Cotovelo com cotovelo

A Lucrécia tem outro nome, um nome banal para uma mulher da sua geração, escolhido por uma madrinha modista de quem apenas resta um retrato nos estúdios Riviera, um leque comprado numa excursão a Salamanca e uma afilhada que recusa usar o nome que recebeu. Escolheu Lucrécia porque lhe soa a veneno, a perfídia e a poder.

A Lucrécia parou de contar a idade nos 69, já lá vai um bom tempo, mas ninguém lhe dá mais de 60. Loura platinada, pele morena (“Pareço uma cigana”), calças justas e camisolas com estampado de tigresa. Unhas longas e vermelhas. Muito vulgar na aparência, mas cuidadosa quando fala com quem não conhece.

Esteve casada com um cavalheiro que torrava fortunas no casino e que lhe deixou tudo penhorado. Gosta de contar histórias do seu paizinho patrão da indústria, da mãe que era uma judia alemã, muito loira e taciturna, que guardou até ao túmulo os segredos da sua fuga de Ravensbrück, e que era má como as cobras, Deus lhe perdoe, porque sofreu muito às mãos do Hitler.

A Lucrécia cresceu rebelde e fogosa e deixou a mãe muito aliviada quando, por fim, fugiu de casa. Engravidou aos dezassete, haveria de casar com outro, que foi como um pai para a criança e que era um santo homem, pena o vício do casino. Depois dele, só amou um, que acabou detido em Lisboa, e com quem só fala agora por telefone.

Ela é assim, explica-me, “toda coração e pele”. E com a profissão que tem, acrescenta, não podia ser outra coisa.

Eu não pergunto que profissão é essa porque já aprendi que me arrependo sempre da minha curiosidade excessiva, e, bem vistas as coisas, a torrente soltou-se e as revelações já não dependem da minha curiosidade.

Na casa pequenina onde nos conhecemos, e onde acabámos todos sentados à mesma mesa, enquanto couber outro banquinho apertamo-nos mais um pouco, cotovelo com cotovelo, evitam-se as confidências porque não se confunde espaço com intimidade e não se abre o coração a quem não se conhece de lado nenhum. A Lucrécia, cheira-me desde o início, é mentirosa. Mas eu sempre gostei que me contassem histórias.

As braceletes tilintam-lhe nos braços e as unhas vermelhas estendem-se para tocar-me no pulso. Para que são esses olhos tão grandes, Lucrécia?

– Quando precisar de alguma coisa, fale comigo. Sou parapsicóloga.

Ergo o copo e pisco-lhe um olho. Os mitómanos gostaram sempre de mim.

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