar mesmo ao lado dos adultos estendidos nas toalhas e ouvi-los berrar, lá atrás, que não lhes mandássemos areia para os olhos, grandessíssimos malcriados que nós éramos.
E ao fim da tarde, quando o mar se incendiava e o barco era sombra, retomava o seu perfil de ruína orgulhosa, que trocara o fundo do mar por nós, seus guardiões involuntários, porque era melhor morrer na praia que perder-se no limbo silencioso que o esperava lá em baixo.
Quando o levaram por fim, ninguém pôde protestar contra a medida, tão certa do ponto de vista ambiental, tão necessária para garantir a segurança, tão regulamentar e ordeira. Mas lamentamos perdê-lo, porque era a nossa ruína, o nosso pesadelo feito fábula, o nosso medo convertido em gargalhada, e a praia sem ele era só uma praia.
Só agora, por ocasião dos 40 anos do naufrágio, conheci o seu nome: Jacob Maersk.






Sublime. Obrigado.
Habiun rumarias pra ver o colosso meio afundado que passados estes anos motibou este belo texto.
O meu barco chamava-se Reijin e naufragou na minha infância ali para Valadares…
Pela primeira e única vez vi o mar a arder. É que não era só o barco que ardia. As explosões fizeram com que grandes quantidades de crude ficassem a flutuar e em chamas.
Vi o mar e vi o céu a arder com explosões como pequenas bombas atómicas com cogumelos e tudo e ainda emprestei (dei) umas sapatilhas numero 44 ao capitão do petroleiro que estava no Hospital de São João, vestido (!) com duas batas e descalço por não haver chinelos que lhe servissem…
Eu também vi o céu a arder. Com a vossa licença:
http://andancasmedievais.blogspot.de/2014/08/o-petroleiro-que-explodiu-no-porto.html