«the rising of the women means the rising of the race»*

Alguém pergunta qual é o papel do homem na ciência, hoje?

A questão que me colocaram não era esta. Tanto mais porque hoje é o dia internacional da mulher. A questão que me colocaram e a que, supostamente, eu deveria saber responder em dois parágrafos, de forma objetiva, foi: qual é o papel da mulher na ciência, hoje?

A minha resposta seria um manifesto inteiro, sobre os homens e sobre as mulheres, na ciência e fora dela. Sobre as persistentes desigualdades de género, na ciência, na academia, no mundo ocidental e fora destas esferas. Na verdade, poderia escrever um manifesto inteiro sobre o respeito dos direitos humanos mais básicos e a sua violação constante, em todas as dimensões da vida coletiva, em todos os pontos do planeta. Até um manifesto sobre a sorte e sobre o azar de ter nascido com o sexo certo, no lado certo do mundo e no lado certo da rua.

Em dois parágrafos não se faz um manifesto. Apenas se pode começar por dizer que se me fazem esta pergunta, que se esta pergunta merece sequer reflexão, sobretudo se apenas merece reflexão num dia específico, é porque, evidentemente o papel da mulher na ciência, o papel da mulher em toda a parte, hoje, ainda está longe de ser igual ao do homem.

Muitos cientistas, homens e mulheres, têm demonstrado, objetivamente, estes papéis desiguais, sem outra origem aparente que a circunstância de se ter nascido homem ou mulher. Estou a simplificar obviamente e estou apenas a referir-me ao lado do mundo que costumamos qualificar como ‘desenvolvido’.

Dados do Eurostat (2008) demonstram que, apesar de existir um equilíbrio quase completo entre homens e mulheres nas Universidades (onde uma boa parte da investigação científica, da ciência, se faz, hoje), no topo das carreiras, onde as grandes decisões (científicas e outras) se tomam, os homens continuam a dominar e ultrapassam a percentagem de mulheres de forma impressionante.

Em Portugal, por exemplo, mais de 45% dos docentes e investigadores são mulheres, mas 80% dos que estão nas posições de topo são homens. Na Universidade de Aveiro, por exemplo, 42% dos docentes e investigadores são mulheres, mas contam-se pelos dedos das mãos, as mulheres que ocupam as direções dos departamentos, que têm assento no Conselho Científico, que são vice ou pró-reitoras.

O que fazem, então, as outras mulheres? Investigam, fazem ciência de qualidade seguramente, mas encontramo-las sobretudo ligadas às tarefas e aos órgãos pedagógicos. Aqui em percentagens muito superiores às dos homens. Encontramo-las essencialmente nessas tarefas que reproduzem a tradição dos ‘lav(b)ores femininos’, nessas tarefas fundamentais para as instituições, mas frequentemente invisíveis e sempre esvaziadas de poder, que são uma espécie de prolongamento ‘natural’ do trabalho doméstico e familiar. Ao menos hoje, talvez valesse a pena pensarmos nisto. E pensarmos como, objetivamente, poderemos, mulheres e homens, mudar isto.

Penso que acabei por escrever um pequeno manifesto. E, no entanto, tudo isto são insignificâncias de quem conquistou já muito num relativamente curto espaço de tempo (a luta das mulheres terá um século), de quem conquistou até o direito de reivindicar mais igualdade de oportunidades e de escrever, em nome delas, manifestos.

No dia internacional da mulher – e nos outros dias todos – não é o papel da mulher na ciência que nos deveria merecer reflexão. O que nos deveria merecer reflexão (e ação) são outros dados. Por exemplo, o facto de as mulheres na União Europeia ganharem em média menos 16,8% do que os homens (em Portugal menos 12,4%). Por exemplo, o facto de sabermos que 70% dos pobres do mundo são mulheres. Ou que dois terços dos adultos sem escolaridade são do sexo feminino. Ou ainda o facto de, no mundo, uma em cada três mulheres ter sido já espancada, forçada a manter relações sexuais e sujeita aos mais diversos tipos de outras violências.

Sou cientista e sou mulher e diante destes dados (e de todos os outros que, com maior ou menor violência, nos dão conta da permanência das desigualdades de género em todas as esferas da nossa vida, e também na ciência) encontro razões suficientes para ser feminista, dispensando, naturalmente, as flores no dia 8 de março.

 

(Texto originalmente publicado no Jornal UA.online. Mantem toda a atualidade, no entanto)

*frase do poema de 1911, de James Oppenheim ‘Bread and Roses’

Comments

  1. miguel R. says:

    Talvez considerem que haja ciencias mais cientificas que outras. E nessas há mais homens

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