Herberto Helder, telúrico

Mulheres correndo, correndo pela noite

Mulheres correndo, correndo pela noite.
O som de mulheres correndo, lembradas, correndo
como éguas abertas, como sonoras
corredores magnólias.
Mulheres pela noite dentro levando nas patas
grandiosos lenços brancos.
Correndo com lenços muito vivos nas patas
pela noite dentro.
Lenços vivos com suas patas abertas
como magnólias
correndo, lembradas, patas pela noite
viva. Levando, lembrando, correndo.

É o som delas batendo como estrelas
nas portas. O céu por cima, as crinas negras
batendo: é o som delas. Lembradas,
correndo. Estrelas. Eu ouço: passam, lembrando.
As grandiosas patas brancas abertas no som,
à porta, com o céu lembrando.
Crinas correndo pela noite, lenços vivos
batendo como magnólias levadas pela noite,
abertas, correndo, lembrando.

De repente, as letras. O rosto sufocado como
se fosse abril num canto da noite.
O rosto no meio das letras, sufocado a um canto,
de repente.
Mulheres correndo, de porta em porta, com lenços
sufocados, lembrando letras, levando
lenços, letras – nas patas
negras, grandiosamente abertas.
Como se fosse abril, sufocadas no meio.
Era o som delas, como se fosse abril a um canto
da noite, lembrando.

Ouço: são elas que partem. E levam
o sangue cheio de letras, as patas floridas
sobre a cabeça, correndo, pensando.
Atiram-se para a noite com o sonho terrível
de um lenço vivo.
E vão batendo com as estrelas nas portas. E sobre
a cabeça branca, as patas lembrando
pela noite dentro.
O rosto sufocado, o som abrindo, muito
lembrado. E a cabeça correndo, e eu ouço:
são elas que partem, pensando.

Poema completo em: http://wp.me/p29WGc-1N

 

Herberto Helder, in Poesia Toda

Comments

  1. Ana A. says:

    O homem pode ter sido uma sumidade, mas eu preciso de um tradutor…para além de me sentir estúpida! It is my fault!

  2. O mancador says:

    Lembro-me de comentário do Vergílio Ferreira num volume da C.Corrente acerca da “compreensão” de Pessoa.A princípio era obscuro,passou a ser difícil mas compreensível com muito empenho e dava exemplo:Vieira de Almeida que topava a marosca um dia leu uns versos de Pessoa e perguntou à assistência —Que tal?—-Difíceis,não há dúvida mas compreensíveis,—-Ah sim ? Então fiquem sabendo que os li de baixo para cima! E rematava Vergílio:—Hoje então é cristalino.
    Pergunto-me se com Herberto Hélder…
    Claro que nada disto se refere à qualidade dos autores citados mas às qualificações de muitos dos devotos.

  3. Joam Roiz says:

    A verdadeira poesia não é “significado” mas “significante”. Não é para compreender nos quadros de uma lógica cartesiana do real. Não é uma reprodução da realidade, produz a sua própria realidade interior. Não é denotatina mas detonante; explora todos os sentidos: “come-se” e “mastiga-se”, “cheira-se” como uma flor ou a merda, “ouve-se” como quem ouve música, porque a música está dentro da poesia, “toca-se” com a pena que a escreve e “vê-se” nos olhos de cada leitor. É múltipla e aberta, não unívoca. Sorve-se por camadas sucessivas e sobrepostas (o mesmo poema é “diferente” se lido aos vinte anos ou aos sessenta, se lido agora ou dez minutos depois). A poesia faz-se com palavras, com a “luz” das palavras e foi com elas que os deuses criaram o mundo (“faça-se luz” e a luz fez-se).

    • Ana A. says:

      “… tinha os pensamentos alojados no estômago,
      nos braços vazios memórias indefectíveis.
      Os olhos no umbigo esquecidos do real e do outro, sonâmbulismo necessário porque útil.
      Devorava o futuro para não ter que o sorver! Enfim, morria…”
      “Autor desconhecido”

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