Cartoline di Roma #1

‘Il passato è un fiume’ o ‘Giuro che me sembrava francese’

Voltar a Roma depois de sete anos (embora entretanto aqui tenha passado de comboio para outras paragens algumas vezes, sem, no entanto, parar) é regressar a um sítio muito familiar. Voltar a Itália depois de dois anos é, definitivamente, regressar a uma casa que é nossa, mesmo se a visitamos apenas de vez em quando. Uma casa onde se conhecem os cantos, mesmo no escuro. Onde nos movemos bem, mesmo de olhos fechados. Uma casa que se entende, mesmo sem acender a luz.

Saio de Lisboa quase às 3 da tarde. Estou com os meus pais apenas umas horas, algumas das quais passamos a dormir. Decidem ambos ir levar-me ao aeroporto, apesar da minha insistência em contrário. Apanho um táxi, repito, para não dar trabalho. Mas o meu pai, apesar dos seus 77 anos, é um homem que não se deixa vencer assim tão facilmente. Se já consegui que não me vá buscar à estação ou ao aeroporto quando chego de noite, não consegui ainda (e espero que o não consiga por mais alguns – muitos – anos fazê-lo desistir do prazer que tem em ir buscar e levar as filhas (faz o mesmo com a minha irmã) a qualquer lado. Às vezes, quando não trago – como agora – o carro para Lisboa, leva-me ao cinema ou onde for preciso, mesmo que eu lhe diga que não é necessário, que vou de transportes públicos. É também o meu pai quem frequentemente se levanta, seja que horas for, mesmo muito de madrugada, para me fazer o pequeno almoço muitas vezes que estou em Lisboa de passagem para algum lugar. É também o meu pai que me faz o café depois das refeições, mesmo que eu lhe diga que não se levante. Há estes rituais de mimo de que gosto tanto e que quero aproveitar sempre, muito e por mais tempo.

Acordo tarde, porque dormi mal, não interessa muito agora dizer porquê. Não tomo o pequeno almoço, bebo só café. Antes da uma como a melhor canja de galinha do mundo. A da minha mãe. Era capaz de me alimentar assim a canja de galinha feita pela minha mãe. E a queijo. E morangos. E iogurtes. E café. A seguir vamos para o aeroporto. A minha mãe diz-me que ligue mal aterre e que quando regressar a Aveiro faça o mesmo. Digo-lhe ‘ó mãe, antes de eu voltar falamos ainda algumas vezes, não?’. Ri-se. ‘Pois, é verdade, não ligues filha que eu já estou a ficar chéché’. Não está nada. Apesar dos seus 79 anos. Qual chéché?

O aeroporto de Lisboa está na mesma confusão em que o deixei há coisa de duas semanas, vinda de Londres. Faço o check in numa maquineta. Bebo mais um café. Passo pelo controle de segurança. Apito. Sou revistada. Avanço. Compro cigarros no duty free. A rapariga da caixa pede-me o cartão de embarque em inglês. Dou-lho sem abrir a boca. A seguir diz-me o preço do tabaco, de novo em inglês e eu estendo-lhe o cartão e finalmente digo ‘aqui tem’. Olha para mim espantada e diz ‘peço desculpa, não pensei que fosse portuguesa’. Acontece-me muito, em toda a parte, não se preocupe, penso eu, mas apenas lhe sorrio e digo ‘não tem mal’.

Fumo alguns cigarros na grande jaula nova para fumadores, de que vos falei há cerca de 4 semanas. Penso que podia estar naquela canção do Rufus Wainwright, outra vez*, aquela em que ele pergunta ‘why am I always on a plane or a fast train?’. Podia e se calhar estou a avaliar pelo que me dizem, que nunca páro. Páro, pois, mas poucas vezes. Se calhar estou, se ainda há duas semanas aqui estive e lamentei a confusão. Com a música do Rufus na cabeça, vou para a porta 20. A fila é imensa. Há muitos brasileiros. Umas mulheres italianas constatam muito alto que perderam os maridos. Um foi para ali e outro foi para acolá, repetem, um pouco, parece-me, apreensivas que eles não regressem a tempo de entrar no avião. Devem ter regressado.

A viagem faz-se tranquilamente. Quase que termino ‘A Última Palavra’ do Hanif Kureishi. Devia ter trazido o ‘Histórias de Roma’, do Enric González, fazia sentido e tinha pensado nisso, mas acabei por me esquecer. Não importa, lê-lo-ei seguramente quando regressar a casa. Aterramos sãos e salvos. Há quem bata palmas, eu contento-me em ficar aliviada por ter os pés assentes no chão. Por estar de volta a Roma. Saio do aeroporto para fumar e ligo à minha mãe, claro. Penso com algum desgosto que, desta vez, como noutras em que aqui pousei os pés e outras coisas, incluindo o coração, não há um ramo de girassóis à minha espera, mas o telefone apita e há uma mensagem que diz ‘ciao Elisa, benvenuta!’. Não é o mesmo que girassóis, mas na verdade é o mesmo que girassóis. ‘O passado é um rio’, como escreve o Kureishi no livro que estou a ler. ‘Il passato è um fiume’. Passa, mas pode regressar de vez em quando. Frequentemente regressa, mesmo se as águas já não podem ser as mesmas de antes.

Reentro e procuro a estação do comboio para a estação Termini. Facilmente a encontro. Compro o bilhete noutra maquineta e vou para a plataforma. A viagem faz-se em menos de 30 minutos. Na estação de Termini procuro a linha para Rebibbia. Compro um bilhete para uma semana, visto que vou usar o metro todos os dias. De qualquer modo, o bilhete serve para os autocarros e para os eléctricos também. Fica bastante mais barato que pagar viagem a viagem. Apanho o metro e saio três estações à frente, na Piazza Bologna, onde fica o hotel. Cá fora acendo outro cigarro (que querem? andar de avião enerva-me ligeiramente) e começo a olhar em volta para me orientar. Recebo outra mensagem. Desta vez do Stefano, um rapaz que não conheço pessoalmente, que é meu amigo no facebook porque eu sou amiga de uma amiga dele. Redes. Tínhamos falado vagamente em beber um café ou uma cerveja por estes dias que cá estou. Propôs-me um filme e uma cerveja antes, no facebook. O filme digo que não, que não há tempo, mas a cerveja, vamos a ela. Os amigos dos amigos, nossos amigos são, ou, pelo menos, é o que se diz. Esta mensagem diz ‘come procede?’. Eu respondo que estou na Piazza Bologna à procura do hotel e que depois não sei, talvez vá jantar a Trastevere, ele que me diga quando estiver disponível.

Depois de responder avanço para o meio da praça. Há pessoas sentadas num banco e pergunto a uma rapariga se sabe onde o fica o hotel. É inglesa, não sabe. Ali quase em frente está um grupo de 3 ou quatro homens e eu pergunto, em italiano, se sabem. Um dos homens dà-me instruções em italiano e eu repito, dizendo uma das palavras com sotaque castelhano. O homem pergunta-me: ‘é espanhola?’. Não, portuguesa. Sorri e volta a explicar-me. Entendo e digo muito obrigada e vou para o hotel que, afinal, é já ali a menos de 200 metros da saída do metro. O hotel é um bocadinho antigo, mas é limpo e o quarto é simpático. Tiro as coisas da mala, penduro-as. O Stefano responde que afinal só vão (ele e os amigos) ver o filme às 22h mas que se estou na Piazza Bologna a seguir podem vir aqui, a um pub sossegado que conhecem, beber um copo comigo. Digo-lhe que me apetece ir jantar a Trastevere e que então se calhar o melhor é ficar para amanhã. Assim seja.

Volto a sair do hotel e atravesso a praça. reparo que preciso de atar o sapato e sento-me num banco. Vejo depois que em frente estão os homens a quem há mais de meia hora perguntei direções. Aceno ligeiramente com a cabeça e enquanto estou a atar o sapato o homem que me deu as indicações aproxima-se sorridente e senta-se ao meu lado. Não sei bem o que dizer e sorrio-lhe. Ele pergunta se sou de Lisboa. Digo que mais ou menos. Nasci lá mas vivo noutro sítio agora. O homem quer saber o que venho fazer a Roma. ‘Turismo?’. Não, venho trabalhar, a uma conferência. Interessa-se pelo tema da conferência e diz ‘que interessante’. Sorrio outra vez e levanto-me. Levanta-se também e pergunta se é a primeira vez que estou em Roma. Digo-lhe que não. Digo-lhe que tenho de ir. Pergunta-me o que vou fazer. Digo – mesmo sabendo que não será assim, hoje, pelo menos – que vou ter com um amigo. Olha-me com alguma desilusão e pergunta-me se amanhã estarei livre. Não, digo-lhe eu, não estarei. Que pena, pensei que podíamos ir tomar um café, comer alguma coisa. Agradeço-lhe. Mas que não. E adeus. Diz-me adeus desapontado e eu penso, enquanto me aproximo novamente da entrada do metro, que também isto é tão familiar. Também isto é tão a Itália. Também isto é tão imensamente Roma. ‘Il passato è un fiume’, de facto. Não há sítio no mundo que conheço onde isto suceda em menos de uma hora de termos chegado. Isto, quero dizer, estas abordagens. Que não são sequer antipáticas. Mas que são tão tipicamente italianas, tão tipicamente ‘de roma’ e de todo o sul de Itália.

Páro novamente em Termini. A seguir apanho o autocarro H para Trastevere. O autocarro avança por todos os sítios familiares, a Piazza della Republica e os seus edifícios circulares, a ‘máquina de escrever’**, na Piazza Venezia, o Coliseu, até atravessar a Ponte Garibaldi sobre o rio Tevere. Saio na primeira paragem depois da ponte e meto pela Via di Lungaretta. A meio, na Piazza S. Ruffino, há um restaurantezinho que me parece simpático, embora esteja cheio, como cheias, a abarrotar, estão as ruas por toda a zona de Trastevere. Assim mesmo fico ali. O senhor aproxima-se e eu digo ‘una’. Faz um grande sorriso e diz ‘Prego Signorina’ e aponta-me uma mesa. Sento-me. Peço ‘bruschetta al pomodoro’ e ‘scaloppine ai porcini’ e uma salada de rúcula com tomate e ‘una birra alla spina’. A comida italiana é a melhor do mundo que conheço. A bruschetta sabe-me pela vida. Os cogumelos no molho do escalope são a oitava maravilha do mundo. O empregado que me serve, trata-me por ‘madame’ e diz ‘voilá’ quando traz as coisas, apesar de falarmos em italiano. É simpático. Como os outros, aliás. E isto é, mais uma vez, tão italiano, esta atenção e cuidado para com as mulheres sozinhas nos restaurantes e nos bares. Um cuidado que não é senão isso mesmo, cuidado. Nunca fui tratada de outra maneira em toda a parte de Itália, em todos os sítios onde comi sozinha. Sempre assim, com cuidado.

Quando pago, o empregado, estende-me a mão para que olho ligeiramente espantada e diz ‘è stato un piacere ‘madame”… acabo por lhe apertar a mão e ao fazê-lo ele diz ‘aurevoir, madame’. respondo-lhe ‘merci, mas je suis pas française’. Ele olha-me espantado e pergunta ‘ma dove sei?’ ‘Portoghese’, respondo eu. E ele, ainda um pouco assombrado, convencidissimo – e isto é igualmente muito italiano, eu ser sempre francesa aqui – da minha nacionalidade, ‘Giuro che me sembrava francese, signorina’. Sorrio e digo que não faz mal nenhum. E digo ‘arrivederci’. E volto a pensar ‘che il passato è veramente un fiume’.

Refaço o caminho todo, vejo uns girassóis que me dão as boas vindas, antes de me meter no autocarro H em direção a Termini. Quando saio depois na Piazza Bologna, os homens já se foram embora naturalmente, e eu fico aliviada, mas a praça está cheia de gente que bebe e conversa animadamente. Passo por todas aquelas pessoas e entro no hotel. Pergunto ao rapaz da receção se para fumar tenho de vir cá abaixo, se não há um terraço ou assim lá em cima. Olha-me com ar de caso e responde… ‘pode fumar à janela, que não há problema’. Por cima da cabeça dele há um enorme sinal vermelho e branco que afirma ‘vietato fumare’ e eu faço um ar interrogativo. Reafirma que se quiser, posso fumar á janela, sem problema. E eu acredito. Porque também isto é absolutamente italiano. E eu gosto tanto disto que era capaz, não tendo de trabalhar para viver, de ficar aqui para sempre.

*A canção do Rufus Wainwright a que me refiro é ‘oh what a world’ https://www.youtube.com/watch?v=0wj4k5RM_5Y
** A ‘Máquina de Escrever’ é assim conhecida pela sua forma. Também é chamada ‘Altare della Patria’ e é o monumento a Vittorio Emanuele II, o rei da Itália unificada.

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