Quem matou o bambi?


Apesar dos pólenes, nunca me assoo em público quando chega a páscoa. É uma omissão de prudência perante o receio de cometer impropérios que desagradem a igreja, ciosa como é do seu património espiritual mundanamente adquirido. É que, em verdade vos digo, nestas celebradas ocasiões as possibilidades de ser acometido por pulsões heréticas triplicam. Descanso, no entanto, em saber que alguém infinitamente bom arcará com a minha culpa, por mais conspurcados que sejam os meus desígnios.

Pois a páscoa. Anualmente, a páscoa. Etimologicamente a passagem, a passagem do anjo da morte que dizimou os recém-nascidos no Egipto. A décima praga que poupou os rebentos de origem autenticada pelo povo escolhido. Pois que deus instruiu os hebreus para uma chacina de cordeiros cujo sangue serviria para marcar os umbrais das casas de cada família israelita. Assim o anjo poderia matar com critério, permitindo a fuga libertadora do povo escravizado. Primeira conclusão provisória: comemorar a pesach é enaltecer um duplo genocídio: a hecatombe dos cordeiros e o massacre dos primogénitos egípcios.

pascoa

E que passagem comemoram nesta época os cristãos? A passagem do estado sólido para o estado gasoso do ungido. Depois de se deixar crucificar e morrer em nome da humanidade, forma canónica de expiação dos pecados, o mashiah (ungido, em hebraico) ascende aos céus e senta-se à direita de si mesmo, enquanto pai, e em unidade, três em um, com um espírito santo. Compreende-se e louva-se o esforço, mas não era preciso tanto. Os sacerdotes judeus obtinham o mesmo efeito judiando com um bode, a quem confessavam, cansativamente, as malvadezas acumuladas por todos, correndo com ele de seguida para o deserto onde era resgatado por um anjo caído. Uma espécie de envio à cobrança, e até para o ano à mesma hora, expiatório quanto bode. Já porém o christos (ungido, em grego) não delegava. Quis ele mesmo ser o cordeiro que tira os pecados do mundo, confrontando a humanidade com a sua inanidade. Mas a questão, a verdadeira, a una e indivisível, é que ninguém lhe encomendou o sermão. Embora estivessem mesmo a pedi-lo. Segunda conclusão provisória: a comemoração da páscoa cristã é mais uma culpabilização celebrante do que uma celebração desculpante.

Mas a coisa pegou de estaca. E não admira. A historieta, correspondendo a um arquétipo universal, é plagiada dos ritos pagãos da fertilidade, alinhados com o ciclo anual do sol. O sol, princípio gerador, é personificado por um jovem deus, concebido directamente no ventre de mãe virgem por obra de raios solares ou outros fenómenos luminosos, que morre e ressuscita todos os anos, de acordo com os ciclos vitais da natureza. Reis, imperadores e figurões de vária ordem reivindicaram ou eram tidos por ascendência imaculada, como Buda, Krishna, Confúcio ou Lao-Tsé. Osíris, Mitra, Baal, Odin, Adónis, Dioniso, Àtis, Shiva, entre outras, são divindades que morrem e ressuscitam com o propósito de salvar a humanidade. Terceira conclusão provisória: A sub-rogação divina nas responsabilidades terrenas é uma mama muito antiga.

De resto, a comemoração da efeméride de acordo com o ano astronómico, e não segundo a data da presumível ocorrência, confirma a origem pagã da efabulação pascoal. Com a absorção de toda a tralha mítica, as igrejas garantem o efeito integrador necessário à condução do rebanho, que cozinham em lume brando desde tempos imemoriais. E trincham.

Música:

  • Encomendação das almas, Ribeira de Pena, 1985, recolha de José Alberto Sardinha;
  • Igor Wakhevitch – Eau ardente;
  • Musica para a semana sagrada, Sicília;
  • The Tiger Lillies – Jesus;
  • People Like Us – Whistle song
  • Monty Python – Always look on the bright side of life;
  • 180 DG’s on the Future – Christianity is stupid;
  • Nick Cave – Foi na cruz (excerto);
  • Ton Steine Sherben & Kollective Rote Ruebe – Liebe tod hysterie, choral;
  • Gavin Bryars/Tom Waits – Jesus blood never failed me yet;
  • Nick Cave & The Bad Seeds com Kylie Minogue, PJ Harvey, Anita Lane, Shane MacGowan – Death is not the end;
  • Aleluia, Tondela, 1988, recolha de José Sardinha;
  • Negativland – Christianity is stupid.

Foto:

– Who killed bambi, The Great Rock ‘n’ Roll Swindle, Sex Pistols

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Comments


  1. Excelente.

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