Um santo bebedor

 

À parte o Cary Grant, com quem nunca troquei bons-dias, a encarnação do perfeito cavalheiro surgiu-me sempre na figura do Sr. Magalhães. Repare-se, para início de conversa, que eu nem sei o nome próprio dele, não me passaria pela cabeça chamar-lhe outra coisa senão Sr. Magalhães. Era um homem de outro tempo, um tempo impreciso e se calhar mítico, em que os homens eram cumpridores de um código de honra austero. A sua amabilidade era sempre distante, não por arrogância mas para não arriscar encurtar distâncias indevidamente. Nunca lhe ouviram uma palavra impensada, foi sempre cortês e digno, capaz de voltar costas a uma provocação sem que alguém se atrevesse a ver nisso cobardia. Passara poucos anos na escola, era oficiante de uma profissão agora caída em desuso, e não sei se gostava do seu trabalho mas fazia-o com brio. E era dedicado à família, um desses homens que não precisam de manifestações públicas de afecto para deixar claro que continuam enamorados das mulheres década após década. Trabalhou até ao limite do suportável, já minado pela doença, e foi sempre amado e respeitado pelos filhos, que eram três pequenas réplicas do cavalheiresco pai. Era, como vêem, um homem perfeito. Mas era um bêbedo.

E bêbedo regressava sempre a casa nas noites de sexta e de sábado, e todos o sabiam, ainda que nenhum balouçar lhe confundisse os passos, nenhum solavanco, nenhum tropeção que acabasse em queda aparatosa e acordasse as vizinhas. Caminhava muito direito e saudava, cordial e secamente, todos os que se cruzassem com ele. Atinava com a fechadura da porta, entrava sem alarido. Se sabíamos que ele estava bêbedo era porque, pouco depois de fechar a porta de casa, ele punha ópera a tocar, e esse era o sinal que tínhamos aprendido ser o da sua embriaguez. Nessas noites, e apenas nessas, da pequena sala de sua casa chegavam-nos Verdi e Puccini, sempre esses e não outros. Deveria sentar-se no sofá, a mulher e os filhos fariam que dormiam, e ele permaneceria na penumbra, durante o tempo necessário se não para curar a bebedeira pelo menos para atravessar a sua fase mais densa. Quando a cabeça se vai apagando sob o efeito do álcool, os corações tendem a engrandecer e a ópera devia ser o que melhor consonava com o ritmo cardíaco dele.

Naturalmente que os mais próximos desejavam que ele não fosse um bebedor, mas era essa mácula que o tornava maior aos olhos dos outros. O que víamos era um homem cuja grandeza era tanta que, se bem que o vinho o mantivesse algemado, nem por isso o transformava no homem que ele não queria ser.

E se havia algum medíocre invejoso que se atrevesse a referir-se ao senhor Magalhães de forma depreciativa por essa sua mácula, havia sempre quem o calasse com a resposta seca e dura que merecia, porque se entendia como um encargo comum defender quem se respeita e repudiar um insulto vil.

Ter conhecido ainda na infância um perfeito cavalheiro que possuía, em simultâneo, um defeito que era das maiores pechas que um pai de família poderia ter, talvez tenha sido a minha iniciação na aprendizagem do imperfeito. É um chavão, claro, já o era antes do Billy Wilder, ninguém é perfeito. Mas mais facilmente o usamos para justificar as nossas faltas do que para compreender as dos outros.

O Sr. Magalhães haveria de morrer de uma expectável cirrose, que a morte é tantas vezes previsível e chata, e morrer de cirrose era também uma vergonha, e foi cuidado pelos seus, sem reproches nem gestos ressentidos, e morreu com a mesma dignidade e discrição com que tinha vivido. Havendo imortalidade, deveria tocar-lhe uma casa celestial em Honan, com o seu laguito azul rodeado de bambu, que era, tenho a certeza, a sua passagem favorita da Turandot.

Ilustração: “Le soldat boit” de Marc Chagall

Comments

  1. sinaizdefumo says:

    Cada vez me convenço mais, está no tear! 🙂

    “Quando a cabeça se vai apagando sob o efeito do álcool, os corações tendem a engrandecer…” – magnífico

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