O ministro de Deus

maxresdefaultCalvão da Silva é, como qualquer ser humano, múltiplo. Para além de agente de seguros, é agente de execução liquidatária do Estado, é ministro semanal da Administração Interna e tem tempo, ainda, para ser ministro de Deus e teólogo da inundação.
Corajosamente, Calvão revela que “Deus nem sempre é amigo”. Sem medo de correr riscos, o ministro deixa, portanto, claro que, por vezes, Deus é inimigo, o que poderá originar mais um cisma no mundo cristão e o nascimento da seita calvanista. Mas Calvão não se fica por aqui: ao assumir que um acto de Deus pode ser demoníaco, o novo Lutero confirma a consubstanciação de Deus e do Diabo, o que poderá trazer um novo alento às igrejas satânicas.
Calvão da Silva é, também, exegeta desse grande texto que é, no fundo, a vida e, por isso, sabe que os nomes, os actos e os acontecimentos têm significados ocultos. Assim, não é por acaso que, na referência ao falecimento de um homem, o ministro tem o cuidado de lembrar a idade do falecido, o nome da mulher e o apelido do morto. Na realidade, quem tem 80 anos, uma mulher chamada Fátima e é Viana de apelido está pronto para morrer, porque a idade indica que a hora chegou e porque os nomes contêm todos eles ressonâncias religiosas. Além disso, ficamos a perceber que o senhor Viana não foi vítima de uma inundação, antes escolheu entregar-se a Deus, porque, caso contrário, não estaria no insondável caminho da enxurrada.
De qualquer modo, tendo em conta o carácter também demoníaco do Deus calvanista, saber que este “reserva um lugar adequado” ao recém-falecido não é exactamente tranquilizador, porque uma pessoa não sabe o que esperar de um Deus que nem sempre é amigo, sendo, por vezes, diabólico.
Com a iminente queda do governo, Calvão da Silva poderá dedicar-se exclusivamente a espalhar a palavra de Deus, entregando-se ao Diabo. Ou vice-versa.

Comments

  1. joão lopes says:

    existem pessoas que evocam o nome de Deus para tudo e mais alguma coisa:ministra cristas,deputado abreu e ministro calvão,por exemplo ,só falam de religião…será que temos que encomendar uma “pastoral” ao Papa Francisco ,para dizer ao paf que eles são pagos para governar,não para envangelizar.

  2. ZE LOPES says:

    Para além do inegável contributo teológico, teremos de creditar a Calvão o anúncio da existência de um seguro contra danos causados por obra de Satanás! É um passo de longo alcance para garantia da sobrevivência da Humanidade! Deo gratias, aleluia!

  3. martinhopm says:

    Calvão, ministro de Deus ou do Diabo? Ou ministro de Deus e do Diabo? Ou ministro do Diabo, tão simplesmente?

  4. martinhopm says:

    António Nabais, gosto do texto e da fina ironia que o percorre. Parabéns!


  5. As declarações deste ministro e a referência à intervenção da Senhora de Fátima na avaliação da Troika protagonizada por Cavaco superaram os discursos de Salazar. Mas, vá lá, podia ter sido pior: imaginem que lhe dava para justificar a intervenção do demo como vingança pelo facto de terem tirado a maioria à PaF! «Ai não votaram na direita?! Então, tomem lá um dilúvio».


  6. “An act of God is a legal term for events outside human control, such as sudden natural disasters, for which no one can be held responsible.”

    https://en.wikipedia.org/wiki/Act_of_God

Trackbacks


  1. […] e ninguém foi responsabilizado. Até aqui nada de novo, estamos em Portugal. Afinal de contas, se até o ministro ungido por Deus Nosso Senhor Jesus Cristo atestou a idoneidade de Ricardo Salgado, quem somos nós, comuns mortais, para o querer atrás das […]


  2. […] que as referidas épocas resultassem de decretos. Chegou mesmo a haver um ministro a explanar uma verdadeira teologia da enxurrada, que, para isso, pelo menos, os ministros servem, sejam de Deus ou do […]

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.