Amélia, o jornalista e a Língua maltratada. Tudo à custa do BES

D. Amélia, tem aqui uma conta, digamos, jeitosa, não quer fazer um investimento, temos um produto que vai com a sua cara, chama-se BES Plus…

E a conta jeitosa, digamos, foi parar ao lixo.

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Amélia está hoje em Portugal e ter-se-á dirigido à Sede do Novo Banco, na Rua Augusta, para reclamar o que diz ser seu, a poupança “desaparecida”.

O JN, versão CM, foi atrás dela e dos seus motivos, e entrevistou-a, entregando esse mister a Nuno Miguel Ropio.

Tanta publicidade faria prever uma cliente ajaezada, de voz límpida, que o dinheiro sempre faz brilhar. Nada disso, como adiante veremos.

O destino nada fabuloso de Amélia (fabuloso foi o de Amélie, a do filme) cruzou-a com a família Espírito Santo, como ama dos sobrinhos de Ricardo, filhos de Amy, a irmã. Com o 25 de Abril e a fuga da família para o Brasil, foi Amélia quem ajudou a fechar a casa, garante, sem tocar em nenhuma das pratas deixadas na pressa da fuga. “Sou honesta”, assevera.

Seguiu-se a travessia de Espanha até França, onde passou a residir, emigrada. Conta, abriu-a, claro, no BES de Paris. Os seus ex-patrões eram gente séria, escorraçados pela Revolução, havia que ajudá-los, cada um à sua medida e posses.

Certo dia, um promotor bancário, via telefone, acenou-lhe com o tal produto financeiro, o BES Plus, a senhora caiu no engodo e investiu as poupanças (de uma vida, diz). Ia lá desconfiar da família ES, ela que lhe cuidara das crianças… Sempre tão atenciosos, eles, os escorraçados.

Com o que aconteceu depois ao Grupo, D. Amélia viu-se sem o dinheiro, os juros, perdeu mesmo o rasto à família, cujos herdeiros criara. Decidiu, então, vir a Lisboa reclamar, aumentando o caudal daqueles que, por estes dias, não param de se manifestar em algumas dependências do Novo Banco.

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É aqui que entra, com grande destaque, o JN, com chamada eminente à primeira página, e profusa prosa no interior. Aos critérios editoriais digo nada, cada um sabe o que faz dinheiro, mas não me parece que a ama dos meninos de Amy mereça destaque igual aos 700 mil euros que Carlos Queiroz perdeu no mesmo Grupo. A não ser que…

Será lícito, também, tentarmos saber, por motivos meramente estatísticos (!), quanto é capaz de poupar uma ama precisada, em Paris?

A certo passo da entrevista, diz D. Amélia, triste por não saber dos meninos Salgado: “Não sei o que é feito deles hoje. Porque se soubesse, pediria-lhes ajuda“.

Exactamente, “pediria-lhes”. Tal e qual!

Também eu, se conhecesse o Nuno Miguel Ropio, pedir-lhe-ia para mudar o termo, mas já é tarde, e resta-me esta unilateral manifestação indignada, às tantas com pior resultado do que D. Amélia: essa ainda tem esperança. Com tudo o que vejo e oiço, não me espantaria que uma ama fosse uma boa imagem para a luta dos “coitadinhos” que diariamente fazem fila e barulho nas agências bancárias. Que não haja um aproveitamento para sensibilizar a opinião pública, afinal é tudo gente simples, até amas, emigrantes, há que ajudar a ressarci-los. Primeiro, a dor de alma a que urge pôr cobro, com o dinheiro solidário dos contribuintes, claro. Os grandes vêm já a seguir.

Confesso que, com este jornalismo, se D. Amélia tem esperança,eu tenho cada vez menos. Falo dos critérios editoriais.

Quanto ao erro gramatical, a um jornalista, não se lhe pede que seja linguista. Mas é-lhe exigido que, minimamente, saiba conjugar. Eu sei que os pronomes chateiam, sobretudo no futuro e no condicional, mas, que raio, já me chegava o questionável critério sobre a magnitude da notícia. “Não havia necessidade” de, maxime, o trabalho ter sido entregue a um jornalista que se baralha nas conjugações verbais.

JN, JN, quem te viu e quem te vê!

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Nota: Não tenho dúvidas de que D. Amélia deve ter dito, mesmo, “pediria-lhes”. A uma ama até se perdoa, sobretudo se ponderarmos o seu trajecto de vida, numa época em que era muito difícil estudar e/ou sobreviver. A um jornalista, quiçá com um curso superior de comunicação, já não é admissível. É intolerável.

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