A ideia salvadora

O meu amigo estava desesperado. Ele é matemático e o melhor do seu trabalho ocorre no estranho e esotérico campo da matemática estocástica. Ora, estando há uns tempos de volta de um inovador e complexo paper destinado a uma prestigiada revista científica, tinha emperrado numa dificuldade. Faltava-lhe um detalhe, qualquer coisa, uma intuição salvadora que o desencalhasse. Os computadores fumegavam, as folhas de notas acumulavam-se cheias de cálculos cuja mancha gráfica parecia uma colónia de formiga salalé enlouquecida. Mas nada. Falei com ele num serão de angústia criativa, animei-o conforme pude, já que ajudá-lo nas suas matérias de investigação estava completamente fora do meu alcance. De repente, pareceu-me que lhe ocorria algo de novo. O seu rosto iluminou-se um pouco. Partiu, resmungando que se aquilo não resultasse, nada resultaria.

Encontrei-o no dia seguinte, estava eu a tomar o meu café numa plácida esplanada. Era um homem novo! Entusiasmado, tirou um maço de folhas e colocou-as cuidadosamente na mesa. Escolhendo uma delas com um ar criterioso, apresentou-ma triunfante. Achei! – dizia. E repetia. Olhei para a folha, que continuou a parecer-me a colecção de insectos de um entomologista neurótico, embora com um ar bem mais organizado que as que tinha visto anteriormente e perguntei-lhe, titubeante, o que tinha achado, qual era a novidade. Está aqui! – explicava-me apontando, exultante, uma série de expressões matemáticas que me levaram a franzir a testa com um ar conhecedor, para não ficar muito malvisto, já que não fazia ideia do seu significado. Mas percebia, pela felicidade do meu amigo, que a dificuldade havia sido superada e o seu problema resolvido. O trabalho estava pronto! Cumprimentei-o e perguntei como tinha tido a brilhante intuição que lhe desbloqueara o seu complexo emaranhado de cálculos. Tinha sido durante o sono? Tinha passado a noite em branco, trabalhando até encontrar a solução? Ocorrera-lhe um golpe de génio?

– Nada disso – respondeu-me. Telefonei ao Passos Coelho e ele deu-me a ideia!

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